Torreense conquistou a Taça diante do Sporting (Miguel Nunes)
Torreense conquistou a Taça diante do Sporting (Miguel Nunes)

Leão não passou nas Linhas de Torres

É fantástico como uma só tarde de futebol sem fronteiras pode gerar tantos eventos contraditórios e gerar danos colaterais. O Torreense ganhou a Taça e vai à Liga Europa; e o Sporting, graças ao Aston Villa, entra na Champions, num dos dias desportivamente mais negros da sua história

Começo com uma frase de que gosto bastante, porque é sábia, que recomenda cautela, é suscetível de evitar estados de euforia prematura, e assenta como uma luva no fenómeno do futebol: só a pescada é que, antes de o ser, já o era…

O Sporting entrou no Jamor a pensar que bastava mandar as camisolas a jogo para que Morten Hjulmand recebesse, das mãos do Presidente António José Seguro, a Taça de Portugal, e saiu-se mal. Houve arrogância e sobranceria na forma como o Torreense foi encarado, e essa subestimação da equipa de Luís Tralhão acabou por sair cara aos leões.

Sem querer ser minimamente injusto para com o Torreense, que foi exemplar na entrega e espartano na organização, exigia-se outra atitude à equipa de Rui Borges, que assinou uma das exibições mais displicentes dos últimos anos, dando à turma de Torres Vedras, a cada minuto que passava, mais razões para acreditar. É preciso termos consciência da dimensão histórica do que aconteceu: esta foi a maior surpresa de sempre do futebol português, precisamente por ter ocorrido numa final. O Sporting já tinha sido eliminado da Taça de Portugal por equipas do escalão secundário, mas nunca com o impacto que teve perder no Jamor com o Torreense. Não será por acaso que, desde que se disputa a prova rainha do nosso futebol, nunca uma equipa da II Divisão tinha erguido o troféu. E, perante a diferença abismal entre as forças em presença, o Torreense só ganhou ao Sporting porque a equipa de Tralhão jogou no limite máximo do seu potencial, ao passo que os leões se mantiveram no patamar mínimo daquilo de que são capazes.

Quis o destino que tudo isto acontecesse na tarde em que o Sporting ficou a saber que estava dispensado das etapas preliminares para entrar na Champions, e Portugal ficou a saber que o Torreense será o seu representante, com entrada direta, na Liga Europa. Do efeito dominó gerado no Estádio Nacional resultou também que o Benfica terá de disputar as pré-eliminatórias da Liga Europa e que ao SC Braga acontecerá o mesmo relativamente à Liga Conferência.

E Rui Borges, como sai disto tudo? Tendo renovado contrato há pouquíssimo tempo, depois de uma época em que não ganhou nada, mas chegou aos quartos de final da Liga dos Campeões e obteve acesso direto ao pote de ouro da UEFA, não há nenhuma razão para pensar que possa haver qualquer volte-face quanto ao seu futuro próximo. Mas, dito isto, vai começar 2026/2027 sob o estigma do Jamor, ou seja, com níveis de tolerância por parte dos adeptos mais baixos do que teria se os leões tivessem cumprido os mínimos frente ao Torreense. Esta conclusão até pode parecer de La Palice, mas não é…

Mas falemos um pouco mais da equipa de Torres, que vai jogar a Liga Europa em casa emprestada e que, se eliminar o Casa Pia (que também anda de casa às costas), fará o mesmo na I Liga. Para quando a exigência (e a ajuda) de infraestruturas mais completas para as equipas que disputam as competições profissionais, evitando-se um choque térmico, muitas vezes fatal, quando mudam de escalão? Sei que não faltaram foliões ao Carnaval de Torres, que aconteceu, fora de época, na noite de ontem, e que trazer aqui estes temas até pode gerar um anticlímax. Mas a proeza do Torreense foi de tal maneira avassaladora que deve servir de um bom ponto de partida para conversas sérias, que, por incómodas, são demasiadas vezes varridas para debaixo do tapete.

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