«Regressar a Portugal e treinar na Liga está claramente em cima da mesa»
Em exclusivo a A BOLA, Filipe Coelho fala sobre o percurso, da formação do Benfica ao Estrasburgo, e decalca ambições para o futuro.
— São já duas épocas do Filipe ligado à BlueCo, primeiro no Chelsea, agora no Estrasburgo. Que balanço faz?
— Tenho de andar um bocadinho para trás. O currículo Benfica pesa muito. Foram 17 anos ao serviço de um clube formativo, que permite vencer muitas vezes, mas que permite, essencialmente, lançar jovens talentosos para outros patamares. Obviamente que esse currículo pesou, mas também pesou o meu passo seguinte, nos sub-23 do Estoril, onde a conquista da Liga Revelação e da Taça Revelação aportou alicerces diferentes para entrar no processo de seleção para o cargo de treinador dos sub-21 do Chelsea. Houve três fases, que culminaram com uma última entrevista já em Cobham, presencial — estava de férias no Algarve e regressei no mesmo dia. As coisas precipitaram-se e chegámos a um acordo para dar um passo importante na minha vida profissional, mas também familiar. A família acompanhou-me para Londres e também para Estrasburgo. Ajuda ter uma pessoa em casa, a minha mulher, que me apoia em todas as decisões. Escolher vir para Estrasburgo depois de um ano em Londres foi um passo muito consciente. Depois de uma vida como treinador principal na formação do Benfica, no Estoril e no Chelsea, dar o passo para treinador-adjunto implicou um pouco de zoom out, para permitir-me beber de outra liderança e de outra metodologia, apesar de similar. Quando cheguei, era o Liam [Rosenior] que estava a liderar o projeto, agora é o Gary [O’Neil]. Tudo isto suscitou o interesse de continuar na BlueCo, passando para treinador-adjunto, podendo acrescentar valor e ser uma voz diferente numa equipa técnica que já trabalhava em conjunto há algum tempo.
— Como é que o grupo de trabalho no Estrasburgo absorveu a ida do treinador Liam Rosenior para o Chelsea numa fase em que as coisas estavam tão harmoniosas?
— Quando as pessoas gostam umas das outras e de trabalhar juntas, é sempre difícil mudar. Uma das grandes bandeiras do Liam são as relações humanas. Mais do que um treinador, é um gestor. Isso fazia-se sentir diariamente no bom ambiente que criava e na forma como cuidava e valorizava a equipa técnica e os jogadores, tanto os que jogavam mais como os que jogavam menos. Naturalmente que sentimos a mudança, mas olhou-se de forma natural para a situação. Como dizia há pouco, houve necessidade de munir o Estrasburgo de competência. As pessoas que foram mereceram ir, porque são competentes, e as que ficaram merecem ficar pela mesma razão. A ideia de trabalho não mudou muito e manteve-se com a entrada do Gary O’Neil, que utilizou de forma inteligente o que estava bem e os alicerces que o Liam deixou, mas colocando o seu cunho pessoal. O que fui aprendendo ao longo dos anos é que, por muito competentes que as pessoas sejam, a grande 'cola' entre todos são as relações e a empatia que vamos criando. E o Liam é exímio nesse vetor.
— Nesse momento, o seu nome surgiu como possível solução interna. Quão perto esteve de assumir o comando do Estrasburgo?
— Não sei dizer a proximidade dessa possível decisão. A única coisa que sei é que estou a fazer o meu caminho. Passei de treinador principal para adjunto para me munir de outras ferramentas e para estar num patamar de Ligue 1 e europeu, com a Conference League. Faltava-me esta peça no puzzle, que agora sinto que tenho. Falta-me o UEFA Pro e não quero dar um passo maior do que a perna. Em Portugal há sempre possibilidade de fugir ao assunto pondo um adjunto com o badge, mas os clubes têm de pagar multa... Acabei por assumir interinamente durante alguns dias, juntamente com o Jean-Marc [Kuentz], até à chegada do Gary. Estive mais perto de poder ir para o Chelsea quando o Liam saiu e de acompanhá-lo em Londres, mas a família é um pilar importantíssimo e não fazia sentido retirar os meus filhos de uma adaptação boa à vida em França para voltar agora para Londres. Cheguei há cinco meses e quero continuar a crescer. Sinto que o momento de ser treinador principal vai chegar, não tenho pressa e estou a desfrutar. Ter chegado a um clube como o Chelsea, onde estive próximo do Enzo Maresca, e agora poder beber da competência do Liam Rosenior e do Gary O’Neil... É um currículo riquíssimo e estou a afinar os últimos detalhes para estar mais do que preparado quando tiver de acontecer.
— Sente que esta experiência como adjunto num contexto de elite é o 'doutoramento' final antes de assumir um projeto sénior como treinador principal?
