Uma bela Sena de Trunfo
Conquistar um lugar ao Sol é cada vez mais difícil no planeta Futebol. Se é verdade que a difusão da qualidade e a despistagem do talento é cada vez mais universal, é igualmente certo que a competitividade e a concorrência aumentaram na direta proporção da transversalidade do jogo, da sua globalização e compreensão.
Há gerações inesquecíveis e, quando se fala de futebol ao mais alto nível, importa ter memória. O tempo é o que dele fazemos, e dar tempo ao tempo é o melhor conselho para os mais novos, habituados ao mediatismo e ao imediatismo do consumo direto, sem filtros, mas, também, sem outro registo que não seja o do confronto de números, estatísticas e críticas que não puxam o tempo atrás para as necessárias equivalências.
Di Stefano, Puskas, Pelé, Eusébio, Maradona, Beckenbauer, Cruyff, Ronaldo, Ronaldinho. Eleitos pelos Deuses e nomes indissociáveis do belo jogo, da sua História e das suas memórias. Para esse grupo restrito (que poderia, sublinho, incluir mais meia dúzia de nomes), vão entrar, no Mundial-2026, pelo menos mais seis. Uma meia dúzia dourada que terminará a sua participação em fases finais de Campeonatos do Mundo de futebol, depois de um percurso brilhante, dourado, emoldurado.
Desde logo Cristiano Ronaldo, o miúdo madeirense sonhador que conquistou todos os amantes da bola com um perfil único no futebol internacional: uma incomensurável e inigualável capacidade de trabalho, de sacrifício, de conquista e de motivação geracional.Vi-o, em agosto de 2003, na inauguração do novo Estádio José Alvalade, assinar a exibição maravilhosa, pelo Sporting, que levaria ao êxtase os jogadores do Manchester United e, por osmose, Sir Alex Ferguson. Vi-o no primeiro passo de dimensão internacional de uma carreira que viria a comprovar-se única, criando auréola de sucesso e uma marca que ultrapassou… todas as marcas.
Cristiano, cujo primeiro Mundial remonta há 20 anos, na Alemanha, despede-se nas Américas e, com o eterno rival da sua geração, deixará um registo incomparável.Temos sorte, muita sorte, em ter privado, numa mesma geração, com ele (Cristiano) e com ele (Lionel). Porque Messi também apaga a luz celeste da sua seleção neste Mundial, onde defende o título de campeão do mundo conquistado, há três anos e meio, no Qatar.
Messi e a sua magia marcaram a seleção das pampas nas últimas duas décadas. O argentino foi campeão olímpico, campeão continental sul-americano e campeão mundial, mas foi, sobretudo, o definidor do futebol-talento, das botas de arte, dos golos de antologia e dos passes mais perfeitos do que geometria sobre relva.
A rivalidade com Cristiano (mais por parte dos adeptos de cada um dos génios do que propriamente entre eles…), apimentou vinte anos de espetáculo e fez dos retângulos de jogo denominadores comuns de uma cantata especial, apenas reservada aos mais prodigiosos representantes do jogo.
Como Luka, o rapaz de Zadar que poucas camisolas vestiu e que tantas alegrias deu. Do Dínamo Zagreb ao Milan, passando pelo Tottenham, pelo Real Madrid e, claro, com a quadrícula certa da sua Croácia, com o qual foi vice-campeão do mundo há oito anos e terceiro classificado em 2022. Foi sempre à sua Modric, uma moda de rigor, profissionalismo, influência, ligação entre setores, passes interiores, assistências e algumas finalizações.
Foi sempre ele próprio, representando uma fantástica geração de jogadores croatas que bem elevaram o nome do seu país, para mais sendo herdeiro de uma das mais belas escolas de formação de futebol do Mundo, a da antiga Jugoslávia, nas décadas de 70 e 80 do século passado (haja tempo e memória, claro…).
Mas, aos quarentões Cristiano e Modric e ao quase lá chegado Messi juntam-se, nestas linhas de destaque a eleitos do futebol mundial, outros três nomes (e poderiam ser mais). Guillermo Ochoa, o eterno guarda-redes do México, que, como o português Cristiano e o argentino Lionel, fará em casa o seu sexto Mundial, número quase impossível de atingir, e que bem atesta a consistência e a qualidade dos futebolistas que lá chegam.
Ochoa não tem o mediatismo imediato dos craques de Portugal e da Argentina, mas merece uma especial saudação, ainda que a longevidade e a capacidade competitiva seja apanágio de alguém com o seu específico posto de guarda-redes. Tal como, aliás, Manuel Neuer. O gigante alemão, bem digno de uma estirpe única de guardiões que integra Sepp Maier, Harald Schumacher e Oliver Kahn, está de volta à suprema forma que o alcandorou a posições muito próximas de melhor guarda-redes alemão da História.
Apesar da irregularidade de presenças nos últimos dois anos, o estoicismo e a dimensão de animal de campo do guardião do Bayern Munique lançam-no à titularidade da Mannschaft e prometem uma despedida em grande de um dos nomes que mais marcaram, nos últimos vinte anos, as balizas do futebol mundial.
Permitam uma nota, também, para a despedida de Mohamed Salah. Um ano terrível em Anfield Road, marcado por dissensões internas com o próprio treinador Arne Slot, e terminado com o adeus do egípcio à camisola que mais o distinguiu na carreira (a do Liverpool), finaliza nas Américas com o derradeiro Mundial do jogador mais marcante do Norte de África, na última década.
Um ídolo para os egípcios, porventura mal-amado na África subsaariana, um desequilibrador nato, figura incontornável da história recente dos faraós, e que deixará os principais palcos de seleções à espera de um bom resultado de uma seleção que teima em não explodir nas grandes competições intercontinentais.
Cristiano, Messi, Modric, Ochoa, Neuer, Salah. Uma verdadeira Sena de Trunfos, a quem o futebol ficará eternamente grato.
O sonho, em Torres Vedras, era a subida de divisão e o regresso ao convívio principal do futebol português.
Eis como tudo muda numa semana, e o sonho intermédio (com a presença na final da Taça de Portugal) passa a definitivo, a principal, a histórico. Eis como Luís Tralhão, promovido a timoneiro a meio da época, transforma um balneário de bons jogadores numa fortaleza para uma bela equipa. Coloca cada um a jogar para todos, cada cabeça a pensar por todas e cada mentalidade a produzir para o grupo.
Esse foi o trunfo e o segredo mais bem guardado de Tralhão e do Torreense, até bater o Sporting e assegurar a presença da fase de liga da UEFA Europa League, garantindo oito jogos na competição europeia.
Pelo meio ficou o primeiro sonho. Mas se a equipa do Oeste o continuar a ser, do modo determinado e eficaz com que se apresentou no Jamor, é bem possível que o tal sonho do regresso ao primeiro nível esteja apenas adiado por uma temporada…