O Mercedes, o Peugeot, as oportunidades que a vida dá e uma equipa com uma crença inabalável: tudo o que disse Rui Borges
— Este Sporting já fez história na Champions. Sente que a equipa ainda tem fome?
— Vou ser muito frio. A equipa tem de ser igual a si própria e ao que tem sido até aqui. Independentemente do adversário, daquilo que é a competição que estamos a disputar... Não preciso de falar em fome porque esta equipa demonstra-o todos os dias e a cada jogo. A ambição, coragem e prazer que têm em campo e a jogar entre eles. Amanhã temos de ser uma equipa igual a nós próprios, ao que temos sido. Desfrutar do jogo com a responsabilidade inerente, claro, e atrás de algo inédito para o clube, para nós enquanto equipa. Estamos cientes das dificuldades. Vamos defrontar um grande Arsenal e fazer o que ninguém fez na Champions, que é ganhar a esta equipa. Sabemos das dificuldades que teremos, mas a confiança é infinita.
— Arteta disse que se sentia 'em chamas' para este jogo. Como é que o Rui se sente? Champions e campeonato podem ser duas prioridades?
— Volto a dizer, vou começar como comecei a pergunta anterior. Sou muito frio. Estou calmo. A chama é a ambição e todos temos muita, por isso é que aqui estamos, a disputar uma passagem às meias-finais. Estamos nas oito melhores equipas, onde ninguém pensaria. Se calhar só nós acreditávamos... Mas é fruto da qualidade da equipa. São duas grandes equipas amanhã e independentemente do resultado, não é nem será [por aí]. É uma semana importante e as decisões são cada vez mais importantes, mas temos de estar cientes de que estamos no final da época e inseridos em tudo o que há para disputar. E isso identifica claramente o Sporting. Estar nas competições a disputá-las até ao fim, a querer ganhá-las. E isso é que define um grande Sporting. Estarmos aqui a lutar pelo campeonato, Taça e a passagem na Champions. O que se passar amanhã não apaga nada a grande época desta equipa e destes jogadores.
— O Gyokeres parece preocupado com o relvado do Emirates. O Sporting também o está? Estando aqui hoje, vai dizer aos jogadores para, numa situação limite, não meterem o pé porque vem aí um jogo importante?
— O relvado não pisei... Estou preocupado com o que o Luis disser do relvado, está aqui a perguntar se vai jogar os 90 minutos. O relvado vai estar assim para as duas equipas. Declaração de Gyökeres? Nem li. É uma declaração de um atleta do adversário. Em relação à Champions, estamos aqui e o jogo mais importante é o de amanhã. Vamos disputá-lo com tudo, ambição e coragem enormes e apenas e só a pensar neste jogo e tentar ganhá-lo. É o que queremos, que eles querem. Têm esse desejo. Continuar a marcar a história do clube e a deles individualmente. O nosso foco é apenas e só o jogo de amanhã
— Que mensagem passou aos jogadores esta semana? Sente-os preparados para a exigência destes três jogos?
— A minha mensagem é muito clara, simples. E se há semana em que não preciso de falar muito é esta. Por si só, vão estar super motivados. Amanhã estão preocupados em saber o onze... Querem todos jogar, poder desfrutar e estarem inseridos ativamente no jogo em si. No meu discurso, é uma semana muito simples. Eles sabem que representam um grande clube, sabem a pressão diária de representar o Sporting, a responsabilidade... Não preciso de fazê-los ver que temos jogos importantes, eles sabem. Não preciso de me desgastar muito, preciso sim de os manter ligados à minha exigência, à ideia da equipa. Descansá-los, conseguir tê-los o mais frescos possíveis... É esse o meu foco, juntamente com o staff. Tem a ver com a performance, recuperação física... A parte da alimentação, também. Mais do que propriamente o meu foco em chamar a atenção. Eles sabem disso, não precisam que o treinador diga isso a toda a hora. Nem lhes ligo uma vez. Sabem o que vão disputar amanhã, olho para os olhos deles e vejo a vontade que têm em disputar o jogo, que acreditam numa passagem às meias-finais. O futebol e a vida dão oportunidades a quem acredita muito. E se há equipa que acredita muito, é esta.
