Papa Francisco, suas atitudes e palavras
MESMO não sendo crente, justifica-se que aproveite a oportunidade contida na recente estadia em Portugal do Papa Francisco. Algumas das suas atitudes e palavras assim o exigem. No que respeita a atitudes, aproveito para citar Francisco Louçã no seu Estado da Nação, jornal Expresso, 4/8/2023.
«O Papa é querido por ter aberto as portas aos pobres, por ter condenado a finança ‘que mata’, por ter dado um passo de aproximação aos homossexuais e, sobretudo, por ter condenado a Pedofilia.»
O mesmo Papa que, no seu primeiro discurso institucional perante uma plateia entre atónita e (aqui e ali) algo incomodada, proferiria entre muitas outras as seguintes palavras:
«As grandes questões hoje, como sabemos, são globais e já muitas vezes tivemos de fazer experiência da ineficácia da nossa resposta às mesmas, precisamente porque o mundo, diante de problemas comuns, se mantém dividido ou pelo menos não suficientemente unido, incapaz de enfrentar juntos aquilo que nos põe em crise a todos. Parece que as injustiças planetárias, as guerras, as crises climáticas e migratórias correm mais rapidamente do que a capacidade e, muitas vezes, a vontade de enfrentar em conjunto tais desafios.»
«Fundamental tornar verdadeiro o sonho de se construir o amanhã juntamente com o inimigo de ontem, o sonho de abrir percursos de diálogo e inclusão, desenvolvendo uma diplomacia da paz que extinga os conflitos e acalme as tensões, capaz de captar o mais débil sinal de distensão e de o ler por entre as linhas mais tortas da realidade. Trabalhemos, pois, com criatividade para construirmos juntos! Imagino três estaleiros de construção da esperança onde podemos trabalhar todos unidos: o ambiente, o futuro, a fraternidade. A boa política pode fazer muito neste sentido; pode gerar esperança.»
«Com efeito, não é chamada a conservar o poder, mas a dar às pessoas a possibilidade de esperar. É chamada, hoje mais do que nunca, a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas, mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos. É chamada a voltar a descobrir-se como geradora de vida e de cuidado da criação, a investir com clarividência no futuro, nas famílias e nos filhos, a promover alianças inter geracionais, onde não se apague o passado, mas se favoreçam os laços entre jovens e idosos.»
PALAVRAS cuja grandeza e significado nos deverão servir de motivo de reflexão e aprendizagem. Não só para todos nós em geral, como para o desporto português em particular. Quem duvida quanto seria interessante para o desporto português em geral e para o basquetebol português em particular, cumprirmos com o desejo do Papa ao dizer que é «fundamental tornar verdadeiro o sonho de se construir o amanhã juntamente com o inimigo de ontem, o sonho de abrir percursos de diálogo e inclusão, desenvolvendo uma diplomacia da paz que extinga os conflitos e acalme as tensões.»
Citando Augusto Cury no seu livro ‘Inteligência Multifocal’, «o homem moderno, em detrimento dos avanços da ciência e da tecnologia, vive a mais angustiante e paradoxal de todas as solidões psicossociais, expressa pelo abandono de si mesmo na trajetória existencial. A pior solidão é aquela em que nós mesmos nos abandonamos e não aquela em que nos sentimos abandonados pelo mundo.»
EM termos gerais, tudo o que respeita ao nosso desempenho social, familiar e profissional, exige que estejamos não só enérgicos de um ponto de vista físico, mas também emocionalmente ativos, mentalmente focados, socialmente empáticos e espiritualmente alinhados com os objetivos pessoais e profissionais que perseguimos.
Sempre que pensamos, nos emocionamos ou comportamos seja de que forma for, sentimos, quer de um ponto de vista quantitativo, como qualitativo, a importância de um bom desenvolvimento das nossas inteligências físicas, emocionais, mentais, sociais e espirituais.
Descansando mais, relaxando quando possível, renovando energias e procurando ter, o mais possível, uma atitude positiva perante a vida. Mas, para que tal seja possível, requeremos em termos globais um treino comportamental continuado, tendo em vista ganharmos a necessária resistência física, emocional, mental, social e espiritual.
Tal como aprender a interpretar e gerir as nossas emoções; percebendo a importância de permanecer focados nas tarefas e preparados para enfrentar a frustração do insucesso, da dor e da fadiga. Cuidados constantes na preservação de um número determinado de horas de sono, alimentação mais saudável e regrada, exercício físico periódico, melhor gestão das emoções e dos respetivos índices de concentração mental, aprofundar a importância dos valores e crenças que ditam tudo o que respeita aos nossos comportamentos éticos, morais, deontológicos...
