O Jogo entre Jogos
Uma liga que só organiza jogos está a gerir apenas metade do negócio. Há uma ideia profundamente enraizada no futebol: o produto é o jogo. Parece óbvio. Mas as ideias mais perigosas são, muitas vezes, as que parecem evidentes. Se assim fosse, os adeptos só pensariam em futebol durante 90 minutos por semana, as marcas só comunicariam durante os jogos e os patrocinadores só investiriam aos fins de semana.
O verdadeiro negócio do futebol vai muito além da organização de competições. Consiste em construir relevância. Uma liga que se limita a organizar jogos está, na realidade, a gerir apenas metade do seu negócio. A outra metade passa por criar razões para que o futebol permaneça presente no quotidiano das pessoas, mesmo quando não há jogos.
Na economia da atenção, vence quem transforma um evento ocasional num hábito. Quando o futebol faz parte da rotina dos adeptos, deixa de disputar apenas a audiência de um jogo e passa a ocupar um espaço permanente na sua vida.
Foi precisamente essa a lógica que orientou a estratégia da atual Direção Executiva para a Liga Portugal. O objetivo nunca foi produzir mais conteúdos, mas construir uma relação contínua entre a competição e os adeptos. Seja através da Fantasy Liga Portugal, da Liga TV ou de todos os outros canais de comunicação das Sociedades Desportivas, a visão é a mesma: prolongar a experiência para lá dos 90 minutos, oferecendo razões para regressar todos os dias, acompanhar diferentes equipas e jogadores, descobrir novas histórias e participar na conversa. Cada ponto de contacto reforça a ligação emocional e aumenta o valor da competição.
A mesma visão está presente no processo de centralização dos direitos audiovisuais. Seria um erro encará-lo apenas como a venda de um pacote de jogos. O verdadeiro desafio é construir um produto capaz de responder às diferentes formas de consumo do futebol. Há quem veja os 90 minutos, quem prefira apenas os melhores momentos, quem acompanhe estatísticas em tempo real ou descubra uma competição através de um pequeno vídeo nas redes sociais. Não existe um único produto. Existe um ecossistema de conteúdos.
Foi por isso que o modelo de comercialização foi concebido para permitir diferentes formas de exploração, adaptadas às várias audiências e aos diferentes momentos de consumo. O objetivo não é apenas maximizar a receita de cada jogo, mas aumentar o valor da competição ao longo de toda a semana e de toda a época.
Os jogos continuam a ser o coração do futebol. Mas o que determina verdadeiramente o seu valor é tudo o que acontece entre um apito final e o apito inicial seguinte.