Tadej Pogacar atualmente domina e deverá tornar-se o expoente máximo na história do ciclismo

O peso dos campeões

A hegemonia incomoda. Mas a história do desporto ensina que ela nunca é eterna - e quase sempre é o preço da grandeza

Sempre que um campeão parece inalcançável, instala-se o mesmo debate: estará a competitividade em risco? A pergunta repete-se de geração em geração, como se o desporto devesse garantir equilíbrio permanente e finais ao sprint. Mas a verdade é outra. A história nunca foi escrita pela igualdade constante; foi construída por ciclos de domínio, por atletas e equipas que, durante um determinado período, fizeram melhor do que todos os outros.

É isso que acontece hoje no ciclismo com Tadej Pogacar. A superioridade do esloveno é tão evidente que quase parece banal. No Tour de França, a corrida mais mediática e exigente do calendário, bastou uma etapa de montanha para voltar a cavar uma diferença que faz recordar os dois anos anteriores. Se nada de extraordinário acontecer, o quinto triunfo deixá-lo-á lado a lado com Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault e Miguel Indurain. Conhecendo a sua idade e a forma como continua a vencer, é legítimo pensar que não ficará por aí.

Curiosamente, muitos olham para esta supremacia como um problema, esquecendo que os maiores da modalidade também venceram assim. Merckx ganhou com minutos de vantagem. Hinault fez o mesmo. Indurain transformou cinco Tours consecutivos numa demonstração de força raramente vista. Até Anquetil, cuja última vitória foi decidida por escassos 55 segundos, construiu a sua lenda com diferenças que, noutras edições, ultrapassaram largamente os dez minutos.

Nem é preciso recuar tanto. Jonas Vingegaard interrompeu o primeiro ciclo vencedor de Pogacar em 2022 e 2023, mas também ele o fez sem margem para dúvidas. Chris Froome dominou uma geração inteira. Antes e depois deles houve sempre alguém capaz de impor uma hegemonia, porque o desporto também vive destes momentos em que um talento excecional coincide com uma estrutura de excelência.

Confundir domínio com falta de interesse é esquecer a essência da competição. O objetivo nunca foi garantir alternância artificial de vencedores; sempre foi descobrir quem é o melhor. E quando surge alguém capaz de elevar a fasquia para níveis que os restantes não conseguem acompanhar, o desporto não perde. Pelo contrário, ganha uma referência, um desafio e uma nova página para a História.

As hegemonias não são eternas. Nunca foram. Terminam sempre da mesma forma: aparece alguém melhor, mais forte ou simplesmente mais preparado para inaugurar um novo ciclo. Foi assim com Merckx, com Hinault, com Indurain, com Froome e será, inevitavelmente, com Pogacar.

Até lá, talvez a melhor atitude não seja lamentar a distância para os adversários, mas apreciar o privilégio de assistir, em tempo real, a um dos maiores campeões que o ciclismo alguma vez conheceu.

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