Chamaram-no bufo, resistiu e já ganha em Roland Garros mas confessa: «Tive muito medo»
Marco Trungelliti voltou a agitar as estruturas do ténis mundial a partir de Roland Garros. Conhecido tanto pela sua resiliência em court como pela sua coragem fora dele, o experiente tenista argentino utilizou a sua passagem pelo Grand Slam francês para desabafar, de coração aberto, sobre o fardo psicológico que carrega há uma década.
O caso a que Trungelliti se refere — e que mudou a sua vida para sempre — remonta a 2015, quando o jogador reportou às autoridades do ténis uma tentativa de suborno para viciar resultados. Em vez de ser protegido por expor a corrupção e os esquemas de apostas que minam o desporto, o argentino acabou isolado, apontado a dedo por colegas de profissão e abandonado pelas próprias instituições. Um trauma que, como o próprio admite, deixou marcas profundas e uma ferida que tarda em fechar.
Com a frontalidade que o carateriza, Trungelliti recordou o início do pesadelo e não poupou críticas às entidades que gerem o ténis mundial, lamentando a total ausência de uma rede de apoio na altura em que mais precisou.
«Magoou-me muito naquele momento. Também fui ingénuo porque esperava que o sistema me ajudasse um pouco e foi exatamente o contrário. Todo o conjunto de instituições nunca esteve lá. Seguimos à procura de respostas, seguimos à procura de que o sistema dê mais apoio aos jogadores», explicou.
O preço da integridade refletiu-se também no seu dia a dia no circuito profissional. Se outrora o balneário poderia ser um lugar de convívio, hoje o argentino encara as relações no circuito com um pragmatismo defensivo, anestesiado pelo julgamento alheio.
«Estou seguro de que não caio nas boas graças de muita gente, mas, em comparação com o que pensava há 10 anos, agora não me importa. Tenho uma boa relação com as pessoas que me dizem 'olá, como estás', e isso é tudo. Porque, no final, a relação no ténis é mais isso do que qualquer outra coisa. Não vais tornar-te amigo de alguém que talvez tenhas de enfrentar no dia seguinte», defendeu.
As repercussões do caso de apostas transmutaram-se em ameaças reais e num ambiente hostil no seu país natal. Diante disso, o tenista viu-se obrigado a reconstruir a sua vida bem longe da América do Sul, adotando a Europa como o seu porto seguro.
«Não escolho voltar. Ao contrário do que pensava, não vou voltar a viver lá. Andorra, que é onde tenho estado a viver nos últimos 10 anos, é maravilhosa. Sentimo-nos muito seguros aí. A qualidade de vida é espetacular. A Argentina, neste momento, está a passar por um momento difícil», constatou.
O fantasma das represálias e o estigma de ter sido rotulado como «bufo» por setores do ténis argentino criaram barreiras psicológicas difíceis de derrubar. O medo foi, durante muito tempo, o seu principal adversário.
¡Cuarta vez en su carrera en 2R!
— ATP Tour en Español (@ATPTour_ES) May 24, 2026
🇦🇷 Marco Trungelliti bate a Jacquet por 6-4, 6-2, 6-2 y gana un partido en París por primera vez desde 2018.@rolandgarros | #RolandGarros pic.twitter.com/GPqcYUw6b1
«Há 10 anos tinha medo de voltar, e durante um tempo não pude fazê-lo porque tinha muito medo. Não quero dizer 'Não, nunca voltarei', porque todos são humanos ali, e há muita gente boa na Argentina. Mas, no final, as pessoas 'erradas' foram as que fizeram mais barulho do que as boas», lamentou.
O regresso aos courts argentinos para competir acabou por reabrir feridas que Trungelliti julgava estarem cicatrizadas. A carga emocional de pisar o solo onde o seu calvário começou revelou-se avassaladora, deixando marcas na sua carreira desportiva.
«Joguei há algum tempo em Buenos Aires, mas quando voltei foi difícil, porque também foi o último torneio que joguei antes de tudo se tornar público, e não consegui gerir os sentimentos, foi demais para mim naquela altura. Pensei que estava preparado, mas não estava, por isso talvez no próximo ano, ou talvez nunca esteja preparado para voltar e jogar», revelou.
LA CONFESIÓN A CORAZÓN ABIERTO DE TRUNGELLITI 🇦🇷🗣️💔
— Todo Sobre Tenis (@Tsobretenis) May 26, 2026
Muy fuerte todo lo que relata Marco desde #RolandGarros. Compartimos su testimonio completo y sin filtros sobre el sistema, sus miedos y por qué le cuesta tanto volver a la Argentina:
"Me dolió mucho en aquel momento. También… pic.twitter.com/iF07CB3M66
Apesar de ter tido o orgulho de defender as cores da sua nação na Taça Davis, a sensação de injustiça e o custo pessoal de ter feito a coisa certa continuam a pesar no coração do atleta. Uma mágoa perene, mas que agora é encarada de outra perspetiva. «Joguei a Taça Davis pela Argentina e senti-me incrível, mas ainda sinto que tenho uma espinha cravada no meu coração e vai estar lá para sempre. É tão simples quanto isso. Antes sentia-me mais uma vítima. Custou-me muito sair desse pensamento. Mas, com o passar dos anos, segui em frente», confessou.
Trungelliti surge em Roland Garros não apenas como um sobrevivente do exigente circuito internacional, mas como um símbolo de integridade na modalidade que, segundo ele, muitas vezes prefere varrer os seus problemas para debaixo do tapete.