Paulo Fonseca atira-se a Trump e Infantino: «Sinto-me cada vez mais revoltado»
Quatro anos após a invasão russa, Paulo Fonseca partilhou o seu testemunho sobre a guerra na Ucrânia, país da mulher, Kateryna, e onde treinou o Shakhtar Donetsk. O treinador português do Lyon recordou a fuga de Kiev sob bombardeamentos e expressa a frustração com a situação atual
A ligação de Paulo Fonseca à Ucrânia é profunda e pessoal. O treinador português, de 52 anos, que comanda o Lyon desde janeiro de 2025, considera o país da mulher «meio» seu, uma afinidade reforçada pelas três épocas em que orientou o Shakhtar Donetsk (2016 a 2019). Quatro anos após o início da invasão russa, a dor da guerra continua a ser uma presença constante na vida.
As memórias da fuga de Kiev, numa viagem de 30 horas de autocarro até à Moldávia para escapar aos ataques russos, permanecem vivas. A guerra não é um assunto distante para Fonseca... faz parte do quotidiano, tanto em casa como no trabalho. No seu balneário no Lyon, conta com o avançado ucraniano ex-Benfica Roman Yaremchuk, e o treinador de guarda-redes, António Ferreira, é também casado com uma cidadã ucraniana.
Questionado sobre os seus sentimentos quatro anos depois, a resposta de Fonseca é inequívoca. «Sinto-me cada vez mais revoltado», disse em entrevista ao L'Équipe. O técnico lamenta o agravamento do conflito. «Os ataques contra a Ucrânia são sempre mais importantes e mais mortíferos. Tinha a esperança de que, com o tempo, as coisas mudassem, mas desde que o sr. Trump regressou ao poder e prometeu uma paz rápida, a situação piorou drasticamente», afirmou, criticando a posição dos Estados Unidos por ter «fragilizado a posição da Ucrânia e da União Europeia».
A angústia é partilhada pela sua mulher, Kateryna, natural de Donetsk, que vive o conflito desde 2014. A família foi forçada a abandonar a casa duas vezes: primeiro de Donetsk para Kiev, e depois de Kiev para Portugal. «É terrível, muito difícil de aceitar», desabafou Fonseca, recordando o drama dos sogros, que viram a casa que construíram uma vida inteira ser destruída. «Alguns dias depois de termos levado os avós da minha mulher para Portugal, a casa deles foi completamente destruída. Não resta nada da cidade, perto de Donetsk», revelou o treinador.
No meio da desilusão, Fonseca elogia a postura do presidente francês, Emmanuel Macron, descrevendo-o como «um dos melhores aliados da Ucrânia» e «o presidente mais corajoso de todos os países europeus». Segundo o técnico português, «precisávamos de mais presidentes com a coragem do presidente francês».
«Sinto-me um pouco ucraniano»
Apesar da destruição, o carinho de Paulo Fonseca pelo país permanece intacto. «A Ucrânia é um país fantástico. Adoro as pessoas, adoro o país. Sinto-me um pouco ucraniano», confessou, elogiando cidades como Kiev, Lviv e Kharkiv, onde passou muito tempo. Para o treinador, olhar as notícias da Ucrânia antes de dormir tornou-se um ritual amargo, que o recorda de quão longe se está de uma solução.
A memória do início da guerra na Ucrânia permanece viva, marcada por uma imagem indelével. «Em Kiev, o nosso apartamento fica no último andar. E quando ouço aquele barulho, às 5 da manhã, levanto-me, vou à janela e vejo o fumo. É bastante longe. Mas esta imagem, quando me aproximo da janela e vejo o fumo sobre a cidade, aquele barulho, não me sai da cabeça», atirou.
Apesar da tensão crescente, a invasão de Kiev foi uma surpresa. «A situação estava muito calma em Kiev. Poucas pessoas acreditavam que a guerra ia começar em Kiev», recorda, explicando que a crença geral era que o conflito se limitaria às regiões de Donetsk e Luhansk. «Mesmo no clube, no Shakhtar, lembro-me que as pessoas estavam calmas. Não acreditavam que fosse acontecer assim», revelou.
«Gostaria de treinar a seleção ucraniana»
Atualmente, a ligação à Ucrânia mantém-se através dos amigos, como Vitaly, que trabalha no Shakhtar. Segundo os relatos que recebe, a vida em Kiev adquiriu uma aparência de normalidade, com restaurantes abertos e muito trânsito. «As pessoas habituaram-se, se é que se pode dizer isso. Têm uma aplicação no telemóvel, sabem quando chegam os drones, os mísseis, e então vão para os abrigos».
No entanto, esta normalidade é frágil e enganadora. «Eles tentam viver uma vida normal. Mas não há normalidade», sublinha. A angústia é constante, especialmente para os pais. «Tem um filho, leva-o à escola de manhã e pergunta-se o que pode acontecer na escola. Uma bomba pode cair sobre o edifício e nunca mais verá o seu filho. Imagine o que é: vai trabalhar e a qualquer momento pode cair uma bomba no local onde está a sua família, e sobretudo os seus filhos. As pessoas tentam viver uma vida normal, mas creio que é impossível. É um quotidiano terrível», explicou.
O filho mais velho, que tinha três anos na altura, não esqueceu a sua casa. «Ele fala muito de Kiev. Pergunta-me sempre quando voltarei a Kiev. Quando voltaremos para casa», revela, confirmando que para o menino, Kiev continua a ser o seu lar. O desejo de regressar é mútuo. «Adoro Kiev, adoro a Ucrânia. Gostaria de voltar à Ucrânia para trabalhar, para ajudar este país, para desenvolver o futebol, que tem um potencial imenso», afirmou, partilhando um dos seus sonhos: «Gostaria muito de voltar a treinar a seleção nacional, ou regressar ao Shakhtar. Sinto que, de certa forma, tenho de retribuir tudo o que me deram.»
Críticas a Infantino e Trump: «É uma vergonha»
Numa nota mais política, foram tecidas duras críticas à FIFA e ao seu presidente, Gianni Infantino, bem como ao antigo presidente dos EUA, Donald Trump. A possibilidade de o Mundial se realizar nos Estados Unidos é vista com desagrado: «A verdade é que nós, que amamos o futebol, gostaríamos que o Mundial se realizasse noutro lugar, e não nos Estados Unidos, não neste momento.»
A crítica estende-se à postura de Infantino sobre a reintegração da Rússia nas competições. «É como o presidente Infantino, que acha que a Rússia deve voltar a participar nas competições. Vamos jogar contra a Rússia em Moscovo enquanto os ucranianos não podem jogar no seu território? O país que é invadido não pode disputar as competições europeias em casa e a Rússia poderia? Para mim, é inaceitável».
A comparação entre os dois líderes é direta: «O presidente Infantino faz o mesmo que o presidente Trump. Olha para os interesses económicos e esquece-se das pessoas». A atribuição do prémio da paz da FIFA a Trump, em dezembro, provocou uma reação visceral. «Sabe o que senti quando vi aquilo? Vergonha. É tão triste, o futebol não merece isto. É uma vergonha», completou.