Tal como acontece, aliás, com os atletas e treinadores de alto rendimento desportivo, ao sujeitarem-se a um treino continuado. Todos eles aprendem ao longo da sua experiência profissional quanto lhes é fundamental saberem como desenvolver e renovar as energias que requerem para poder competir do modo mais eficaz possível.
SERÁ que com os cidadãos em geral se passa algo de semelhante? Todos sabemos que não! O que torna fundamental a aquisição do conhecimento necessário que permita investir cada vez mais nesses cuidados. Por exemplo, aprender a identificar as próprias emoções, como também serem capazes de identificar as daqueles que consigo se relacionam (empatia, sermos capazes de nos colocar no lugar do outro).
Está hoje em absoluto demonstrado a nível neurocientífico e filosófico que, para atingirmos determinados graus de equilíbrio, tem de existir uma interação entre a emoção e razão. A emoção precede a cognição, contrariando em absoluto a ideia que, para gostarmos de algo, teríamos de primeiro conhecer e identificar bem aquilo de que viéssemos a gostar. As emoções regulam as nossas vidas (regulação homeostática dos comportamentos), permitindo-nos uma relação mais harmoniosa com os que nos rodeiam. Mas não só.
Durante muito tempo, fomos avaliados quase exclusivamente pelo nosso quociente de Inteligência (QI). Em seguida, veio a Inteligência emocional (QE), como fator diferenciador. Nestes últimos anos, emergiram por fim a Inteligência Social e a Inteligência Espiritual refletindo a nossa capacidade de nos relacionarmos socialmente e dar sentido à vida, percebendo e entendendo as diversas mudanças que se vão verificando ao longo da nossa existência.
Ao fim e ao cabo, por um lado a capacidade de sermos socialmente positivos e atentos e preocupados com os outros, pelo outro conseguir encontrar um propósito para a vida e conseguir lidar de forma positiva com os problemas existenciais com que habitualmente nos debatemos. Tudo isto naturalmente sem retirar a importância devida ao nosso quociente de inteligência intelectual (QI), que nos ajuda a resolver problemas relacionados com a lógica.
MAS atenção: a racionalidade, sendo muito importante, é o que nos induz por vezes a fazer algo que não leva em consideração aqueles com quem nos relacionamos. A inteligência emocional (QE), aponta no sentido de melhorar as relações interpessoais através da consciencialização das emoções. Tem a ver com a improvisação, autoconfiança, iniciativa, flexibilidade e persistência.
Mas tal como a inteligência intelectual, muitas vezes quando fazemos aquilo que dita a emoção, não temos a garantia que os nossos comportamentos são saudáveis ou respeitam a ética e a legalidade.
A inteligência social e espiritual ajudam-nos a ter uma interação social positiva e a decidir e pensar acerca de situações perante as quais nos questionamos se estamos a seguir na nossa vida o rumo certo, ou se teremos de mudar ou acrescentar algo para nos sentirmos mais felizes.
No seu conjunto e interdependência explicam verdadeiramente a complexidade do ser humano. O que torna bastante óbvia a necessidade de atingirmos no futuro um maior equilíbrio na gestão das nossas inteligências físicas, emocionais, mentais, sociais e espirituais, mudando quanto necessário os nossos atuais hábitos de vida.
Mas mudar hábitos não é fácil!
QUEM sente necessidade dessa mudança, precisa compreender a importância respetiva dessa mudança. Precisam olhar para si próprios e identificar os aspetos que a requerem (autoconsciência). Assim como assumirem quanto será decisivo para o seu futuro perceberem e interiorizarem o que têm a ganhar caso adquiram uma maior flexibilidade cognitiva, criatividade e habilidade para solucionarem problemas, por mais complexos que sejam.
Devem, para isso, encontrar a Visão de si próprios e da sua Vida. O seu Eu ideal!
Sabendo quem são e que impacto têm nos que os rodeiam. Dedicando-se acima de tudo ao que considerarem prioritário mudar. Por fim, treinar, treinar, treinar, indo além da zona de conforto, adquirindo novos hábitos. Praticar dia a dia as mudanças para que apontaram, sabendo previamente como irá ser difícil tentarem fazê-lo sozinhos!
Aqueles com quem nos relacionamos diariamente, são de fundamental importância num processo de mudança deste tipo. Devem servir de base de apoio, sustentando em cada momento a transformação pessoal pretendida. Os relacionamentos pessoais e os grupos de referência de cada um de nós, são imprescindíveis pela ajuda que podem dar no sentido de percebermos quem somos e o que queremos ser.