«É surreal estar a almoçar com Mourinho na Avenida José Mourinho»
«Mourinho». Assim, entre aspas, porque é o nome do documentário que a Netflix produziu sobre o treinador português. Mais de 20 horas de gravações, vários de dias de conversa, condensam-se num programa de três horas com aquilo que Mourinho quis revelar sobre si. Miles Coleman, produtor inglês que já fez documentários sobre a FIFA ou o Manchester United, acompanhou várias entrevistas ao treinador, de Istambul a Setúbal, e conversou com a A BOLA em português. Fascinado desde cedo com Mourinho, foi ele uma das razões para se atirar à nossa língua e até viver no Brasil. Se ficou a conhecer melhor o homem e o treinador? Sim e não.
— A primeira pergunta tem de ser mesmo esta: porque é que podemos estar a falar em português?
— Não tenho origens portuguesas nem brasileiras. Nasci na África do Sul, moro em Londres, mas sempre tive fascínio pela cultura portuguesa e lusófona por dois motivos: depois de ver o filme brasileiro Cidade de Deus, que é uma obra-prima, e também, quando tinha uns 11 ou 12 anos, um treinador de futebol que se chama José Mourinho veio para Inglaterra… [para o Chelsea, em 2004]. Portugal era apenas um destino de férias, mas estava a aparecer o Ronaldo e houve o Euro… Quando veio o Mourinho foi como abrir uma janela, uma porta para Portugal. Fiquei fascinado por ele, pelo carisma que tinha. Aprendi a língua. Tive a sorte de viver no Brasil, viajar muito em Portugal, por isso fazer este documentário é, para mim, como fechar um círculo, não é? Aprender sobre Portugal através do Mourinho e finalizar com este documentário sobre ele.
— Ficou fã quando ele foi para Inglaterra. Qual é o seu clube?
— Sou do Manchester United, mas trabalho muito com o futebol, considero-me mais um adepto. Quando vou a Portugal, gosto sempre de ir a um jogo, recentemente fui a um jogo do Belenenses. Como muitos jovens, a única coisa que queria na vida era ser futebolista, mas não tenho talento. Revejo-me mais nos treinadores, sempre me imaginei como treinador e por isso o Mourinho foi um fascínio também, porque ele não foi um grande jogador. Como diz no documentário, abriu essa porta a muitos, porque até então os grandes treinadores tinham sido também grandes jogadores.
— Mas sendo adepto de um rival, não terá gostado muito dele…
— Não, lembro-me muito bem. Pensei que a minha equipa,um clube grande, nunca mais ia ganhar um troféu, o futebol tinha acabado. E depois recordo perfeitamente onde estava quando li a notícia de que o Mourinho saía do Chelsea e pensei ‘vamos voltar a ganhar’. Ele teve um poder absoluto num certo momento no futebol inglês - não vou dizer que o odiava, mas no sentido futebolístico, tinha medo dele e da capacidade que tem.
— Foi um alívio, então.
— Foi. Mas também como adepto, recordo os jogos com o FC Porto [oitavos de final da Champions em 2004]: até então tinha visto a minha equipa perder poucas vezes, foi uma surpresa, e estava um pouco dividido. Nasci na África do Sul, como referi, e havia um sul-africano nessa equipa [Benni McCarthy], tinha alguma afeição por ele. E depois torci mais vezes por Mourinho, no Inter, no Real Madrid. Nem em inglês tenho palavras para descrever como em alguns jogos torci pelas equipas dele. É muito especial.
— Demorou muito até ele aceder a fazer um documentário, como ele próprio diz, sobre o treinador e não sobre o homem? E saiu como queria?
— É muito interessante porque ele considera que são duas partes diferentes. Para o público considera ‘eu sou um treinador, sou assim, sou forte’; e ‘com a minha família eu sou uma pessoa diferente’. Para nós como produtores, para o realizador, o desafio não foi romper essa ilusão, não foi quebrar essa ideia, mas tentar entender por que pensa assim. Explorar com mais profundidade de onde vem essa dualidade.
— Mas ele estabeleceu isso desde o início ou foram percebendo nas filmagens?
— Acho que sabia isso antes de conhecê-lo. Não imaginei que a pessoa que vemos na televisão é a mesma com a família. O que se revelou foi a extensão do que ele realmente vive. Pensei que era uma ilusão que ele criou para os jogadores, para o público, para os media. Mas não é, não é falso. É realmente uma dualidade que ele vive dia a dia. E isso foi uma surpresa bastante grande. No primeiro dia de entrevista foi bem claro, ‘estou aqui para falar do futebol’, o desafio para nós foi ir até os limites dessa ideia.
