Akturkoglu a tentar acalmar Ederson
Akturkoglu a tentar acalmar Ederson - Foto: IMAGO

O Benfica tem, a meu ver, um plano para a baliza: encontrar uma solução para Anatoliy Trubin e criar condições para o regresso de Ederson à Luz. Sai Trubin, entra Ederson. A equação é simples de escrever, mas bastante mais difícil de concretizar. Entre a necessidade de encontrar colocação para o internacional ucraniano e o enorme esforço salarial que implicaria recuperar o guarda-redes brasileiro, os últimos dias de mercado prometem transformar a baliza encarnada num dos dossiers mais interessantes até 31 de agosto.

Trubin chegou ao Benfica em 2023 como uma grande aposta de presente e futuro. Custou €10 milhões, mais €1 milhão por objetivos, ficando o Shakhtar Donetsk com direito a 40% de uma futura mais-valia. Tem contrato até 2028 e cláusula de €100 milhões. É, além disso, um dos jogadores com maior peso salarial no plantel encarnado e na Liga

Três anos depois, o cenário mudou. Com Marco Silva, Samuel Soares conquistou a titularidade e Trubin passou para o banco. Uma decisão técnica, naturalmente, mas que ganha outra dimensão quando falamos de um internacional, de um ativo importante do clube e de um dos salários mais elevados do plantel.  E aqui começa o problema…

Não considero que Samuel Soares, neste momento, dê ao Benfica todas as garantias necessárias para assumir, sem discussão, a baliza de uma equipa que tem obrigação de lutar pelo campeonato, Taça da Liga, Taça de Portugal e Liga Europa. Tem 24 anos, conhece a casa, possui qualidade e margem de progressão. Pode até vir a demonstrar que estou errado, mas uma coisa é ter potencial para ser guarda-redes do Benfica, outra completamente diferente é estar preparado para ser, hoje, o dono da baliza do Benfica.

Se Trubin sair, há um nome que surge naturalmente: Ederson.

Há regressos que fazem sentido pela qualidade do jogador. Outros fazem sentido pela história. Este reúne as duas coisas. Ederson conhece o Benfica, conhece a Luz, é amado pelos adeptos e sabe o que significa jogar sob a pressão de ganhar. Foi no clube que se afirmou antes de partir, em 2017, para construir uma carreira extraordinária no Manchester City. Oito temporadas, 18 títulos e uma influência que foi muito além das defesas. Ederson ajudou a transformar a forma como olhamos para o guarda-redes no futebol moderno: deixou de ser apenas aquele que impede golos para ser também o primeiro jogador do processo ofensivo.

Hoje, aos 33 anos, encontra-se numa fase completamente diferente da carreira. Está no Fenerbahçe, mas a experiência turca não terá correspondido inteiramente ao que procurava. Já em maio surgiram notícias dando conta da sua insatisfação e vontade de procurar uma saída depois de apenas uma temporada. 

O Benfica representaria algo diferente. Um regresso a uma cidade que adora, a uma casa que conhece, a um clube com o qual mantém uma forte ligação emocional e onde poderia voltar a competir por títulos. Desportivamente, percebo perfeitamente o interesse. Financeiramente, começa outra discussão…

Ederson recebe na Turquia valores completamente fora da realidade portuguesa - cerca de €12 milhões anuais. Mesmo admitindo, como acredito, que esteja disponível para reduzir drasticamente o vencimento para regressar à Luz, continuará sempre a representar um investimento salarial muito significativo. E é aqui que surge a grande pergunta: depois do enorme investimento realizado pelo Benfica para reforçar o plantel, nomeadamente com João Palhinha, haverá espaço financeiro para fazer mais um esforço desta dimensão?

Não me parece que o principal obstáculo seja necessariamente o valor de uma eventual transferência, o problema é o salário. Ederson pode querer regressar e o Benfica pode querer Ederson, mas entre duas vontades existe uma folha salarial que tem de continuar a fazer sentido para ambos.

