Ouvir jogadores como Bruno Fernandes, Vitinha, Rúben Dias ou Cancelo não só valoriza o futebol português como cria uma ponte entre ídolos e fãs — Foto: IMAGO
Ouvir jogadores como Bruno Fernandes, Vitinha, Rúben Dias ou Cancelo não só valoriza o futebol português como cria uma ponte entre ídolos e fãs — Foto: IMAGO

O poder dos verdadeiros protagonistas: ainda por explorar

Quando os resultados não aparecem, raramente há responsabilização interna. É mais fácil encontrar inimigos externos, desviar atenções e alimentar narrativas que pouco têm a ver com a cultura desportiva. Mercado de valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

O reconhecimento do futebol português no mundo deve-se, acima de tudo, aos seus protagonistas: jogadores e treinadores. Por isso, é difícil compreender o motivo pelo qual, em Portugal, quem mais protagonismo tem são os dirigentes. Em vez de valorizarem o jogo, preferem expor-se, criar ruído e alimentar conflitos, colocando o foco longe do que realmente importa. No fim, tudo parece justificar-se com a mesma lógica: ganhar a qualquer custo e garantir reconhecimento pessoal.

Visão curta

O futebol português tem muitas qualidades, mas insiste em olhar para o lado errado. Quando os resultados não aparecem, raramente há responsabilização interna. É mais fácil encontrar inimigos externos, desviar atenções e alimentar narrativas que pouco têm a ver com a cultura desportiva. O problema é estrutural. Muitos dirigentes gerem as suas instituições a pensar mais em si próprios do que no crescimento do futebol. Dentro deste contexto, identifico três perfis distintos.

Os presidentes dos clubes que alimentam rivalidades de forma excessiva promovem discursos que incentivam o fanatismo e legitimam a ideia de que, muitas vezes, o fim justifica os meios. O presidente da Federação, mais preocupado com a perceção pública do seu trabalho do que em resolver e encarar os problemas reais do futebol. Por fim, o presidente da Liga, que vive numa posição de dependência dos clubes. É quase como um gestor condicionado que precisa de os satisfazer para garantir continuidade.

Pensar no 'nós'

Há uma pergunta simples que ajuda a perceber o essencial: como imaginamos o futebol português daqui a 30 anos? A resposta diria muito sobre a forma como se pensa o presente. O que muitas vezes falta é uma visão coletiva. Em vez de um projeto comum, prevalecem interesses individuais, objetivos de curto prazo e a necessidade constante de afirmação. O futebol precisa de líderes com visão, cultura desportiva e capacidade para pensar para além do resultado imediato.

Ninguém quer que as rivalidades desapareçam, até porque fazem parte da essência do jogo. Mas devem viver dentro do relvado, com intensidade, respeito e regras claras. Se continuarmos neste caminho, arriscamos agravar divisões, afastar famílias dos estádios e deixar um exemplo pouco positivo para as próximas gerações. Sem um rumo coletivo, todos acabam por sair mais fracos, independentemente dos títulos conquistados.

Voz dos protagonistas

No centro de tudo estão os verdadeiros protagonistas: os jogadores e treinadores. Em Portugal, raramente têm espaço para se exprimirem com liberdade, porque as estruturas dos clubes tendem a controlar a mensagem, limitando opiniões e moldando discursos. É um paradoxo: são eles que fazem o futebol acontecer, mas, muitas vezes, não podem participar nas decisões que moldam o próprio jogo.

Curiosamente, quando saem do país, o cenário muda. Ganham independência financeira, estatuto e uma voz mais autêntica. É por isso que se torna cada vez mais importante ouvi-los, não apenas como atletas, mas como pessoas com pensamento próprio, consciência do impacto que têm no futebol e responsabilidade para com as próximas gerações.

Projetos como Soltinhos pelo Mundo, no Canal 11, aproximam os jogadores do público e mostram um lado humano e genuíno. As conversas abordam percurso, dificuldades, decisões e ambições, sempre com espírito crítico, mas também com humildade e respeito pelos adversários. Fala-se de como cresceram, dos obstáculos que enfrentaram e das lições que aprenderam, mostrando que por trás de cada estrela há uma história de esforço, disciplina e paixão pelo jogo.

Ouvir jogadores como Bruno Fernandes, Vitinha, Rúben Dias ou João Cancelo, desta forma, não só valoriza o futebol português como cria uma ponte entre ídolos e fãs, humanizando-os e inspirando jovens que querem seguir os seus passos. É também uma forma de mostrar que o futebol é mais do que resultados ou títulos: é cultura, atitude e responsabilidade coletiva.

O verdadeiro desafio será garantir que esta voz não desapareça quando terminarem a carreira. Pela independência financeira que conquistaram e pelo percurso que construíram, estão numa posição única para contribuir para um futebol português melhor, mais justo e mais forte. Podem usar a sua experiência para orientar, aconselhar e até influenciar políticas que beneficiem o coletivo, e não apenas interesses individuais.

Mais do que proteger interesses ou seguir lógicas corporativistas, o futebol precisa que pensem no coletivo — no nós — e que usem a sua voz para elevar o jogo, a cultura desportiva e inspirar as próximas gerações. Eles podem mostrar que ser protagonista não é só marcar golos ou ganhar títulos, mas também assumir responsabilidade, transmitir valores e transformar o futebol português de dentro para fora.

Se conseguirmos que a geração de hoje e de amanhã perceba este papel, estaremos a criar um legado duradouro, em que os protagonistas verdadeiros não são apenas figuras de destaque nos jornais ou nas redes sociais, mas sim líderes que usam a sua voz para o bem do futebol e da sociedade.

A valorizar: João Cancelo
Além de ser um dos melhores da sua posição, tem uma característica que não é muito comum nos jogadores: não tem medo das palavras e diz o que pensa sem receio das consequências.
A desvalorizar: Itália
Falha pela terceira vez um Mundial. Aqui está um exemplo de uma potência que não se soube adaptar aos novos tempos. Agarrou-se ao passado e os resultados estão à vista.