A desilusão de Lionel Messi após perder o título mundial para a Espanha Craque argentino não evitou mesmo as lágrimas — Foto: IMAGO
A desilusão de Lionel Messi após perder o título mundial para a Espanha Craque argentino não evitou mesmo as lágrimas — Foto: IMAGO

'Olvidémonos de todo'

A Espanha não derrotou apenas uma equipa. Derrotou uma narrativa. E as narrativas morrem devagar. Primeiro recusam a realidade. Depois procuram culpados. Finalmente inventam mistérios. Só muito mais tarde regressam ao futebol. 'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

As grandes frases do futebol quase nunca explicam o jogo. Explicam aquilo que fazemos dele. A que Lionel Messi pronunciou no túnel, antes da Argentina entrar em campo para disputar a final contra a Espanha, parecia apenas um convite à serenidade, à concentração, ao velho princípio de que uma final não se joga com o ruído do mundo, joga-se apenas com a bola. Bastaram, porém, 120 minutos de impotência para que olvidémonos de todo deixasse de ser um conselho e passasse a ser uma prova. Ou aquilo que muitos desejavam que fosse uma prova. Talvez porque perder nunca seja apenas perder.

A Argentina de Scaloni não era apenas uma seleção. Era uma narrativa. O grupo que sobrevivia quando tudo parecia perdido. A equipa que encontrava uma resposta quando o futebol parecia já não oferecer nenhuma. Contra o Egito, contra a Inglaterra, tantas vezes durante este Mundial, parecia existir uma espécie de pacto invisível entre aqueles jogadores e o destino. Havia sempre mais uma corrida, mais um duelo, mais uma crença. E quando uma equipa vive demasiado tempo no território do extraordinário, o normal deixa de satisfazer. A derrota deixa de parecer possível.

Terá sido isso que aconteceu diante da Espanha? Perder contra a equipa de Luis de la Fuente não deveria constituir um escândalo. A La Roja dominou Portugal, anulou a França e repetiu a mesma superioridade com a Argentina. Controlou os espaços, a posse e o ritmo. Obrigou os campeões do Mundo a viver longe da baliza adversária. A Argentina fez o único remate apenas no prolongamento, sendo brutalmente submissa e incapaz de dar continuidade à sucessão de milagres a que habituara os seus adeptos. Foi uma derrota dura para os argentinos, mas desportivamente compreensível. O problema é que o coração raramente aceita aquilo que a razão considera evidente. E foi nesse vazio que nasceu a conspiração.

A imagem de Messi a repetir «esqueçamo-nos de tudo», os rostos carregados de alguns jogadores, Enzo Fernández emocionado, Lisandro Martínez aparentemente abatido, bastaram para construir uma explicação alternativa. Como se houvesse um segredo escondido naquele túnel. Como se existisse uma ameaça. Como se a FIFA, a política, os interesses internacionais ou qualquer força superior tivesse entrado no balneário e retirado à Argentina aquilo que mais a definia: a coragem.

Apesar de Scaloni e da equipa técnica terem rejeitado categoricamente qualquer cenário desse género, a história continuou a crescer porque, quando uma teoria responde melhor à dor do que os factos, a dor escolhe quase sempre a teoria. É um mecanismo profundamente humano. As teorias da conspiração não nascem apenas da ignorância. Nascem, muitas vezes, do amor.

Quem ama exageradamente um herói, tem dificuldade em aceitá-lo vulnerável. O herói pode ser traído, pode ser sabotado, pode ser vítima de uma injustiça histórica. O que custa verdadeiramente aceitar é que, durante 90 ou 120 minutos, alguém tenha sido simplesmente melhor.

No fundo, a conspiração preserva a identidade. Se a Argentina perdeu porque foi pressionada, então continua a ser invencível. Se Messi entrou condicionado, então o mito permanece intato. Se existiu uma força invisível, então ninguém precisa de rever aquilo em que acreditava.

Esta necessidade ganha ainda mais força quando se fala da geração que reconstruiu o orgulho argentino. A geração que conquistou o Mundial 2022, que venceu duas Copa América, que fez da resistência uma estética. A mesma geração que, depois da vitória sobre a Inglaterra, ergueu a bandeira com a inscrição Las Malvinas son argentinas, fundindo futebol, memória e identidade nacional numa única fotografia. A partir desse instante, aqueles jogadores deixaram de representar apenas uma seleção. Passaram a representar uma ideia de país, uma história, uma guerra jamais esquecida e um novo capítulo de soldados com chuteiras que tinha começado na equipa de Maradona em 1986. E quando uma ideia perde, a derrota nunca é apenas desportiva.

O Mundial é o lugar onde os povos representam aquilo que gostariam de ser. Talvez seja por isso que a Argentina tenha dificuldade em olhar para esta final apenas como um jogo. Porque, durante décadas, ensinou a si própria que competir era resistir, que sofrer era vencer moralmente e que o impossível era apenas uma etapa antes da glória.

Mas existe uma grandeza maior do que vencer. Existe a coragem de reconhecer que, naquele dia, o adversário foi mais competente.

Só que a Espanha não derrotou apenas uma equipa. Derrotou uma narrativa. E as narrativas morrem devagar. Primeiro recusam a realidade. Depois procuram culpados. Finalmente inventam mistérios. Só muito mais tarde regressam ao futebol.

Talvez seja isso que Messi realmente tenha querido dizer naquele túnel: «Esqueçamo-nos de tudo.» Não das ameaças que ninguém conseguiu provar. Não das teorias que nasceriam dias depois. Nem sequer do peso de uma camisola que carregava campeões do mundo, bicampeões da América e milhões de expectativas. Esqueçamo-nos apenas do ruído. Porque, às vezes, o futebol é cruel precisamente por ser tão simples. Há dias em que não existe conspiração. Existe apenas um adversário que joga melhor.

Ou talvez não. Talvez exista uma razão para que tanta gente tenha preferido acreditar numa história escondida.

Este Mundial foi jogado num ambiente onde o futebol nunca conseguiu libertar-se completamente da política. Com Donald Trump demasiado presente, com Gianni Infantino a ser mais fantoche da Casa Branca do que presidente da FIFA. Ou com decisões disciplinares que levantaram perplexidade, como o levantamento da suspensão de Folarin Balogun para o jogo dos Estados Unidos contra a Bélgica.

Criou-se um clima onde a confiança deixou de ser um dado adquirido. Quando as instituições alimentam zonas cinzentas, também alimentam a imaginação.

Não existe uma única prova que demonstre uma conspiração contra a Argentina. Mas também se tornou mais difícil exigir que todos a descartem de imediato. E aqui está o verdadeiro problema. Não é a conspiração que assusta. É o facto de o futebol contemporâneo ter deixado de oferecer razões suficientes para que ela pareça absurda.

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