Augusto Inácio: «Havia buracos na relva e eram tapados com cimento»
No Mundial do México, em 1986, Portugal foi do sonho ao pesadelo. Foi um Mundial vencido pela Argentina. Maradona tornou-se a estrela maior, marcou o golo do século e foi a famosa mão de Deus. A verdade é que Portugal, 20 anos depois, estava de regresso a um Campeonato do Mundo. Mas, muita coisa correu mal. Augusto Inácio foi titularíssimo na equipa portuguesa. Era ele o nosso lateral-esquerdo e uma das escolhas indiscutíveis do selecionador José Torres.
— Estamos na Federação Portuguesa de Futebol, a Casa de Portugal, a recordar o Mundial de 86. A verdade é que a realidade daquela altura para quem era jogador não tem qualquer comparação com a atual...
— Nós reuníamo-nos na Praça da Alegria e o autocarro levava-nos até ao hotel e depois íamos treinar aqui ao lado, no Estádio Nacional. No final íamos para o hotel outra vez e isto era a nossa vida. Quer dizer, olhando para esta realidade, eu diria que os jogadores são uns sortudos, porque quem tem estas condições que a Federação dá só tem de pensar em treinar bem e jogar bem, porque realmente têm aqui tudo o que um jogador precisa: descanso, alimentação, salas, privacidade. Eles têm tudo e têm excelentes relvados para treinar. Eu acho que, sinceramente, parabéns à Federação por dar estas condições a jogadores que podem depois expressar o seu talento no campo.
Não havia organização, era impossível treinar... o campo era inclinado!
— Quando olhas para o futebol na época, enquanto lateral de Portugal, no México, em 1986, o que é que vem à memória?
— O que me vem à memória são realmente os problemas que nós tivemos que enfrentar. Houve o 25 de Abril do futebol. Repara que a gente não tinha organização nenhuma. Quando fomos para o México era impossível treinar, por exemplo, num campo que era completamente inclinado. Quando havia buracos na relva, nós fizemos queixa à organização e taparam os buracos com cimento. Quando fomos fazer um jogo-treino em Monterrey, que era a 70 quilómetros de onde estávamos, vimos que o adversário que ia entrar em campo era uma equipa formada pelos empregados de mesa. Eram eles que iriam jogar contra nós. Estás a ver que naquela altura não havia organização nenhuma. Aquilo era entregue ao treinador, à equipa técnica, aos jogadores como que a dizer-lhes, agora safem-se, resolvam e ganhem os jogos. Aquele Mundial não foi o que eu queria e esperava. Foi muito triste aquilo que se passou, mas deu-nos também a possibilidade de lutarmos por algo de bom no futuro. Por exemplo, isto que os jogadores estão agora a usufruir, seria diferente se não houvesse aquele grito de revolta. Talvez as coisas não estivessem assim tão boas como estão agora.
— Más memórias do primeiro e único Mundial da carreira.
— Portugal tinha estado no Mundial em 1966 e só voltou 20 anos depois. Aconteceram tantas coisas que tinha mesmo de ser um ponto de viragem. Tinha de ser assim mesmo. Muita confusão para se encarar que isto tinha de ser levado com outra seriedade. Os exemplos vêm sempre de cima e nós treinámos o que tínhamos de treinar. Jogámos o que tínhamos que jogar, mas faltava sempre exigência, da parte de cima. Peço imensa desculpa às famílias que estão a ler esta nossa conversa, mas os dirigentes iam lá para fora passear. Aquilo parecia que eles não iam participar em nada e iam de férias praticamente. Entregavam tudo ao treinador e aos jogadores. E nós exigimos coisas de uma maneira, principalmente ao nível da organização e a nível realmente de condições para que nós pudéssemos explanar aquilo que era a nossa qualidade. Repara que fomos para o México 40 dias antes. Foi para treinar em altitude e a verdade é que cada vez que corríamos ficava uma poeira de terra imensa no ar. Dentro daquilo que foi a organização, eu diria que nunca vi uma coisa daquelas num Mundial. Sinceramente, tenho pena, porque já tinha 31 anos. Sabia que aquele era meu último Mundial, mas tive pena que as coisas não correrem de uma outra forma. Até porque tínhamos ganho o primeiro jogo, com a Inglaterra, por 1-0 e pelo menos tínhamos possibilidades para passar à fase seguinte. Mas, as coisas estavam tão enroladas, estavam tão confusas… Eram discussões atrás de discussões, depois perdemos com a Polónia (1-0) e com Marrocos (3-1). Queríamos que as coisas fossem feitas de uma forma, diria transparente em relação àquilo que também eram os nossos direitos. As pessoas ficaram com a sensação em relação a nós, que queríamos era dinheiro. Que éramos uns mercenários, mas não foi nada disso. Sinto que valeu a pena lutar para que realmente olhassem para o futebol de outra forma.
Foi muito triste o que se passou, mas deu-nos a possibilidade de lutarmos por algo de bom para o futuro
— Fala-se até de valores de prémios de jogo e da diária que recebiam na Seleção...
— Na Seleção sempre houve diárias e houve também o pagamento até dos transportes para quem era de longe para ir para a Praça da Alegria. É verdade, e também tem que ser dito, que alguns estavam mais perto de Lisboa e punham mais quilómetros para receber mais dinheiro dos transportes. Mas, as diárias sempre houve. Não era realmente aquilo que mais nos importava. Aquilo que nós mais queríamos eram melhores condições.
