«Hoje em dia, os miúdos só estão habituados ao 'gosto'. Nas redes não há o 'não gosto'»
— Como se faz a gestão entre os bons resultados que o Estrasburgo tem obtido e a relação com o Chelsea, o 'porta-aviões' do grupo?
— Acima de tudo, é importante dizer que a BlueCo tem o propósito de munir os seus clubes dos melhores profissionais possíveis. Isso nota-se a cada dia. Há sempre a tentativa de melhorar todos os departamentos envolvidos. A ligação é grande em termos formativos. Também importa dizer que na cidade, apesar de ser uma minoria, há algum desconforto com esta multipropriedade, mas o que senti desde que cheguei é que a identidade do clube nunca foi posta em causa. No clube, trabalho com pessoas que são de Estrasburgo, que treinaram e jogaram aqui, como o Jean-Marc [Kuentz], meu colega na equipa técnica. Ele diz que é difícil perceber o Estrasburgo neste momento sem esta ownership, porque seria difícil levar o clube ao patamar em que está sem esta ajuda financeira e esta competência que faz subir o nível de conhecimento. A identidade do clube pertence à cidade e aos adeptos. O estádio enche a cada 15 dias, até de forma mais frequente por causa da Taça [de França] e pela presença na Conference League. Sinto que faço parte de um grupo que quer continuar a crescer. O projeto do Estrasburgo assenta no plantel mais jovem da elite europeia, mas isso não faz de nós menos competentes. Faz-nos saber que peça do puzzle estamos a preencher. Tendo um plantel jovem, sinto que conseguimos passar valores de coragem e de trabalho, de não olhar para uma posição confortável. O dia a dia é desafiante para os jogadores. Dizemos as verdades e desafiamo-los para fazê-los crescer. Nem todos vão fazer o caminho entre Estrasburgo e Chelsea, apesar de ser viável e de alguns já estarem a fazê-lo, mas o objetivo é munir o Estrasburgo de capacidade para competir e, sendo o futebol um negócio, projetar talentos para outros clubes europeus.
— E como é que quem está no terreno no dia a dia, como o Filipe, sente esse apoio dos proprietários? Há clubes em regime de multipropriedade que parecem ser deixados um pouco ao Deus dará…
— Aqui não é assim. Há um acompanhamento próximo. O presidente Marc Keller é da cidade e foi sempre um fator fundamental em todas as negociações. A ownership queria ter pessoas que se identificassem com o clube e conseguissem levá-lo para a frente. São pessoas presentes. Sente-se no ambiente e estão aqui fisicamente. Estamos a ser muito bem cuidados, não posso associar isto à compra de um clube onde agora estamos ao Deus dará. Há um acompanhamento próximo e o Estrasburgo desempenha um papel muito importante no bolo geral da BlueCo.
— Disse, e bem, que o Estrasburgo tem um dos plantéis mais jovens das ligas do 'Big Five'. Como se gere um balneário com tanto potencial, mas que, pela natureza da idade, está mais exposto à irregularidade?
— Há muitos desafios, é verdade. Um plantel tão jovem tem sede enorme de jogar e nunca é confortável para nenhum deles ficar no banco. Isso faz com que nos deparemos com desafios de comunicação para alinhar as mentalidades de atletas que esperam jogar todas as semanas. O facto de estarmos em três competições permite maior gestão e dar oportunidades a todos. O maior desafio é ver algumas caras menos alegres de vez em quando e arranjar estratégias para os motivar. Estar fora do onze gera um desconforto que ajuda muito no crescimento. Eu encontrava desafios semelhantes no Chelsea, porque a mentalidade é parecida. Outro desafio é sentir que o erro deve acontecer no jogo. Já perdemos pontos na Ligue 1 à custa de erros infantis, próprios desta idade, mas esse pagar caro é como um investimento. O impacto no resultado é grande, mas a aprendizagem é mais rápida. O jogo acaba por ser a expressão máxima do que conseguimos ensinar. Retirar dele esses ensinamentos é uma ferramenta brutal para alavancar a aprendizagem destes jovens.
— Diego Moreira, Valentín Barco, Emegha, Martial Godo… Há algum jogador que o tenha surpreendido pela maturidade apresentada em relação à idade que tem?
— Falou em nomes fantásticos, miúdos com um talento enorme, que devem ser provocados diariamente para saírem da zona de conforto. É assim que crescem, com honestidade e verdade. São jogadores muito recetivos. Faltou tocar no Panichelli, que está a fazer uma época fantástica e é um exemplo de valor humano, de como se deve trabalhar no limite e de resiliência. É fundamental, não só pelos golos, mas pela forma como a equipa defende. Mas há outros: o guarda-redes Mike Penders, que tem tido um crescimento fantástico, o Mamadou Sarr, o Abdoul [Ouattara] e o Samir [El Mourabet], exemplos do que a academia do Estrasburgo consegue fazer. Não é só o eixo Chelsea-Estrasburgo e negócio... É continuar a identidade do clube e alimentar a equipa principal através da academia. A força da equipa é todo este talento funcionar com uma mentalidade coletiva. Só assim as individualidades se destacam. Esse é o desafio nestas idades, mas estamos a conseguir fazer florescer essa base coletiva.
— Quando fala em «provocação e honestidade», significa que vai mais pelo raspanete ou prefere a via pedagógica?
— A abordagem depende muito do conhecimento que temos dos atletas. Todos são diferentes e reagem a estímulos de forma distinta. Hoje em dia, o raspanete em frente ao grupo pode ter um custo diferente do que teria há 10 anos... Quando olho para a atualidade e para as redes sociais, vejo que os miúdos estão habituados apenas ao 'gosto'. Não há o 'não gosto'. Quando os expomos a esse 'não gosto', há desconforto, mas que faz crescer. Vê-se na hora ou no treino seguinte a revolta de um jogador por ter sido exposto a um erro e o querer mudar. É essa a mentalidade que queremos implementar. Se um jogador é exposto e amua ou não reage bem, talvez a sua capacidade mental para aguentar a exigência da elite não seja a necessária. É perceber se a abordagem deve ser em grupo, individual ou por setores. A relação próxima ajuda a que essa honestidade venha ao de cima e acelera a aprendizagem. Se houver resistência, o jogador fica preso e tem dificuldade em crescer.