Fredrik Aurses, médio do Benfica (foto Imago)
Fredrik Aurses, médio do Benfica (foto Imago)

O herói do Benfica fora da fotografia

'A bola é redonda' é o espaço semanal do jornalista Nélson Feiteirona

A vitória e qualificação históricas do Benfica na Liga dos Campeões frente ao Real Madrid tiveram muitos heróis. José Mourinho, Andreas Schjelderup e Anatoliy Trubin — sobretudo o guarda-redes ucraniano, que, com aquele golo de cabeça nos instantes finais, entrou para a eternidade benfiquista e para a estratosfera mediática que só esta competição proporciona. Mas, para mim, houve outro homem que se destacou e continua a impressionar pela serenidade e competência com que se move dentro e fora de campo: Fredrik Aursnes.

É daqueles jogadores que não precisam de gestos teatrais para se impor; a força dele está no detalhe, na inteligência e no rigor. Aursnes é o símbolo do que significa ser um profissional de futebol. Não apenas um jogador, mas alguém que entende o jogo como um todo. Ele está sempre lá. Nunca se esconde, nunca se desliga. Foi dos primeiros a puxar pelos companheiros depois do Real Madrid marcar o primeiro golo, num momento em que tudo parecia pender para os espanhóis. Controlou ritmos, ligou setores, impôs calma e confiança. E foi dele o cruzamento perfeito que encontrou Trubin no coração da área para o golo que mudou a história da eliminatória.

É daqueles jogadores que não precisam de gestos teatrais para se impor

Desde que chegou ao Benfica, o norueguês tem estado num nível altíssimo, sempre fiável, sempre influente. Os treinadores adoram-no porque é taticamente polivalente. Pode ser lateral, extremo ou médio, e em todas essas funções joga com a mesma competência. Mas vê-lo onde realmente pertence — naquele meio-campo que justificou a sua contratação ao Feyenoord, em 2022/23 — é um privilégio. Aí ele é maestro, o fio por vezes invisível que une a orquestra.

Não estejam à espera que seja ele a decidir jogos, mas quando a equipa joga bem, ele faz todos os outros jogarem ainda melhor.

Pierre van Hooijdonk, antigo internacional neerlandês e ex-ponta de lança do Benfica (curiosamente treinado na Luz por José Mourinho), disse-me quando o entrevistei para comentar a contratação do Benfica: «Não estejam à espera que seja ele a decidir jogos, mas quando a equipa joga bem, ele faz todos os outros jogarem ainda melhor.» Nem mais, é isso mesmo. Aursnes é o maestro silencioso. Pode não ter o brilho criativo de um artista, mas faz do seu pé direito uma extensão da cabeça. Cada passe dele tem intenção. Faz o jogo parecer fácil — e isso é o mais difícil de conseguir.

Fora de campo, mantém a mesma compostura. Vibra, mas sem exageros; responde com calma mesmo nas perguntas mais delicadas; encara desafios sem atalhos. Quando lhe perguntaram sobre as palavras do presidente do Benfica, que expressou o desejo de vê-lo terminar a carreira na Luz, respondeu com uma simplicidade desarmante: «Pode ser, parece-me uma boa solução.» Essa frase diz tudo sobre ele — equilíbrio, lealdade.

Não é por acaso que já integra a hierarquia dos capitães.

Não é por acaso que já integra a hierarquia dos capitães. Num plantel com nomes grandes e talentos em ascensão, Aursnes é o elo que liga o plano, lúcido e competitivo. Numa noite em que muitos brilharam, ele voltou a ser o mesmo de sempre: o jogador que melhora todos à sua volta, o cérebro silencioso de uma equipa que escreveu mais uma página inesquecível da sua história europeia.