— Arsenal está num momento algo conturbado... Acha que isto pode jogar a favor do Sporting? O que se passou com o Fresneda?
— O Iván tem sido um jogador importante, tem feito uma grande época. Por gestão física, não se encontra a 100%. Optámos por deixá-lo em Lisboa, não estava nas plenas condições de dar o seu contributo e o jogo de amanhã exige toda a gente a 100%. Arsenal? Não tem a ver com ajuda. Estamos a falar de uma grande equipa. É natural que uma grande equipa não ganhe sempre. Mas isso até os motiva mais e vai levá-los a estar super ligados numa fase inicial, com uma intensidade bastante elevada e exigência bastante elevada. Estamos a falar de um grande clube, com grandes jogadores, e acredito que não seja um jogo menos conseguido a definir a época e a grande equipa que são
— Houve seis baixas no treino do Arsenal hoje. De que forma isso condiciona a sua preparação? Disse que a vida dá oportunidades a quem acredita. Nestes momentos, agarra-se a quê?
— Agarramo-nos uns aos outros e eu agarro-me ao que me trouxe até aqui: ao meu trabalho. Acreditei muito. A vida deu-nos essa oportunidade. É um bocadinho isso que digo. Se há equipa que acredita é esta, se há equipa ambiciosa é esta, se há equipa que acredita que é capaz de ultrapassar [obstáculos]... Acredito nisso. É sinal que temos capacidade para ultrapassar isto. E se estamos aqui a disputar os quartos-de-final... É certo que vimos de uma derrota em casa, mas se não tentássemos disputar tínhamos levado 3... Passar esta eliminatória seria 0,0001% de probabilidade. Arranjo sempre forma positiva de olhar para as coisas. E é isso que tem sido esta equipa. Quando somos postos à prova, é sinal que temos qualidade para ultrapassar os desafios. E amanhã é mais um. Independentemente do que aconteça... Vamos jogar contra uma grande equipa que ainda não perdeu, acho que nos últimos 20 jogos em casa tem duas derrotas... Sabemos das dificuldades, mas temos esperança porque sabemos que temos essa capacidade. Mas se não acontecer, não muda nada. Não é isso que vai identificar esta equipa ou defini-la em relação a tudo o que tem sido capaz. Baixas no treino do Arsenal? Em termos da ideia não dificulta, mas é uma equipa que tem três grandes jogadores em cada posição. Estamos sempre atentos e claro que muda, porque os jogadores têm caraterísticas diferentes, mas na sua essência isso não muda a nossa ideia de jogo. Durante o jogo pode alterar alguns comportamentos, claro, mas numa grande equipa com tantos jogadores de grande qualidade e caraterísticas diferentes... Mudam pequenos comportamentos
— Do outro lado, está uma equipa que certamente também acredita e se calhar tem mais qualidade individual do que o Sporting. O que o faz acreditar tanto? Sente que este pode ser o jogo mais importante da sua carreira e da história do Sporting?
— Na minha carreira é mais um jogo importante, são todos. E cada um tem a sua história, a sua importância. Estamos na competição que toda a gente sonha disputar, e eu enquanto treinador também. Eles enquanto jogadores... Marcará a carreira de todos nós. Em primeiro lugar a história do Sporting, que é o que queremos, continuar a marcar a história do Sporting. Este grupo merece esse reconhecimento, merece marcar a história do Sporting ao nível das grandes lendas do Sporting. E estou a dizer isto com toda a honestidade, é o que sinto. E é em relação aos jogadores, não ao treinador. É acreditar. O valor é subjetivo. O Mercedes anda a 200 km/h e o Peugeot também. E o Mercedes vale o dobro. É conhecer atalhos, estradas e saber desviar e chegar à frente. Fiz publicidade aqui... [risos].