É também por isto que custa olhar para aquilo que aconteceu recentemente no mercado português. Lukás Hornícek estava no SC Braga. Tem 24 anos, conhece a Liga, estava perfeitamente adaptado ao nosso futebol e, na minha opinião, reúne condições para se tornar num dos melhores guarda-redes europeus nos próximos anos. O Newcastle percebeu o potencial e pagou €30 milhões por ele.  Benfica e FC Porto tiveram durante anos, praticamente à porta de casa, um guarda-redes que hoje já está a brilhar na Premier League. Falo de Benfica e FC Porto por razões distintas. No Benfica, a questão da baliza nunca me pareceu verdadeiramente encerrada, apesar das boas exibições que Trubin foi protagonizando — e até de um momento absolutamente improvável e inesquecível como o golo frente ao Real Madrid. No FC Porto, a realidade é outra: Diogo Costa é, na minha opinião, um dos cinco melhores guarda-redes do mundo e está claramente preparado para outros voos. A qualquer momento, um dos gigantes europeus poderá avançar para a sua contratação — e atenção ao Real Madrid. Não incluo o Sporting nesta discussão por uma razão simples: em Alvalade, a baliza está entregue.

Mas há outro caso ainda mais difícil de compreender: Ricardo Velho. Português, internacional, 28 anos, eleito melhor guarda-redes da Liga em 2023/24 e com provas dadas no Farense. Acabou de sair para o Aris de Salónica por um valor próximo dos €3,5 milhões.  Como é possível que um guarda-redes internacional por Portugal, na flor da idade, conhecedor do campeonato e disponível por estes valores não tenha despertado maior interesse nos grandes clubes portugueses?

Não estou a dizer que Ricardo Velho tivesse obrigatoriamente de ser o titular do Benfica. Estou a falar de planeamento, antecipação e visão. De perceber que, por vezes, o mercado oferece soluções antes de existir um problema e que esperar pelo problema costuma tornar a solução muito mais cara…

Agora, porém, o Benfica já não está nessa fase. Tem uma decisão para tomar. Trubin perdeu a titularidade. Samuel Soares ganhou espaço, mas, na minha opinião, não oferece garantias suficientes para fechar a discussão. E Ederson reúne quase tudo aquilo que se procura numa solução imediata: qualidade, experiência, liderança, conhecimento do clube, identificação emocional e características perfeitamente adaptadas ao futebol que Marco Silva pretende implementar. Para além de ser um jogador amado pelos adeptos. Há apenas um enorme obstáculo: dinheiro.

É por isso que tudo começa em Trubin. O clube da Luz dificilmente poderá manter um dos seus ativos mais importantes e um dos maiores salários do plantel no banco e, simultaneamente, assumir o esforço financeiro necessário para contratar Ederson. Para uma peça entrar, outra terá primeiro de sair: sai Trubin, entra Ederson. Não significa que seja uma operação simples, muito menos que esteja garantida. O mercado terá de encontrar uma solução para Trubin, Ederson terá de fazer um esforço financeiro muito significativo e o Benfica terá de decidir até onde está disposto a ir para recuperar o internacional brasileiro.

Há uma coisa que me parece evidente: a baliza do Benfica, que nunca foi um tema totalmente encerrado com Trubin, transformou-se agora num problema que exige uma solução urgente, sob pena de comprometer não apenas os objetivos desportivos da equipa, mas também a gestão financeira de um dos ativos mais valiosos. Uma grande ironia desta situação é o facto do Benfica poder acabar por realizar um investimento extraordinário para resolver uma posição para a qual, há poucas semanas, existiam no futebol português soluções como Hornícek e Ricardo Velho.

O mercado de transferências também se faz de oportunidades. Das que aproveitamos e das que deixamos passar e não há tempo para olhar para trás. Trubin é a chave. Ederson é o desejo. E 4 de setembro é o limite…

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

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