Arsénio marca mais um golo para o Benfica, neste lance. A imagem que fez a primeira página de A BOLA . FOTO - arquivo de A BOLA (retocada por IA)
Arsénio marca mais um golo para o Benfica, neste lance. A imagem que fez a primeira página de A BOLA . FOTO - arquivo de A BOLA (retocada por IA)

O dia em que os viseenses confortaram o Melão

Primeiro jogo entre Benfica e Académico foi para a Taça de Portugal, no estádio do Campo Grande. Hoje, 77 anos depois, há novo reencontro, agora na Luz.

O Académico de Viseu regressa neste domingo à I Liga. O formalismo leva-nos a que digamos que este Académico tem nome e refundação diferente daquele que em 1949 defrontou o Benfica. Antigamente, Clube Académico de Futebol hoje como sempre foi conhecido: Académico de Viseu. Os formalismos são o que são, o sentimento é o que é. E se formalmente estes Académico de Viseu é diferente do CAF de antigamente, digam lá a um adepto do Académico que o sentimento é diferente. Falamos do mesmo clube, das mesmas gentes. Da mesma história. Ponto.

E é por isso que recuamos a 1949, o dia em que o Académico, então CAF, visitou o Benfica pela primeira vez. O jogo era para a Taça de Portugal, o estádio era no Campo Grande, depois de o Académico ter tombado um gigante da altura: o Elvas, do incrível Domingos Carrilho Demétrio, o homem que ficou conhecido por Patalino e cujo busto embeleza a zona desportiva daquela cidade alentejana.

Lia-se n’ A BOLA, sobre o duelo entre águias e viriatos: «Também, o Académico de Viseu pagou cara a façanha de «tombar» um dos maiores, — o Elvas. Ontem, no Campo Grande, soube o valor da velha metáfora «chuva de golos». Treze golos resumem a história de um desafio entre um grande, em sua casa, e uma equipa ainda modesta, a duzentos quilómetros da sua artística terra, a terra de Grão Vasco.»

A primeira página de A BOLA de 25 de abril de 1949

Convenhamos que o cronista foi modesto. Desde logo na distância, porque da capital até Viseu ainda hoje são mais de 300 quilómetros. Maior distância havia entre as duas equipas, porém.

O Académico andava pela segunda divisão, na altura. O Benfica tinha saído de um campeonato que perdeu para o Sporting apesar de ter feito os mesmos 41 pontos do campeão, orientado por Cândido de Oliveira, fundador deste jornal que lê a 29 de janeiro 1945 e que viria a sagrar-se bicampeão no final dessa época.

Mas voltemos ao Campo Grande, onde Póvoas marcou o único golo do Académico. Tamanha era a diferença que o Benfica goleou por 13-1. Quando se fala de goleadas à antiga é deste género de números de que se fala. Rogério Pipi teve uma daquelas tardes que o imortalizou no clube: fez cinco golos, numa partida em que os viseenses acabaram reduzidos a dez. Porquê? Porque o treinador-jogador do Académico foi expulso por reclamar da arbitragem. O motivo? O 10-º golo das águias…

«Depois do descanso, a partida baixou enormemente de interesse e de valia. De interesse - porque o vencedor estava à vista; e de valia - porque aos académicos faltaram pernas para os 90 minutos completos, sobrecarregados ainda com a falta de Tellechea, expulso do terreno, segundo supomos, por ter dito qualquer coisa desagradável ao árbitro quando alegava que o décimo golo do Benfica havia sido resultante dum «off-side» de Arsénio.»

O que se passou a seguir foi a busca incessante dos benfiquistas por um jogador em particular e os viriatos, num ato de desportivismo para com ele. Deixemos o arquivo de A BOLA trazer-nos a História.

«O Benfica no último quarto de hora, desejando que Melão fizesse o gosto ao pé, lembrou-nos certos jogadores de xadrez que, certos do triunfo, querem dar o mate... de peão! Melão, afinal, não correspondeu...

E por este motivo, e apesar duma ou outra tentativa de reacção dos habilidosos Zeca, Ferreira e Póvoas, o que é certo é que o encontro veio a terminar sem beleza, com um grupo a atacar e o adversário, sempre animoso e correcto, a defender-se com unhas e dentes. » (…)

«Não vale a pena fazer a história dos treze golos benfiquistas. Seria longa - porque os números foram mais além do que se esperava...» (...)

«Porém, no que os visienses conquistaram o público e a crítica, foi na compostura, no espírito de luta, no desportivismo afinal, com que souberam encarar e suportar a ascendência do Benfica, nunca desanimando, e nunca se entregando... antes pelo contrário.

Dignas de registo especialíssimo (infelizmente, por pouco vulgares agora nos nossos campos), as felicitações que os académicos se apressaram a dar aos lisboetas mal soou o apito final do árbitro, com umas pancadinhas nas costas de Melão a quererem incutir-lhe paciência por não ter metido um único golo!

Na verdade - todos os avançados lisboetas estiveram com a pontaria afinada, excepto Melão.»

O Benfica demoliu o Académico de Viseu no marcador nesses oitavos de final, passou por cima do Marítimo nos ‘quartos’ (9-3), eliminou o Vitória em Setúbal por 0-5 e bateu o Atlético por 2-1 na final. Conquistou a quarta Taça de Portugal da sua História e só voltaria a encontrar o Académico de Viseu 30 anos depois, no campeonato da I Divisão de 1978/79.

FICHA DE JOGO

ESTÁDIO: Campo Grande

ÁRBITRO: Martins Soares (Porto);

BENFICA - Contreiras; Jacinto e Fernandes; Moreira, Félix e Francisco Ferreira (capitão); Corona, Arsénio, Espírito Santo, Melão e Rogério.

AC. VISEU - Prazeres Gomes; Cruz e Queirós; Moita, José Miguel e Helder; Abreu, Póvoas, Zeca Amaral, Tellechea (cap.) e António Ferreira. 

GOLOS: 1-0, por Arsénio (8'); 2-0 por Rogério Pipi (15'); 3-0 por Rogério Pipi (20'); 4-0 por Espírito Santo (24'); 5-0 por Corona (30'), 5-1 por Póvoas (35'); 6-1 por Rogério Pipi (45'); 7-1 por Arsénio (45+1'); 8-1 por Francisco Ferreira (51'); 9-1 por Espírito Santo, 10-1 por Arsénio (57'), 11-1 por Rogério Pipi (61'), 12-1 por Rogério Pipi g.p. (70'), 13-1 por Corona (75')

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