Torreense foi o brilhante vencedor da Taça de Portugal - Foto: Imago
Torreense foi o brilhante vencedor da Taça de Portugal - Foto: Imago

O futebol passa a vida a prometer milagres. A maior parte das vezes não cumpre. É por isso que, quando um acontece, a memória trata de o guardar num lugar especial.

Esta semana chegou à Netflix um documentário sobre Vinnie Jones e o velho Wimbledon. Uma equipa que parecia saída de um romance escrito à pressa, entre cotoveladas e joelhadas. Em 1988, aquele grupo de rebeldes entrou em Wembley para disputar a final da FA Cup contra um Liverpool que era muito mais do que uma equipa. Era uma potência, uma certeza, uma máquina habituada a transformar favoritismo em vitórias. O Wimbledon era apenas uma possibilidade remota.

Noventa minutos depois, o impossível tinha acontecido. John Motson, comentador da BBC, encontrou as palavras que ficariam gravadas para sempre na história do futebol inglês: «The Crazy Gang have beaten the Culture Club.»

Talvez seja essa a função mais nobre das taças. Recordar-nos que o futebol não pertence apenas aos ricos, aos poderosos ou aos habituados a vencer. Pertence também aos que chegam sem convite e recusam sair sem deixar marca.

Dias antes, em Portugal, o Torreense fez algo ainda mais extraordinário do que o Wimbledon. Uma equipa do segundo escalão venceu o Sporting. Venceu o então detentor do troféu. A equipa que tinha sido bicampeã.

Não foi apenas uma vitória. Foi uma interrupção da ordem estabelecida. Um daqueles momentos em que o futebol contraria a lógica para abraçar a imprevisibilidade que lhe dá o seu lado mágico.

Enquanto muitos procuravam explicações para a derrota do favorito, Torres Vedras celebrava o dia mais bonito da sua história desportiva. Foi Carnaval em maio. Havia abraços que demoravam tempo a terminar. Havia lágrimas que não eram de tristeza nem de alegria, mas daquela mistura rara que nasce quando um sonho antigo ganha forma diante dos olhos de cada adepto.

No dia seguinte, como quase sempre acontece por cá, falou-se muito mais do gigante que caiu do que do pequeno que voou. Discutiram-se erros, responsabilidades, estados de alma e futuros incertos. Procuraram-se culpados com a mesma rapidez com que se esqueceram heróis.

É um hábito muito português. O futebol vive sempre aprisionado na narrativa dos três grandes. Com protagonistas imutáveis e figurantes ocasionais. Quando um dos grandes perde, a derrota ocupa o palco inteiro. Quando um dos pequenos realiza uma proeza, recebe apenas o espaço que sobra. Muitas vezes, pouco mais do que uma nota de rodapé.

Mas a beleza desta história não está no sofrimento de quem perdeu. Está na coragem de quem acreditou. Não existe entre nós um Vinnie Jones. Nem um Crazy Gang. Mas há um Stopira, com a mancha vermelha no cabelo, num sinal de rebeldia contra a monotonia. Há jogadores que passaram a vida longe dos grandes holofotes. Há treinadores, como Luís Tralhão, recheados de competência, que trabalham sem microfones a amplificar cada uma das suas palavras. E existem adeptos que atravessam anos inteiros alimentados só pela esperança.

São eles os verdadeiros guardiões da alma do futebol. Porque o futebol não vive apenas dos milhões, das audiências ou das marcas globais. Vive também das pequenas terras onde ainda se vai ao estádio por amor e não por moda. Vive dos campos onde se sonha sem garantias. Vive das equipas que raramente chegam, mas que, quando conseguem, deviam transformar-se numa história jamais esquecida no desporto daquele país e não apenas do clube que alcançou tamanha proeza.

O Wimbledon teve direito ao seu documentário. O Torreense, provavelmente, não terá. Nem mesmo numa plataforma nacional. E bem que merecia, Mas isso não altera o essencial. Durante uma tarde, desafiou o impossível e venceu-o.

E há vitórias que não precisam de uma plataforma de streaming para serem eternas. Basta-lhes um lugar na memória de quem ainda acredita que, de vez em quando, David pode olhar para Golias e recusar-se a ter medo.

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