— Sim, se quisermos colocar dessa maneira. Sair da posição de treinador principal foi uma decisão consciente da minha parte, para poder beber de outras lideranças e estruturas num patamar de liga profissional e de competição europeia. Sinto que estou a dar os passos certos. Sei onde quero chegar, mas estou focado em cumprir o meu dia a dia da melhor forma, acrescentando valor a uma equipa técnica de elite. Nada mudou em termos de entrega e do meu desejo de melhorar. Estou a apontar tudo, a aprimorar a minha ideia e a crescer com coisas que, se calhar, não se adequam tanto à minha filosofia e outras que a vão fortalecer. É riquíssimo olhar para o Liam, um pouco mais manager, e para o Gary, que é um pouco mais coach. Já houve oportunidades para voltar a Portugal e para ir para outros países na Europa, mas não quero dar um passo maior do que a perna. Sei que o meu próximo passo é importante e tenho de escolher um projeto que valorize a minha ideia: uma ideia corajosa, de risco, mas de controlo do jogo, dominadora e que aposte em jovens, tendo em conta o meu passado. Sei que esse dia vai chegar. Já podia ter chegado, mas estou a cumprir os meus passos. Neste momento, estou em algumas candidaturas para o UEFA Pro. Infelizmente, em Portugal já tentei umas três vezes e não consegui, pelos critérios. Mas não olho para os obstáculos, procuro ultrapassá-los. As coisas estão a encaminhar-se e estou a munir-me de muitas ferramentas. Este ano é importante para limar a minha entrega como treinador principal.
— Mas que obstáculos são esses na obtenção do nível UEFA Pro?
— As vagas são poucas. Não vão haver mais treinadores por se abrirem mais vagas, apenas treinadores mais qualificados. Os critérios são claros e começam, normalmente, por treinadores principais de Liga 2. Quando estava na Liga Revelação candidatei-me, mas as vagas morrem, por norma, nos primeiros dois ou três critérios. Candidato-me porque quero mostrar à Federação Portuguesa de Futebol que tenho interesse em continuar a formar-me e dar este último passo da licença UEFA Pro, mas não tenho conseguido. Havendo oportunidades, que já existiram, de Liga ou Liga 2, fico a pensar se tenho de dar o passo naquela direção para me abrir a porta e cumprir esse critério… Pensando em tudo, se calhar sim, mas recusei propostas de forma consciente e acredito que posso cumprir esse meu último patamar de formação noutro local da Europa. As coisas vão ser feitas a seu tempo. Sinto que já podia ter esse assunto resolvido se as portas se abrissem de outra maneira. Não abrindo, cá estou, a lutar pelos meus objetivos.
— Arranhou os contornos do tipo de projeto ideal e não pude deixar de pensar em casos como os de César Peixoto, no Gil Vicente, e de Vasco Botelho da Costa, no Moreirense. São apostas que abrem a porta de Portugal ao Filipe, por exemplo?
— Sem dúvida. Há espaço e há pessoas que querem que esse futebol mais positivo e corajoso floresça na Liga. É nossa função subir o nível do futebol apresentado em Portugal. Eu tocaria no Estoril, um clube que me diz muito e que destacaria pela quantidade de golos que tem feito. O Ian Cathro não começou muito bem, mas houve tempo para estabilizar e hoje em dia não deixa de ser uma referência. Em Portugal há essa aposta e é bom sentirmos que a nossa ideia pode ter tempo para florescer, sabendo que a pressão existe e é preciso ganhar. Em alguns clubes há menos pressa, noutros há pouca paciência. Por isso, há que pensar no próximo passo, mas também arriscar. Se, na minha ideia de jogo, também peço ao guarda-redes para arriscar, é porque há um risco calculado, que tem um propósito de procurar vantagens competitivas no último terço. Essa coragem posicional também tem o objetivo de permitir que a estrutura atrás da bola seja corajosa, esteja alta e permita reciclar ataques constantemente, para sufocar o adversário. Tudo isso complementado com a humildade de saber defender baixo quando é preciso, porque o jogo é feito de duas equipas. Se apelo a que os meus jogadores assumam esse risco e demonstrem coragem, o meu próximo passo também tem de ter, naturalmente, algum risco. O conforto pelo conforto não me diz muito.
— Podemos dizer, então, que é possível ver o Filipe a treinar na Liga portuguesa a médio prazo?
— Sem janela temporal, é claramente um cenário em cima da mesa. É uma liga que me diz muito, é o meu país. Voltar ao meu país está sempre em cima da mesa, mas sem janela temporal, porque estou feliz aqui e quero aproveitar muito bem o meu tempo. Quanto melhor aproveitar esse tempo, mais bem preparado vou estar para o passo seguinte, seja em Portugal ou noutro país.