Neemias Queta: mais do que um pioneiro, um espelho para o desporto português
Num país habituado a histórias rápidas de sucesso, muitas vezes inflacionadas pela expectativa e empobrecidas pela paciência, Neemias construiu o seu caminho no sentido oposto ao ruído. Sem fazer corta-mato. Sem protagonismos excessivos. Com trabalho silencioso, leitura do contexto e uma rara capacidade de compreender o tempo das coisas. No alto rendimento, essa maturidade é tão determinante quanto a competência técnica, a condição física ou a força/resistência mental.
A narrativa fácil seria a do sonho americano: o rapaz do Vale da Amoreira que chega à NBA e se sagra campeão pelos Boston Celtics. Mas essa leitura é curta. Muito curta. Entre o sonho e o título houve G League, contratos two-way, minutos escassos, dispensas, espera, adaptação e, acima de tudo, humildade competitiva. Neemias percebeu cedo uma das verdades mais duras do desporto de elite: nem todos chegam para ser estrelas; muitos chegam para ser solução. E é precisamente aí que se torna verdadeiramente especial.
Queta nunca foi o jogador dos highlights fáceis. Foi, e continua a ser, o jogador de impacto invisível. Bloqueia, ressalta, protege o aro, cumpre o papel. Aprende. Evolui. Ganha a confiança dos treinadores. E isso explica por que razão, num dos franchises mais exigentes da NBA, passou de aposta de profundidade a campeão… e, depois, a titular.
Porque em 2025/26, Neemias deixou definitivamente de ser o português na NBA. Tornou-se, simplesmente, um jogador NBA. Ponto final.
A titularidade assumida nos Boston Celtics, uma das organizações mais exigentes e competitivas da liga, é o reflexo de um processo longo, silencioso e altamente profissional. Mas é nos dados em jogo que essa afirmação ganha corpo, transformando-se em performance regular.
Na presente época, já não falamos de um jogador em fase experimental ou de rotação ocasional. Falamos de um atleta plenamente integrado no modelo dos Celtics, com responsabilidades defensivas claras e contributo direto para os resultados da equipa. Em minutos ainda geridos, mas consistentes, Neemias apresenta números que dizem muito mais do que aparentam:
· Performances de 19 pontos e 18 ressaltos, com oito ofensivos, em jogos de elevada exigência física;
· Vários duplos-duplos sempre que o tempo em campo aumenta;
· Eficiência superior a 60% no lançamento, reflexo de critério e inteligência ofensiva;
· Impacto defensivo regular, expresso em blocos, desarmes, contenção no pick-and-roll e proteção do aro, muitas vezes invisíveis na estatística tradicional.
É precisamente neste contexto que surge um feito que transcende a estatística comum e entra diretamente na história da NBA. Neemias Queta tornou-se o primeiro jogador de sempre na liga a registar 20 ressaltos, 10 ofensivos e 10 defensivos, num único jogo em menos de 25 minutos. Um dado raríssimo, que ganha verdadeira dimensão quando comparado com a elite dos postes históricos da competição. Jogadores como Shaquille O’Neal, Dwight Howard, Tim Duncan, Hakeem Olajuwon ou Rudy Gobert precisaram de mais tempo em campo para atingir patamares semelhantes. Mesmo em contextos dominantes, raramente o impacto no ressalto se distribuiu de forma tão equilibrada entre ataque e defesa num espaço temporal tão curto.
Este registo não fala apenas de força física ou estatura. Fala de posicionamento, inteligência, leitura de trajetórias, sentido de oportunidade, resistência mental e compromisso com cada posse de bola. Não é um recorde de espetáculo, é antes um recorde de eficiência competitiva. Impacto máximo no menor tempo possível. A essência do jogador que Neemias se tornou.
Estes números não são artificiais. Não resultam de volume nem de liberdade excessiva. Resultam da confiança do treinador, do respeito do balneário e da clareza do papel. Neemias não joga para mostrar. Joga para acrescentar valor.
Numa equipa candidata ao título, onde a margem de erro é mínima, Queta construiu o seu espaço através daquilo que nunca sai de moda: defesa, compromisso, atitude, inteligência emocional e ética de trabalho. E quando um jogador com este perfil começa a somar minutos, estatuto e confiança interna, o sinal é inequívoco: não está lá por exceção; está lá por competência.
Em Boston, essa valorização tem sido pública e consistente. Joe Mazzulla, treinador principal dos Celtics, tem sublinhado repetidamente a disciplina defensiva, a leitura de jogo e a fiabilidade tática de Neemias. Num franchise de exigência onde nada é concedido por simpatia, esses sinais dizem muito.
Dentro do balneário, o reconhecimento é igualmente claro. Colegas com estatuto consolidado identificam nele aquilo que a NBA mais valoriza nos jogadores que crescem de rotação para titulares: consistência diária, impacto sem ego e total disponibilidade para o coletivo. Neemias não precisa da bola para ser útil e isso torna-o particularmente valioso na NBA.
Também os analistas da liga o descrevem como um center funcional moderno: protege o aro, executa bloqueios eficazes, finaliza com eficiência e aceita plenamente o papel coletivo. Num contexto obcecado com a rápida tomada de decisão, Neemias encontrou a sua identidade sem tentar ser aquilo que não é.
E esse reconhecimento externo é tão relevante quanto as estatísticas. É aqui que o seu impacto extravasa a NBA e toca diretamente o basquetebol português. Neemias Queta é hoje mais do que um caso de sucesso individual: é um modelo de desenvolvimento. Mostra aos jovens que o caminho não passa pelos atalhos da exposição precoce, mas pela atitude certa e pela construção paciente dos fundamentos. Mostra aos treinadores que o detalhe defensivo e o compromisso coletivo continuam a ser algo que se deve valorizar. Mostra aos dirigentes que o talento só floresce quando acompanhado por estrutura, exigência e tempo.
Na seleção nacional, o reflexo é evidente. Portugal passou a acreditar, liderar momentos e reclamar respeito. Não apenas porque tem um jogador da NBA, mas porque esse jogador lidera com rendimento e exemplo, não com estatuto.
O mais relevante no percurso de Neemias Queta não é o facto de ter sido campeão da NBA. É tê-lo sido sem nunca trair o processo que o levou até lá.
O Neemias não é apenas um pioneiro. É um espelho. E, hoje, é também uma referência e um exemplo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».