O duro desabafo de um campeão do mundo que se reformou: «Neste momento, não gosto de nada na minha vida»
Steve Mandanda, lenda do Marselha (esteve lá 14 temporadas e fez 613 jogos pelos marselheses) e da seleção francesa, revelou as dificuldades sentidas após o fim da sua carreira num novo livro sobre a sua carreira, intitulado Les Jours D'Aprés, 'Os dias que se seguiram'. O ex-internacional, que pendurou as luvas aos 40 anos, descreve um período de profundo vazio e perda de sentido, confessando ter encontrado apenas recentemente alguma paz interior.
Recorde-se que Mandanda anunciou o fim da sua carreira no ano passado, no jornal L'Équipe, após uma última passagem pelo Rennes. Com um percurso notável, que incluiu 35 internacionalizações pela França, sagrando-se campeão do Mundo na Rússia, em 2018, a transição para a vida pós-futebol revelou-se um desafio existencial.
No seu livro, que será publicado a 13 de maio, o antigo jogador partilha a sua luta contra o que descreve como a «pequena morte» do atleta.
«Há algumas semanas que quase nada tem sabor. É julho, estou sozinho, está calor, a janela entreaberta, Rennes em pleno verão. Oscilo como um pêndulo. Os meus dias são intermináveis e vazios. Vazios de energia. Vazios de sentido. É mesmo isto a pequena morte?», questiona-se Mandanda, que admite ter perdido o rumo. «Estou desempregado, deitado no meu sofá sem sequer saber o que espero, sem saber o que quero. Vontade de nada.»
A perda da rotina e da identidade de jogador foi um dos golpes mais duros. O antigo capitão sentiu a falta de tudo o que definia o seu dia a dia: o balneário, os treinos, as palestras e a camaradagem do futebol.
«Qual é o meu campo, agora? O sofá? (...) Já não tenho os meus dois postes nem o jogo à minha frente. Já não tenho o balneário, a braçadeira, os olhares, as palavras, as piadas, os colegas», lamenta, acrescentando: «Acho que estou infeliz. Pelo menos, perdido. Sinto-me inútil. Engordei três ou quatro quilos, sem nada para fazer perco-me a comer, a beber refrigerantes e cocktails. É um círculo vicioso e cada vez saio menos de casa porque não quero que as pessoas me vejam assim. Neste momento, não gosto de nada na minha vida.»
A conversa com Guillaume Hoarau, outro ex-jogador que passou por uma experiência semelhante, trouxe algum alívio. Hoarau partilhou que outros atletas de renome, cujos nomes Mandanda prefere não revelar, também enfrentaram um vazio profundo após o fim das suas carreiras.
«Ele falou-me de outros jogadores que tinham terminado a carreira e que, também eles, estavam a lidar muito mal com essa situação. Senti-me menos sozinho, foi quase reconfortante», revela. Seguindo o conselho de Hoarau, Mandanda começou a impor a si mesmo uma nova rotina para combater a inércia. «Obrigo-me a levantar de manhã, imponho um ritmo, uma agenda, por mais leve que ainda seja.»
O processo, no entanto, tem sido marcado por altos e baixos, incluindo um aumento de peso que o levou a isolar-se. «Passei de 25 anos de um quotidiano cronometrado para... nada. A sensação de vazio é abismal em certos dias», confessa. Apesar de algumas recaídas, o antigo guarda-redes sente que está a recuperar gradualmente o controlo, embora a saudade da «vida de grupo» permaneça. «Ainda é frágil. Esta "pequena morte" é uma viragem existencial», conclui.
Um ano após o fim da carreira, um futebolista reflete sobre o difícil processo de adaptação à vida fora dos relvados, uma transição marcada por um sentimento de vazio e pela redescoberta de um propósito.
«Um ano mais tarde, ainda assim, posso dizer que estou melhor. Penso sinceramente que digeri. Segui em frente, sim. Já não sinto sentimentos negativos, já não tenho aqueles pensamentos estranhos que me passavam pela cabeça», confessou.
O atleta revelou ter encontrado consolo numa conversa com Patrice Evra, que partilhou ter vivido uma experiência semelhante ao terminar a carreira. A descrição de Evra sobre o vazio, o sentimento de inutilidade e a necessidade de se manter ocupado a todo o custo espelhou a sua própria realidade.
«O Pat (Patrice Evra) contou-me que passou pelos mesmos momentos que eu quando terminou a carreira, sentiu as mesmas coisas, uma espécie de decalque da minha própria vida. Primeiro, este vazio, este sentimento de inutilidade, esta coisa que se repete em que pensamos que não estamos a fazer nada de interessante. Esta vontade, a dada altura, de querer fazer tudo ao mesmo tempo, de estar em todo o lado para nos ocuparmos, e talvez para ainda existirmos um pouco, sem que isso leve a lado nenhum, no fim de contas, uma espécie de ilusão, com o risco de nos perdermos.»
Apesar de reconhecer que poderia ter antecipado os desafios da vida pós-futebol, o antigo guardião acredita que nenhuma preparação o teria poupado ao choque da realidade, porque nada se compara à intensidade do campo, do balneário e da adrenalina de um jogo.