— Caso se confirme que Declan Rice e Odegaard não jogam, o treinador do Sporting tem de estar aliviado...
— O Arsenal tem três grandes jogadores para algumas posições, não são dois. Isso nem tem lógica para mim. Em relação às bolas paradas, estamos a falar de uma grande equipa, mas não fazem golos há alguns jogos assim. É a equipa na Europa com mais golos na bola parada, claro, isso não lhes retira competência. Não é que seja uma elaboração extraordinária, mas em 10 batidas batem 10 nos sítios onde o treinador pede, e depois têm seis ou sete armários... Jogadores atleticamente muito fortes. A bola parada é duelo e isso torna-os muito fortes. Independentemente de quem jogar, são fortíssimos nesse momento. Tento sempre valorizar os meus e também temos sido fortíssimos na bola parada ofensiva e defensiva. Muito confiante na capacidade da nossa equipa.
— Em Inglaterra fala-se muito do Arsenal-Manchester City. Isso funciona também a favor do Sporting? Entre Vagiannidis e Quaresma, o que é que cada um dá como lateral-direito?
— Calma, nós somos como o Arsenal, temos três [grandes jogadores em cada posição]. O Blopa também... [risos] Isso é problema do Arsenal. Nós estamos só focados nesse jogo. Que nos deixem sossegados, estamos muito mais focados no que poderemos ser capazes de fazer, independentemente de estarem ou não focados no Arsenal-City, isso passa-nos ao lado. Sabemos que a exigência é grande, também teremos um a seguir. Mas estamos focados no Arsenal. Queremos disputar e ganhar esse. Sabemos das dificuldades, mas queremos estar na decisão até final. Acredito que seremos capazes de dar uma grande resposta e fazer um grande jogo. Em relação às laterais, são jogadores diferentes. O Edu dá-nos umas coisas... Não vou estar a falar de caraterísticas, mas são três jogadores diferentes. O Vagiannidis é um lateral de raiz, ofensivo, o Edu não é de raiz mas é bastante competente. E o Blopa dá-nos velocidade, intensidade e competitividade. Todos podem jogar
— Um dos pontos fortes do Sporting é o contra-ataque. Quão importante será isso amanhã?
— Penso que o Sporting não é só forte no contra-ataque. E o primeiro jogo demonstra bem isso. A posse de bola até foi bastante equilibrada... O Sporting gosta de mandar no jogo com bola e é isso que tentaremos. Mas claro que sabemos que nestes jogos podem haver mais momentos desses e temos de ser mortíferos. Nestes jogos não há muitas oportunidades e no primeiro jogo viu-se isso. Nós até tivemos mais e saímos com a derrota. E amanhã sabemos que temos de ser uma equipa bastante equilibrada em todos os momentos do jogo. Bolas paradas, momento ofensivo, defensivo... E as transições. Somos uma equipa equilibrada, que tem de saber estar em cada momento, e sabemos da importância de todos eles, principalmente num grande jogo como o de amanhã.
— O Sporting é o Peugeot e o Arsenal é o Mercedes, foi isso que quis dizer?
— Tinha a ver com o valor do plantel e eu disse que o do Arsenal é maior. Só que nem sempre o carro mais rápido ganha ao da marca menos forte... Andam ambos a 200 km/h. Depois depende dos caminhos. O Mercedes pode parar na bomba [de gasolina] e nós não paramos, seguimos. O valor da equipa não define o vencedor, o que define é o compromisso, a exigência do jogo. Claro que a qualidade individual e coletiva de cada equipa também vem ao de cima, mas nisso são duas grandes equipas. A que tiver mais compromisso e for mais rigorosa, levará de vencida a eliminatória. O jogo em Alvalade foi disputado, equilibrado, nós tivemos as nossas oportunidades. Que sejamos mais felizes amanhã.
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