Na melhor nódoa cai o pano

Ainda esta semana, a montanha pariu um rato, com um arquivamento no que à Benfica SAD diz respeito...

DEPOIS do passeio das selecções, volta o campeonato, com as derradeiras 9 jornadas sem interrupções. O Benfica tem um jogo decisivo em Vila do Conde. Por várias razões. Primeiro, porque tem de contrariar o passado recente de desaires depois de jogos de selecção, durante os quais o treinador tem à sua disposição apenas alguns atletas. Segundo, porque o Rio Ave é uma equipa valorosa. Terceiro, porque ultrapassado este obstáculo, estarão só mais 24 pontos em disputa, pelo que a manutenção do actual distanciamento para o segundo classificado será cada vez mais decisiva.

No campeonato há ainda muito por decidir, além do título. A luta para evitar a descida de divisão está praticamente reduzida a Paços de Ferreira, Marítimo e Santa Clara, havendo a (triste) possibilidade de o campeonato perder os dois únicos representantes das Regiões Autónomas, sendo que o Marítimo milita, sem interrupção, no escalão principal, desde 1985. O acesso directo à Champions só está garantido para o Benfica, com uma disputa entre FCP, SCP e Sp. Braga para o 2.º e 3.º lugares, que promete ser bem acesa, e, já agora, com a particularidade de todos terem ainda de jogar contra o Benfica.

Como já referi em A BOLA, numa pergunta que me foi feita há dias, sou muito prudente quanto ao desfecho final da Liga. O Benfica tem, indubitavelmente, sido a melhor equipa e tem todas as condições para conquistar o seu 38.º campeonato. A distância para o FCP é o dobro da distância deste para o Sporting. Mas o futebol por cá tem razões que a razão desconhece. Todo o cuidado é pouco. Seja no campo, no sofá vareiro, ou fora dele. Os especializados em criar instabilidade vão estar activos. Manchetes de jornais, aberturas de noticiários televisivos, comentários enviesados a sentenciar sobre casos e a prever descidas de divisão e outras consequências do mesmo jaez, surgem em dias tacticamente convenientes. Enfim, é o preço de o Benfica ir à frente. Ainda esta semana, a montanha pariu um rato, com um arquivamento no que à Benfica SAD diz respeito. E o que constatámos? Depois de tanta notícia-choque repetidas ad nauseam, nem uma nota de rodapé ou uma simples peça televisiva deste arquivamento vemos ou ouvimos nos tais órgãos sempre sôfregos a anunciar desgraças na Luz! É caso para se dizer, invertendo os termos da conhecida expressão popular, que na melhor nódoa, cai o pano!
 

Ronaldo bisou com o Luxemburgo

FOLHA SECA
A degola dos inocentes...

Começou o apuramento para o Europeu 2024. Tal como no Mundial, vai inchando o número de apurados para a fase final. A UEFA e a FIFA passam o tempo a imaginar mais jogos e mais competições nos 365 dias do ano. A abundância sem limites de jogos e joguinhos tem até o mesmo efeito da inflação em relação à moeda: de tanto excesso, desvaloriza-se o valor. Também alguém disse um dia que «a inflação acontece quando a mão fica maior que o bolso». No contexto futebolístico internacional, até podemos imaginar o que são a mão e o bolso dos destinatários…


As nações europeias que competem na fase de apuramento são 53, desde a poderosa Alemanha ao rochedo de Gibraltar! É um fartar de jogos que, nesta fase, se concretiza numa matança inevitável das selecções fracas. Só para dar uma ideia deste desequilíbrio, basta dizer que nestes dias as equipas de Gibraltar, Malta, Chipre, Azerbaijão, São Marino, Andorra, Luxemburgo, Liechtenstein e Ilhas Faroé, sofreram 46 golos e marcaram 3! Neste contexto, acho ridículas as afirmações de responsáveis e de jogadores antes dos jogos com estas selecções, do estilo «é um jogo difícil», «vai ser complicado ganhar» e outras do género.  Seria preferível que estas e outras selecções amadoras ou vagamente profissionais concorressem apenas entre elas, assegurando alguma presença na fase final do Europeu. Deste modo, não serviriam apenas para levar pancada das selecções grandes e médias em jogos-treino destas, mas teriam o prémio de pelo menos uma ou duas chegarem à fase final. No fundo, um modelo como o que existe na Champions, em que há um apuramento de um ou dois campeões de ligas menores.


JOGOS FLORAIS

"Nunca li um livro sobre futebol"
Roger Schmidt
Treinador do Benfica

Tudo se resume à competênciae à liderança. Num mundo futebolístico cheio de publicações, dissertações, análises, estratégias e filosofias interpretativas, quiçá metafísicas, apreciei esta frase há dias dita pelo treinador-engenheiro. Certamente, ele não quis desvalorizar tudo isto, mas sobretudo privilegiar a sabedoria da experiência, a pedagogia do erro, a autenticidade da relação humana, a sageza da compreensão de cada contexto. Afinal, tudo se resume à competência e liderança de um grupo de jovens jogando à bola. Para quê complicar?


FAVAS CONTADAS

89 + 300 = 0. Foi ao minuto 89 que João Mário entrou no jogo com o Liechtenstein. A tempo de ser assobiado em Alvalade. Perto do Dragão, o presidente do FCP disse que «o inimigo está a 300 quilómetros». Tudo uma tristeza! Um zero!


FOTOSSÍNTESE

Falar português. Não escrevo sobre os ‘feitos’ da Selecção contra os dois L (Liechtenstein e Luxemburgo). Não me refiro à ‘lufada de ar fresco’ com sabor a cretina ingratidão de Cristiano Ronaldo, nem, por oposição, à concludente frase de João Félix de que «a malta está a gostar deste novo sistema» de Roberto Martínez. Quero, apenas, felicitar o novo seleccionador pelo esforço em falar num português já bastante razoável, o que evidencia uma preocupação (até deontológica) no lugar que agora ocupa. Preocupação que raramente vejo em jogadores espanhóis e sul-americanos que, mesmo por cá há anos, continuam a falar espanhol.