— Quantas horas de gravação tem? Muita coisa ficou por usar?
-— Devia fazer as contas, mas acho que foram 20 horas, 20 dias com ele, várias entrevistas de três, quatro horas. É muito, e só um pedacinho está no documentário. Horas e horas em que falámos de táticas futebolísticas, que para uma audiência geral, não são tão interessantes, mas talvez para um documentário mais futebolístico. Mas a ideia foi sempre fazer um documentário universal, de psicologia de personagem. Todas as semanas ele fala de tática, não era esse o documentário que queríamos fazer. Se quiséssemos tínhamos 10 episódios de uma hora, mas o que queríamos era três com foco na pessoa, e não uma página de Wikipedia dele. Fui ao X ver os comentários - depois anos e meio depois queremos saber o que as pessoas acharam - e compreendo que os adeptos de cada equipa por onde passou quisessem mais tempo, mas acho que não é necessário ir ano após ano, época após época, para entender quem ele é. Estou a tentar lembrar-me, porque filmámos muito. Começámos em Roma. Ele tinha acabado de sair da Roma e depois foi para Turquia, estivemos praticamente um ano na Turquia, acabámos antes de ir para o Benfica. Filmámos em Setúbal e em Tróia também.
— Como foi?
— Foi muito interessante porque Setúbal é a casa dele. E depois é surreal: ir a Setúbal e filmar como ele na Avenida José Mourinho (risos). Isso foi uma experiência. Fomos almoçar a um restaurante e foi normal, ninguém se aproximou, ninguém disse nada. Percebi muitos olhos na mesa, mas ninguém se comportou de forma muito diferente. Ele é um homem muito famoso, conhecido no mundo, mas não age como se fosse uma estrela, não tem assistentes. Quando queríamos filmar com ele, mandava uma mensagem no WhatsApp. Setúbal é uma cidade humilde, trabalhadora... Bem, não é Hollywood, não é? Muitos falam do egoísmo, da arrogância. Setúbal é um lugar sem egoísmo, a 100%. Portugal explica muito da sua personalidade, como ele é como é.
— Houve assuntos sobre os quais tenha dito ‘eu não falo mesmo’?
— Sim e não. Está no documentário. Por exemplo, eu imaginava que falar sobre o árbitro Anders Frisk [que terminou carreira depois de uma denúncia de que Rijkaard, treinador do Barcelona, tinha ido ao balneário dele], a dra. Eva Carneiro ou Abramovich [médica e dono do Chelsea, respetivamente], coisas negativas ou polémicas, que isso ia ser ‘não, não falo disso’. Mas como veem no documentário, fala, deu as suas respostas. Mas como também se pode ver, não quis falar muito sobre a morte do pai. Fizemos a pergunta e ele não ficou chateado, entendeu porque a fizemos, é o nosso trabalho. Não houve perguntas fora dos limites, mas essa foi a única resposta que eu me lembro que foi «não, não, não falo mais disso». É revelador, não é? Revela muito sobre seu caráter. Pode falar de qualquer coisa do campo, mas fora do campo… como em relação ao pai, foi o único «não» que me lembro.
— O José Mourinho é mais aquele homem que sorri quando diz que se queria vingar do Abramovich, ou é mais esse homem que se emociona quando fala do pai?
— Depois de ter feito esse projeto, tenho um entendimento diferente sobre essa pergunta e sobre quem somos, porque é a mesma pessoa. Sem dúvida é a mesma pessoa, mas um dia é assim e noutro dia é diferente. O que aprendi é uma forma de manipular as pessoas na carreira. Imagino que no balneário isso é muito eficaz, porque um jogador um dia pode ter toda a atenção, pode ter todo o seu apoio, e noutro dia não. Mas gosto dessa pergunta - qual é? A pessoa que ri? A pessoa que não ri? É os dois e nenhum dos dois. Vi o Mourinho nos momentos mais privados, sem câmaras, a brincar connosco. Mas sempre pensei que era um jogo. Que tinha uma superfície na personalidade. Eu não sei quem é o José Mourinho, de verdade. Até agora sei e não sei. Sei que a sua vida é muito complexa e vai de um extremo ao outro. Sei que há uma pessoa real, mas não sei qual é a pergunta mágica para o ‘abrir’. Acho que encontrámos vários ‘Josés’.