Nile John teve unhas para tocar guitarra à moda do Minho (crónica)
O céu estava aberto, mas os primeiros 45 minutos foram fechados. Havia estratégia de parte a parte, vontade nunca faltou aos artistas, mas a definição no último terço deixou muito (mas mesmo muito) a desejar. Se preferirmos, a organização defensiva sobrepôs-se à ofensiva. Algo que, na visão do adepto, não é, de todo, bem recebido. Porque o espetáculo perde com isso.
Esta análise da etapa inicial fica devidamente consubstanciada pela ausência de ocasiões claras de golo até ao intervalo. Leandro Antonetti (12' e 27') ligou as sirenes dos tricolores, mas o som não atingiu os desejados níveis de qualidade. O mesmo aconteceu do lado dos cónegos, com Manuel Mendonça (20') e Tiago Andrade (29') a querem passar música na matiné minhota.
O cheiro do balneário foi bom conselheiro para os artistas e após o descanso houve um acústico mais refinado. Longe de ópera, ainda assim. Mais audível, apenas.
Com dois treinadores adeptos da junção da solidez à retaguarda e da valorização da posse para que o critério de construção seja sempre acima da média, nada melhor do que um golo para abrir as hostilidades. Lograram-no os cónegos. Em transição, curiosamente. Tiago Andrade (que bela temporada está a fazer o menino nascido e criado no FC Porto...) fugiu pela esquerda, progrediu metros sempre com a bola controlada, até que, astuto, vislumbrou dois companheiros de equipa no interior da grande aérea contrária e foi Landerson o felizardo: o brasileiro aceitou a oferta e assinou a primeira explosão de alegria no Comendador Joaquim de Almeida Freitas.
Os tricolores reagiram, como se impunha, e beneficiaram de alguma falta de eficácia defensiva dos visitados para chegarem ao empate: Kevin Jansson atirou ao poste e, perante tamanha passividade, Lovro Zvonarek desviou com sucesso. Tal como acontecera com o extremo brasileiro do Moreirense, também o médio croata do Estrela da Amadora logrou a estreia a marcar no futebol português.
Pelo andar da carruagem, tudo poderia acontecer até final. Mas, a julgar pelos testes de som, era o vira-minhoto que poderia ecoar. Bingo! Já na compensação, Nile John tirou um autêntico coelho da cartola e encheu-se fé (e colocação) para fazer o 2-1, de fora da área.
Vasco Botelho da Costa meteu a segunda e vai lançado, Pepa lamenta a quarta derrota consecutiva.
Quem decide um jogo no último suspiro vê aumentar substancialmente as probabilidades de ser escolhido como a figura do desafio. Mesmo que não tenha sido o melhor em campo. Mas Nile John logrou o melhor dos dois mundos. Foi decisivo e selou os três pontos, sim, mas também realizou exibição de encher o olho, pautando as ações dos cónegos no miolo. E ajudou à retaguarda. Quantos pulmões tem?
Com a bola no pé é, percebe-se, um jogador acima da média. Tem muita qualidade de passe, sendo que, pelo facto de jogar sempre de cabeça levantada confere-lhe a vantagem de ver coisas mais à frente e, juntando tudo, colocar a equipa em situações de criação de perigo no último terço. O duelo em Moreira de Cónegos ficou também marcado pela estreia a faturar pelos tricolores, com desvio oportuno.
As notas dos jogadores do Moreirense:
André Ferreira (5), Dinis Pinto (6), Gilberto Batista (5), Kevyn (6), Francisco Domingues (5), Nile John (7), Guilherme Liberato (7), Manuel Mendonça (6), Landerson (6), Leonardo Vonic (5), Tiago Andrade (6), Álvaro Martínez (5), Yan Maranhão (5), Chipyoka Songa (5) e Rodrigo Alonso (5).
As notas dos jogadores do Estrela da Amadora:
Leo Linck (5), Max Scholze (5), Luan Patrick (5), Stefan Lekovic (5), Lucas Mincarelli (5), Kevin Jansson (6), Santiago Serra (6), Abraham Marcus (5), Lovro Zvonarek (7), Ianis Stoica (5), Leandro Antonetti (5), Jefferson Encada (5), Tom Moustier (5) e Rafa Soares (—).