Não havia privacidade e qualquer pessoa entrava pelo hotel adentro
— Falava-se que o próprio hotel onde vocês estavam não tinha condições de privacidade e de infraestruturas que vos desse toda a tranquilidade essencial para representar um país num Mundial?
— O hotel não era mau e os quartos eram bons. Agora queixamo-nos sim era da privacidade que não havia, porque qualquer pessoa entrava por ali adentro. Repara que os nossos seguranças que estavam lá eram os primeiros a prevaricar. É verdade isto que eu vou dizer, até meninas entraram dentro do hotel. Mas, não venham colocar as culpas nos jogadores. Os primeiros a levar para lá as meninas foram jornalistas. Esta é a grande verdade.
— Há relatos de atividades sexuais com prostitutas locais nessa altura, mesmo durante o estágio da Seleção...
— Exatamente. Mas, começou pelos jornalistas pois foram os primeiros a levar e depois os jogadores começaram a perceber, acho eu. Se me perguntares a mim mas, tu também entraste neste esquema? Juro por Deus que não. Não entrei. Mas, também não vou pôr as mãos no lume e dizer que houve outros que não entraram. Eu falo por mim. O que é certo é que vi muitas caras estranhas a entrar e a sair do hotel e isso não é normal numa equipa que está a disputar o Mundial. Hoje isso era impossível de acontecer.
— Faltou seriedade nesse Mundial?
— O compromisso estava lá porque nós éramos briosos e tentámos fazer aquilo que o treinador queria que nós fizéssemos em termos táticos. Não se pode apontar a nenhum jogador da Seleção não desse o seu melhor. Podia não render mais, por outras razões. Todos deram o seu melhor independentemente dos clubes que representavam. Senti sempre uma união na cabeça dos jogadores que era a camisola da Seleção Nacional. Não havia Benfica, nem FC Porto ou Sporting.
Até meninas entraram no hotel, mas eu não entrei no esquema
— A escolha dos 22 convocados pelo selecionador José Torres levou a algum ruído, até porque Manuel Fernandes, avançado do Sporting que tinha sido o melhor marcador do campeonato, nem sequer foi convocado.
—É verdade, o Manuel Fernandes eu também pensava que ia ser convocado porque era um bom marcador e um bom jogador. Mas, o José Torres entendeu não levar. Levou só o Fernando Gomes. Acho que olhando para o naipe de jogadores que foram e para aquilo que eram as ambições que Portugal levava, o Manuel Fernandes cabia claramente nas escolhas dos 22.
— Ganhámos apenas um jogo, o primeiro, contra a Inglaterra. Como é que era aquela equipa inglesa de Bobby Robson?
— Era uma equipa à imagem de Bobby Robson, divertida, Eles tinham uma arte a jogar que era simplesmente deles e tinham jogadores importantes. Acho que o Bobby Robson aprendeu muito com aquela derrota com Portugal. A equipa ficou mais compacta e já não ficou tão dispersa no terreno. E ele deve ter pensado que se perdeu com os portugueses, os outros também poderiam ser capazes de fazer a mesma coisa. Os outros jogos da Inglaterra nesse Mundial foram diferentes do nosso. Acho que ele aprendeu, nós é que não aprendemos. Não aprendemos e ficámos cegos com a vitória. Acabámos por facilitar um bocadinho no jogo com a Polónia. Esse jogo ficou-me atravessado pois nós éramos melhores, mas a Polónia depois teve argumentos coletivos superiores a nós. Nós, coletivamente, também não éramos maus. Não disse que éramos bons. Disse que não éramos maus, mas individualmente tínhamos jogadores que marcavam a diferença. Só que quando sofres primeiro e depois vais esbarrar contra uma equipa que está organizada defensivamente já nenhum individual marca a diferença e nós perdemos. Podíamos ter empatado, mas perdemos esse jogo e eu acho que isso foi decisivo para nós.
— Entre esse primeiro jogo com a Inglaterra e o segundo com a Polónia, Bento partiu o perónio e foi Vítor Damas que assumiu a baliza de Portugal. Foi difícil para ele.
— Eu disse-lhe para se preparar para jogar e ele confessou-me que estava com alguma preocupação de o culparem se algo corresse mal. Disse-lhe para pensar em grande pois as coisas iam correr bem. Perdemos aquele jogo e ele não teve culpa nenhuma no golo da Polónia. E também não teve culpa nenhuma nos golos de Marrocos. O grupo ficou muito abatido com aquilo que aconteceu ao Bento. Aquilo foi numa brincadeira, numa peladinha, sabes? Aconteceu ao Manuel Bento e foi péssimo pois nunca mais conseguiu voltar, mas também foi péssimo para Vítor Damas.
O Damas sentia-se pressionado, depois entrou numa depressão que nem sei se saiu dela
— Essa pressão contribuiu para a depressão do Vítor Damas?
— Ele sentia-se pressionado, mesmo sem ter tido culpa nenhuma nos golos que sofremos, mas acho que não foi por aí que ele teve aquela depressão. Foram outras coisas. Aquilo pode ter contribuído um bocadinho, é verdade, mas não foi a razão principal. Vidas. Ele realmente entrou numa depressão, e foi difícil sair dali. Nem sei se ele chegou, alguma vez, a sair dela.