Miles Coleman, produtor do documentário «Mourinho» para a Netflix, fala a A BOLA sobre a personagem que o treinador é, e aquela que projeta

«Nunca quisemos colocar uma câmara à frente de Mourinho para ver as lágrimas»

Documentário sobre o treinador português na Netflix, «Mourinho» procura explorar o homem por trás do treinador; a razão para Guardiola não aparecer

«Mourinho». Assim, entre aspas, porque é o nome do documentário que a Netflix produziu sobre o treinador português. Mais de 20 horas de gravações, vários de dias de conversa, condensam-se num programa de três horas com aquilo que Mourinho quis revelar sobre si. Miles Coleman, produtor inglês, acompanhou várias entrevistas ao treinador, de Istambul a Setúbal, de John Terry ou Zlatan Ibrahimovic a Sir Alex Ferguson, e conversou com a A BOLA em português. Fascinado desde cedo com Mourinho, foi ele uma das razões para se atirar à nossa língua e até viver no Brasil. E está muito curioso sobre o que o português vai fazer no regresso a Madrid.

— Com o material que não usou, dava para fazer outra série? 

— Está tudo guardado. Estamos muito contentes com o trabalho que fizemos, mas foi muito difícil escolher o que deixar de fora. Numa carreira de 20 anos é difícil. Mas a nossa ideia nunca foi fazer a carreira definitiva dele, nem fazer um documentário só de futebol, mas sobre uma pessoa que tem estado na imaginação do público. Nessa perspetiva, acho que os nossos três episódios são completos. Obviamente os adeptos do FC Porto talvez quisessem mais, mas esperamos que tenham entendido um pouquinho mais o Mourinho. Nunca quisemos colocar uma câmara à frente dele para ver as lágrimas. É mais interessante saber porque não quer chorar. A ideia foi explorar por que tem essa mentalidade. Percebo o Mourinho como uma expressão de muitas coisas, muitas fontes de informação que convergem numa pessoa muito fascinante. Uma pessoa muito única, mas acho que todos temos um Mourinho entre os nossos conhecidos, Pode ser um amigo, um chefe, a pessoa que controla a conversa ao almoço, mas também faz todos rir. Depois de tudo isso, a temporada que vai começar agora no Real Madrid é mais interessante. 

José Mourinho em documentário para a Netflix
José Mourinho em documentário para a Netflix

—O que espera? 

— Quando começamos a filmar com ele, depois da Roma, não foi um período muito feliz da sua carreira. A Roma, sim, mas quando saiu da Roma não. O Fenerbahçe não lhe deu lembranças magníficas, o tempo no Benfica foi curto. Durante esses dois anos com o Mourinho, ele sempre imaginou que teria mais um trabalho gigante num clube enorme. Eu imagino que muito do público achava que isso era um delírio. Agora, numa altura em que saiu o nosso documentário, acho muito bonito que tenha razão. Como vai correr? Não sei, e não importa. Depois de quase três anos a trabalhar com ele, vou ver esta temporada como um adepto do futebol. Uma coisa sei: definitivamente não vai ser aborrecido. É a única coisa que posso prever.

De Terry a Casillas até à ausência de Guardiola

John Terry fala sobre José Mourinho em documentário - foto: Netflix

— Entrevistaram vários jogadores que o adoram, como Lampard, Terry, Drogba, Ibrahimovic. Mas como foi a conversa com Casillas? Foi a mais difícil?

— Tínhamos uma lista grande de jogadores e havia nomes que iam dizer sim, obviamente, era só organizar. Mandei mensagem aos representantes de Casillas, expliquei o projeto e esperava ouvir um não, era o mais lógico. Mas responderam que ele queria dar o seu ponto de vista. Não é um período cómodo na carreira dele, mas não houve tensão, não foi especialmente tóxico nem tempestuoso. Foi bastante normal, que foi a coisa mais estranha da entrevista - não foi estranha.

Iker Casillas - foto Netflix

— E o André Villas-Boas, presidente do FC Porto? 

Quando falámos com ele tinha acabado de ganhar as eleições quando mandei uma carta para o clube, ele tinha muita coisa para fazer, foi bastante difícil encontrar uma data. Aos olhos do público Mourinho teve muitas rupturas, mas há sempre um respeito mútuo. Quando não se trabalha com Mourinho, é mais fácil ter uma relação normal com ele. Gostei muito de o conhecer, fala um inglês perfeito.

— Guardiola não aparece. Ele colocou mesmo a condição de convite pessoal por parte de Mourinho?

— Sim, ele disse que precisava de um convite pessoal. Passámos a nota ao José. A única coisa que posso dizer é que não está na série (risos), fica explicado. Seria muito interessante falar com ele sobre o Mourinho, mas tem de ser noutro documentário.

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