Paulo Fonseca depois da vitória sobre o Nice - Foto: IMAGO

Paulo Fonseca: o treinador português que reinventou o Lyon

Aos 52 anos, Paulo Fonseca vive um dos momentos simbólicos da sua carreira. No comando do Lyon, o treinador português transformou uma equipa desacreditada numa das formações mais competitivas do futebol francês, somando 13 vitórias consecutivas em todas as competições, uma sequência impressionante que recolocou o histórico clube no centro da discussão desportiva da Ligue 1 e mudou radicalmente a perceção em torno do projeto.

Chegado a Lyon em janeiro de 2025, Paulo Fonseca encontrou um plantel curto, fragilizado financeiramente e mergulhado numa época marcada pela instabilidade. Em poucos meses, construiu uma equipa reconhecível, fiel às suas ideias e altamente competitiva. Hoje, o Lyon ocupa o terceiro lugar do campeonato e está firmemente envolvido na luta pelo apuramento para a Liga dos Campeões, um cenário que, há bem pouco tempo, parecia impensável.

Mais do que a sequência de triunfos, é a forma como a equipa compete que impressiona. O Lyon passou a destacar-se pela solidez defensiva, uma das melhores da liga, e pela qualidade na construção desde trás, aspeto amplamente elogiado pela imprensa francesa. A famosa jogada contra o Toulouse, culminada num golo após sucessivas combinações curtas ao primeiro toque, foi um verdadeiro exercício de laboratório reproduzido em contexto real. «A intenção é clara: encontrar o homem livre», explicou Fonseca, resumindo a sua filosofia.

Mas o crescimento não é apenas ofensivo. Para o técnico português, defender é um compromisso coletivo. «Todos os jogadores têm de defender, e isso não é negociável.» Não há estatutos que isentem ninguém. A primeira linha de pressão começa nos avançados, o bloco mantém-se compacto e a reação à perda tornou-se coordenada e agressiva. A equipa ganhou equilíbrio, intensidade e maturidade competitiva.

Com recursos limitados, Fonseca voltou a evidenciar uma das suas maiores virtudes: extrair o máximo do mínimo. Os centrais assumiram-se como dos mais fiáveis do campeonato, o meio-campo ganhou critério e inteligência posicional, e o ataque tornou-se mais eficiente mesmo sem uma referência ofensiva dominante — Endrick chegou por empréstimo do Real Madrid apenas no final de dezembro de 2025. A valorização individual tem sido notória e estratégica.

O treinador não hesita em elogiar publicamente o trabalho do departamento de scouting do clube, destacando o responsável Benjamin Charier, que considerou «provavelmente o melhor olheiro» com quem já trabalhou. De Pavel Sulc a Ruben Kluivert, passando por Tyler Morton ou Afonso Moreira, a estrutura de scouting do Lyon conseguiu reforçar o plantel com meios limitados, beneficiando também das redes internacionais de Mathieu Louis-Jean e Michaël Gerlinger.

O impacto pode ir além do plano desportivo. Ruben Kluivert, por exemplo, despertou forte interesse do Crystal Palace, disposto a avançar com uma proposta entre 20 e 30 milhões de euros nas últimas horas do mercado de inverno, sinal claro da valorização criada.

Este momento alto em França surge como continuação de um percurso marcado por resiliência. Nascido em Nampula, em 1973, e criado no Barreiro, Fonseca foi um defesa-central discreto, mas inteligente, somando 111 jogos na Primeira Liga por clubes como Belenenses, Marítimo ou Vitória de Guimarães. Nunca teve protagonismo mediático como jogador, mas revelou desde cedo uma leitura de jogo acima da média.

Como treinador, construiu a carreira passo a passo. Da formação às realidades mais modestas, afirmou-se no Paços de Ferreira, onde assinou um histórico terceiro lugar em 2012/13 e levou o clube, pela primeira vez, à Liga dos Campeões. Seguiram-se experiências contrastantes no FC Porto e no SC Braga onde venceu a Taça de Portugal e um período dourado no Shakhtar Donetsk, com três campeonatos ucranianos consecutivos e afirmação europeia.

Depois de passagens pela Roma, Lille e uma curta e turbulenta experiência no Milan, Fonseca reencontrou em Lyon o contexto ideal para relançar a carreira ao mais alto nível. Nem mesmo um episódio polémico com a arbitragem, que culminou numa suspensão prolongada, considerada por muitos injusta e excessiva, conseguiu travar a dinâmica da equipa. Pelo contrário, acabou por reforçar ainda mais a ligação entre treinador e jogadores. Nos jogos seguintes, vários atletas fizeram questão de tornar pública essa união: ao marcarem, apontavam para a bancada onde Fonseca assistia aos encontros, dedicando-lhe os golos num gesto claro de confiança e solidariedade. A equipa continuou a vencer, prova inequívoca da coesão do grupo e da solidez estrutural do trabalho desenvolvido ao longo das semanas.

Inspirado por treinadores como Pep Guardiola e Maurizio Sarri, sem esquecer a influência histórica de José Mourinho, Paulo Fonseca mantém-se fiel às suas ideias: futebol positivo, coragem competitiva e identidade coletiva. Mas há também um lado carismático e irreverente que marcou o seu percurso internacional. Em 2017, ao serviço do Shakhtar Donetsk, prometeu que surgiria vestido de Zorro numa conferência de imprensa caso a equipa se qualificasse para os oitavos de final da Liga dos Campeões frente ao poderoso Manchester City. O Shakhtar venceu por 2-1, garantiu o apuramento e Fonseca cumpriu a palavra, aparecendo mascarado perante os jornalistas. O episódio tornou-se viral e ajudou a consolidar a sua imagem de treinador confiante, capaz de unir o grupo em torno de um propósito comum.

Hoje, em Lyon, a ligação é igualmente forte, mas ainda mais emotiva. Na última jornada, após a vitória por 2-0 frente ao Nice, que consolidou o terceiro lugar e prolongou a impressionante série de triunfos, o Groupama Stadium viveu um momento emocionante. Os adeptos entoaram cânticos dirigidos ao treinador português e exibiram uma enorme tarja com a inscrição «Bravo Fonseca». O técnico, visivelmente comovido, agradeceu, num gesto que revelou o impacto profundo do seu trabalho no clube.

A verdade é que num espaço de poucos meses, Paulo Fonseca passou de solução de emergência a figura central de um projeto renascido. O Lyon voltou a acreditar. O estádio voltou a vibrar. E o treinador português voltou a sentir que está exatamente onde deve estar.

Hoje, poucas equipas em França respiram tanta confiança como este Lyon. E aquilo que parecia impossível há poucos meses é hoje uma realidade: o Lyon voltou a olhar para a Champions como destino e não como ilusão.

Parabéns ao Paulo Fonseca e à sua equipa técnica pelo excelente trabalho desenvolvido e por dignificarem o nosso país além-fronteiras.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».