Os donos disto tudo
N AS duas últimas décadas, temos assistido em Portugal a inúmeros casos de corrupção e de má gestão. Uma regra básica em economia é que os recursos são escassos e, como tal, têm de ser bem aplicados. Estranhamente, verificamos que aqueles que são responsáveis por nos representar ao mais alto nível não têm mudado muito, tanto na política como, por exemplo, no futebol. Será isto normal? Porque é que isto sucede? Por que motivo nos acomodamos a esta situação e permitimos que tal aconteça?
O PODER DO FUTEBOL
TENHO referido constantemente que o futebol evoluiu muito ao longo dos últimos 20 anos. Deixou de ser apenas um jogo, para se tornar num espetáculo cada vez mais universal, com capacidade para atrair não só novos consumidores, mas, sobretudo, cada vez mais investidores que pretendam tirar proveito deste fenómeno de diferentes formas. Esta evolução ficou visível, não só na experiência oferecida aos adeptos, mas também na profissionalização de toda uma indústria que está a crescer cada vez mais. Em muitos países isto foi uma evidência, com diferentes modelos de gestão, mas todos com uma adequação à cultura e realidade locais. Aqui devo destacar os melhores exemplos, na organização e gestão das provas, que potenciaram todo um crescimento uniforme. Assim, Inglaterra e Alemanha são claramente os dois países que mais evoluíram neste campo. Têm vários exemplos de clubes, cujas administrações continuam a respeitar a história e a cultura do país, o que significa que, em conjunto, remam todos para o mesmo lado. A maior parte das vezes nem sabemos quem são os presidentes ou equipas de gestão dessas organizações, mas se as compararmos com as de há 20 anos naturalmente que iremos encontrar diferenças substanciais. Também percebemos o cuidado que existe nestes dois países em isolar e punir imediatamente quem não cumpre as leis. Um claro exemplo do que refiro foi a pena que Uli Hoeness (ex-presidente de Bayern) teve de cumprir por fuga aos impostos. Na Alemanha, como em Inglaterra, ser presidente de um grande clube não coloca ninguém acima da lei.
Pedro Proença defende que «agora não existe espaço para aventureirismos»
AVENTUREIRISMOS
N O final da Cimeira de Presidentes, Pedro Proença referiu que «agora não existe espaço para aventureirismos». Esta frase tem duas interpretações diferentes. A primeira, e mais óbvia, é que precisamos de rigor e de pessoas competentes nos lugares certos. Parece-me que a expressão utilizada pelo presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional deveria ter sido mais completa: não existe espaço para aventureirismos, é necessária competência, transparência, seriedade, rigor e união. Abordo estas características porque não basta ser competente. É preciso ter a noção e humildade para se perceber que, independentemente do cargo que se ocupa, ninguém está acima de todos. Por exemplo, se Pedro Proença chegar a presidente da Federação Portuguesa de Futebol, o que lhe vamos exigir é o que não existe neste momento: uma organização transparente, aberta e com capacidade de explicar todas as suas formas de atuar. Algo que não tem acontecido com Fernando Gomes, que com uma imagem estatal acaba por entender que não deve dar justificações sobre os temas polémicos que vão surgindo. A segunda interpretação da expressão «não existe espaço para aventureirismos» é aquela que me gera maior apreensão. Analisando pela negativa, esta mensagem pode ser um aviso que reforça os poderes de quem lidera atualmente. Um dos males do nosso futebol, e do nosso país, tem sido a dificuldade ou falta de vontade em se regenerar em termos diretivos. No futebol (ou no governo), parece que só existe um conjunto de pessoas com capacidade para gerir os destinos e o desenvolvimento do futebol nacional (ou do país). Será que nos querem fazer passar a mensagem de que a competência ficou toda distribuída em meia dúzia de pessoas, que saltam de um lado para o outro e que se mantêm constantemente a liderar? A resposta é simples e afirmativa mas a realidade é bem diferente. No futebol, por exemplo, acredito que existam muitas pessoas com capacidade para contribuir de uma forma positiva. No entanto, para isso acontecer, alguém tem de perder protagonismo…
CARREIRISTAS
E M Portugal, e no futebol, existe outra característica muito interessante e que tem vindo a ser desenvolvida e aprimorada. A noção de que os líderes têm sobre a importância da comunicação no seu crescimento e no seu estatuto. Assim, verifico que o individual se sobrepõe a tudo o resto. Vindo eu de um jogo coletivo em que tínhamos, muitas vezes, de nos sacrificar com cartões e de jogar condicionados pelo bem da equipa, é complicado observar estes comportamentos por parte de quem lidera os destinos do futebol. De uma forma muito simples o que quero dizer é que o que parece mais importante não é fazer o certo, mas sim criar uma boa imagem, que permita que quem hoje está na Liga possa estar amanhã na Federação ou que quem hoje é administrador de um clube possa amanhã estar numa empresa que gere a centralização dos direitos de TV ou que quem está na FPF amanhã possa estar na UEFA ou na FIFA. Fazem muita falta aos mais altos cargos do futebol português «jogadores de equipa», pessoas que não queiram protagonismo, mas sim contribuir de uma forma positiva com o seu know-how.
A VALORIZAR
Arnaldo Teixeira
Um exemplo de um jogador de equipa que contribuiu e contribui muito com o seu trabalho diário. Uma justa homenagem por parte do Benfica que reconheceu todo o empenho que o mister Arnaldo Teixeira teve durante toda a carreira.
A DESVALORIZAR
Domingos Soares de Oliveira
Acusado de crimes de fraude fiscal e de falsificação de documento. Em cinco anos poderia, de uma forma simples, ter esclarecido toda esta questão. Não o quis fazer, criando instabilidade à sua entidade patronal - Benfica.