André Villas-Boas, Frederico Varandas e Rui Costa aquando da tomada de posse de Pedro Proença como presidente da FPF — Foto: ANDRÉ CARVALHO
André Villas-Boas, Frederico Varandas e Rui Costa aquando da tomada de posse de Pedro Proença como presidente da FPF — Foto: ANDRÉ CARVALHO

No futebol português, quem grita mais ganha?

Enquanto os dirigentes continuarem a acreditar que gritar dá votos e desculpas dão poder, o futebol português continuará preso ao mesmo ciclo: muito ruído fora das quatro linhas e pouca evolução dentro delas. Mercado de valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

A chegada de Frederico Varandas, André Villas-Boas e Rui Costa trouxe a esperança de uma nova cultura no futebol português. Alguns anos depois, percebemos que mudou a geração, mas não mudaram as atitudes.

A cultura do grito

As declarações recentes de Varandas e Villas-Boas são um bom exemplo da forma como o futebol português continua a ser liderado. Nas reuniões da Liga e da FPF fala-se frequentemente de união e de interesses comuns. No momento das decisões, porém, o cenário muda por completo. Sempre que um título está em causa, os presidentes surgem no espaço público para atacar os rivais, questionar a integridade dos adversários e apontar a arbitragem como responsável pelos seus insucessos.

Fica a ideia de que os campeonatos se decidem mais pelas decisões dos árbitros do que pela qualidade coletiva e individual das equipas. Sendo esta constatação tão óbvia, por que motivo os presidentes dos três grandes não alteram a sua forma de liderar?

Falta de cultura desportiva

Ser presidente de um grande clube representa uma enorme responsabilidade. Não só representam milhões de adeptos como a sua forma de liderar acaba por influenciar todo o futebol nacional. As palavras e as atitudes de quem ocupa este cargo têm impacto direto na forma como o jogo é vivido dentro e fora do estádio. Quando Frederico Varandas, André Villas-Boas e Rui Costa chegaram ao poder, muitos acreditaram que essa influência poderia ser utilizada para promover uma cultura diferente. Presidentes mais jovens, com percursos distintos e, em teoria, menos presos aos vícios que marcaram o futebol português durante décadas.

A realidade tem sido diferente. Os três demonstram frequentemente uma enorme sede de poder e recorrem a discursos populistas que alimentam a paixão através do ódio ao adversário. No final dos jogos surgem para pressionar árbitros e para, de forma indireta, justificar os seus insucessos com decisões de arbitragem. O futebol português vive refém de dirigentes que se comportam como adeptos e de adeptos que acreditam que os dirigentes são vítimas.

Este modus operandi não é novo. Foi utilizado por muitos dirigentes do passado. A chamada nova geração tinha a oportunidade de mudar esta lógica. Em vez disso, acabou por reproduzir exatamente os mesmos comportamentos. Os discursos inflamados, a falta de respeito institucional entre clubes e a constante tentativa de transformar o adversário num inimigo contribuem para alimentar os adeptos mais irracionais. Em vez de criarem um ambiente mais saudável, acabam por promover um clima tóxico e que promove a divisão.

No limite, existe uma clara falta de perceção do cargo que ocupam. Um presidente de um grande clube não pode comportar-se como um adepto com um microfone. Tem de ser alguém racional, com controlo emocional e consciência do impacto que as suas palavras têm no futebol e na sociedade. Se este caminho continuar, existe um risco evidente: no futuro, os atuais presidentes acabarem por ser recordados apenas como mais três cópias dos dirigentes do passado. 

Gestão racional, comportamento irracional

Apesar das críticas que faço à forma como os dirigentes atuam no plano institucional, é justo reconhecer que, na vertente financeira, existem diferenças relevantes face ao passado. Nesse domínio, Frederico Varandas e André Villas-Boas têm demonstrado uma abordagem mais racional na gestão dos recursos. Procuram reduzir despesas supérfluas, recuperar credibilidade junto dos mercados financeiros e implementar modelos de gestão mais profissionais.

A preocupação em encontrar um equilíbrio entre a performance desportiva e a sustentabilidade financeira é hoje muito mais evidente do que foi durante largos anos no futebol português. Essa mudança não resolve todos os problemas estruturais do setor, mas representa uma diferença clara face a práticas do passado que, em muitos casos, colocaram os clubes em situações financeiras muito frágeis. Pelo menos nesta dimensão, é justo reconhecer que existe uma evolução.

A Liga precisa de independência

O problema é que a racionalidade que Frederico Varandas e André Villas-Boas demonstram na gestão financeira raramente se reflete na forma como lideram o futebol português. Unir o futebol é o lema do presidente da Federação Portuguesa de Futebol. O esforço em passar esta mensagem é grande. O problema surge quando as palavras não correspondem aos atos. Todos percebemos que o futebol português não está unido, e que o exemplo dos três grandes — presidentes, treinadores e jogadores — se reflete em toda a pirâmide do futebol, desde os mais jovens aos profissionais mais experientes. O motivo pelo qual o futebol não evolui é simples: os dirigentes não se sabem autorregular.

Para mudar isto, o primeiro passo seria retirar aos clubes o poder de decisão direta na Liga. A Liga deveria ser gerida por uma equipa profissional, independente, que tomasse decisões em função do interesse do futebol como um todo. Esta equipa seria avaliada pelo impacto das suas decisões passados quatro anos. Os regulamentos seriam mais penalizadores para quem não contribuísse positivamente para o desenvolvimento do produto futebol. Cada clube teria de se preocupar consigo próprio.

Com o tempo, a cultura desportiva melhoraria. O foco deixaria de ser a arbitragem e passaria para o que realmente importa: o jogo dentro das quatro linhas. O ambiente nos estádios ficaria mais seguro e saudável, e os valores do desporto seriam reforçados. Isto tornaria o futebol português mais atrativo para parceiros, patrocinadores e marcas. A única coisa que se perderia com esta evolução seria algo que os dirigentes do passado e da atualidade não querem abrir mão: a possibilidade de encontrar culpados externos para justificar os seus insucessos, em vez de assumirem responsabilidade pelas próprias decisões.

Enquanto os dirigentes continuarem a acreditar que gritar dá votos e desculpas dão poder, o futebol português continuará preso ao mesmo ciclo: muito ruído fora das quatro linhas e pouca evolução dentro delas.

A valorizar: Hugo Oliveira
Valoriza jogadores, joga um futebol atrativo e tem resultados. Está a fazer um grande trabalho.
A desvalorizar: Portimonense
Quando os projetos não têm sustentabilidade, os resultados dificilmente aparecem.