«O Rio Ave quer ganhar ao Sporting? Então que deixem crescer a barba!»
O Rio Ave da década de 1980 sabia bem como dar água pela barba. O Sporting que o diga. Em seis jogos realizados de 1982 a 1986 em Vila do Conde, entre os dois emblemas, os leões apenas venceram um, registando-se, de resto, quatro empates e uma derrota - precisamente, a primeira de sempre do clube da Caravela sobre os lisboetas.
Esse triunfo de estreia aconteceu a 8 de abril de 1984 - num ano que ninguém esquece em Vila do Conde. «Fomos à final da Taça de Portugal», relembra Adérito, titularíssimo dessa mítica equipa que ficou conhecida como ‘os barbudos’. Isto porque os jogadores rioavistas combinaram deixar crescer os pêlos da cara até ao derradeiro encontro no Jamor (que acabariam por perder 4-1 contra o FC Porto), ganhando uma alcunha para a eternidade.
De facto, naqueles tempos, a barba rija, a que se juntava a qualidade dos atletas que Félix Mourinho tinha à disposição, fazia do Rio Ave uma das equipas mais temidas do campeonato português. O pai de José Mourinho subiu os nortenhos à Liga em 1980/81. No ano do regresso (1981/82), o primeiro de Adérito na equipa, os vilacondenses alcançaram um histórico 5.º lugar. «Ganhámos ao Benfica 1-0, em casa, com um golo do Pires. Depois, ganhámos ao FC Porto 2-1 nas Antas, com um golo meu. No fim-de-semana seguinte, empatámos 0-0 com o Sporting em casa, naquele que foi primeiro jogo transmitido na televisão no campo velho em Vila do Conde», enaltece Adérito, ao nosso jornal, evocando a primeira partida da história [3 de janeiro de 1982] em que o Rio Ave conseguiu roubar pontos à turma de Alvalade. «O Sporting, que ganhou a dobradinha nessa época, tinha Mészáros, António Oliveira, Rui Jordão, Manuel Fernandes…», enumera.
Após o primeiro empate, passados dois anos, viria a (tal) primeira vitória contra os leões. «Ganhámos 1-0, com golo do N’Habola!» Questionado sobre o que é que o atual conjunto orientado por Sotiris Silaidopoulos precisa de imitar a proeza no encontro de segunda-feira (20h15), Adérito foi rápido a responder: «Que deixem crescer a barba!»
«Mas os gregos usam pouca barba [risos]», brincou o mítico número 7 dos barbudos, aludindo aos quatro gregos do plantel (o mesmo número do que portugueses), admitindo, ainda assim, que o Rio Ave vive um bom momento. «Em relação há três ou quatro meses, melhorou. Joga bom futebol, tem bons jogadores e pode ganhar», considerou. Contudo, o antigo médio salienta que «não será fácil», porque o «favorito é sempre o Sporting».
Adérito não poderá ir ver partida que marcará a despedida dos rioavistas no Estádio dos Arcos na presente temporada, mas, se fosse, a certeza era só uma: o Rio Ave não perdia. «Agora, sempre que eu vou a Vila do Conde ver um jogo, nunca perde», revela, com entusiasmo.
Treinou Rui Borges
Depois de pendurar as botas, Adérito dedicou-se ao treino e chegou a orientar… Rui Borges, no Mirandela, na temporada 2004/05. «O Rui era um bom médio, de classe, com muita técnica. Tinha uns pezinhos de lã…», relembra Adérito. «E depois como pessoa era espetacular. Uma excelente pessoa mesmo», realça.
Goleada produtiva
E até quando os jogos contra o Sporting não eram felizes, o jogador, nascido em Avelanoso (aldeia do concelho de Vimioso) em 1955, arranjava forma de o serem, mesmo depois de um… 7-1. A 16 de maio de 1982, os leões golearam os nortenhos no antigo Estádio José Alvalade, foram campeões nacionais e ainda hoje muitos sportinguistas invejam… Adérito, que ficou com o esférico do encontro.
«Eu tenho a bola do jogo em que foram campeões contra nós em 1982. Naquele tempo invadiam o campo, no final. Na confusão, o árbitro estava com a bola. Eu pedi-lha e ele deu-ma», evoca.
«Não havia muitas bolas como aquela na altura, era da Le Coq Sportif. Guardei-a até hoje. Está em minha casa, praticamente nova. Quando o Sporting voltou a ser campeão, em 2000, ligaram-me a perguntar se queria vender a bola para o Museu do Sporting, mas eu disse que não», revela, ao nosso jornal, recordando também as míticas camisolas que guarda do Rio Ave, com o patrocínio da Norbetão.