Seleção da Bósnia e Herzegovina (IMAGO)
Seleção da Bósnia e Herzegovina (IMAGO)

O PLANO

Dizer que a qualificação da Bósnia e Herzegovina para o Mundial surge como uma surpresa seria um claro eufemismo. Uma seleção que tinha conseguido apenas quatro vitórias nos seus anteriores 19 encontros, ao longo de dois ciclos de qualificação, chegou a uma encruzilhada quando Sergej Barbarez assumiu o comando em 2024. A campanha que se seguiu foi caótica, emotiva e, por vezes, irracional, o que ainda parece ser a descrição mais autêntica do próprio futebol bósnio. Mas a equipa de Barbarez encontrou, de alguma forma, uma saída no meio de tudo isto, eliminando o País de Gales e a Itália num play-off dramático para carimbar aquela que é apenas a segunda presença do país num Mundial.

O antigo capitão esperou anos pelo cargo, tanto tempo que, entretanto, nem sequer treinou em lado nenhum. Jogou póquer profissional e desfrutou da reforma antes de a Federação de Futebol da Bósnia finalmente entrar em contacto. Barbarez reuniu velhos amigos e antigos companheiros de equipa ao seu redor: Emir Spahic tornou-se diretor desportivo, enquanto Sasa Papac e Zlatan Bajramovic integraram a equipa técnica.

No primeiro ano de Barbarez, 16 jogadores estrearam-se pela seleção, a maioria deles nascidos e formados no estrangeiro, desde a Suécia e Alemanha até à Áustria e Estados Unidos. Essa tornou-se a base desta nova Bósnia. Barbarez até pode ter passado os primeiros oito jogos sem vencer, sendo alvo de duras críticas, mas insistiu sempre que precisava, primeiro, de reconstruir a mentalidade do plantel.

A Bósnia não pratica um futebol particularmente rendilhado sob a orientação do técnico e os sistemas mudam regularmente — oscilando habitualmente entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2 —, mas as táticas passam rapidamente para segundo plano assim que os jogos ganham contornos emocionais, algo que com a Bósnia acontece quase sempre.

A identidade da equipa está assente numa defesa agressiva, futebol direto e transições rápidas. Jovens como Kerim Alajbegovic, Esmir Bajraktarevic, Tarik Muharemovic e Amar Dedic trouxeram nova energia a um grupo ainda liderado pelo veterano Edin Dzeko. É improvável que a Bósnia domine muitos jogos no Grupo B — diante do Canadá, Suíça e Qatar —, mas tem qualidade, força anímica e imprevisibilidade suficientes para se tornar numa das equipas mais desconfortáveis do torneio.

O SELECIONADOR

Sergej Barbarez, selecionador da Bósnia e Herzegovina - Nacionalidade: Bósnia e Herzegovina
Sergej Barbarez, selecionador da Bósnia e Herzegovina - Nacionalidade: Bósnia e Herzegovina

Sergej Barbarez passou anos a criticar a forma como o futebol bósnio era gerido e já quase tinha deixado de esperar pelo telefonema de Sarajevo, depois de ter manifestado interesse no cargo pela primeira vez em 2009. Cerca de 15 anos mais tarde, assumiu os comandos da seleção nacional — sem qualquer experiência anterior como treinador — estreando-se aos 52 anos frente a Inglaterra.

Antigo capitão e figura de culto, Barbarez chegou prometendo honestidade, ligação emocional e uma reformulação completa após anos de disfunção em torno da seleção. Continuou a repetir a mesma mensagem sobre paixão, orgulho e a responsabilidade de representar o país — e, no final, este jovem plantel absorveu-a. Após as vitórias no play-off diante do País de Gales e de Itália, o seu estatuto cresceu ainda mais; o triunfo contra os italianos transformou-o, aos olhos do público, de um jogador de póquer forasteiro numa das figuras desportivas mais importantes de sempre da Bósnia e Herzegovina.

A ESTRELA

Edin Dzeko, capitão da Bósnia, fez o golo no País de Gales que levou o jogo a prolongamento
Edin Dzeko, capitão da Bósnia, fez o golo no País de Gales que levou o jogo a prolongamento

Há os futebolistas normais e depois há Edin Dzeko. Mesmo aos 40 anos, tudo continua, de alguma forma, a girar em torno de Edin. O capitão da Bósnia e Herzegovina continua a ser o maior futebolista da história do país, o seu melhor marcador de sempre e a referência de toda uma geração. Os jogadores mais jovens do plantel falam dele com uma reverência que roça a incredulidade.

Dzeko já não domina os jogos fisicamente como outrora fazia ao serviço do Wolfsburgo ou do Manchester City, mas a sua leitura de espaço, a definição dos tempos de entrada e a capacidade nos momentos de pressão continuam a ser de elite. Durante o play-off, voltou a corresponder quando a Bósnia mais precisava dele. «Enquanto sentir que posso ajudar, estarei aqui», afirmou recentemente. A Bósnia não estaria neste Mundial se não fosse ele.

JOGADOR A SEGUIR

Kerim Alajbegovic (IMAGO)
Kerim Alajbegovic (IMAGO)

Kerim Alajbegovic, aos 18 anos, poderá já ser o talento ofensivo mais natural que a Bósnia e Herzegovina produziu desde Miralem Pjanic. O médio, que passou uma temporada no Red Bull Salzburgo antes de o Bayer Leverkusen acionar a cláusula de rescisão, chega ao torneio com aquela atitude destemida que alguns jogadores têm nessa idade. Não é apenas a sua técnica que sobressai, mas também a sua personalidade. Barbarez confiou no jovem de 18 anos para bater penáltis nos dois desempates por grandes penalidades do play-off — e Alajbegovic respondeu com total frieza. Elegante entre as linhas e audaz com a bola nos pés, assume-se como o rosto da próxima geração bósnia.

HERÓI DISCRETO

Tarik Muharemovic (IMAGO)
Tarik Muharemovic (IMAGO)

A Bósnia e Herzegovina passou anos a produzir defesas-centrais que primeiro defendiam e só depois se preocupavam com o futebol. No entanto, Tarik Muharemovic parece ser o primeiro moldado por uma mentalidade inteiramente diferente. Nascido na Eslovénia e formado na Áustria antes de rumar ao futebol italiano pelas portas da Juventus e do Sassuolo, o defesa esquerdino tornou-se, silenciosamente, num dos homens de maior confiança de Barbarez.

Não é propriamente ruidoso, agressivo ou dramático, o que, tratando-se de um defesa, costuma deixar as pessoas desconfiadas no futebol dos Balcãs. Em vez disso, Muharemovic resolve os problemas com serenidade, transporta a bola para a frente e oferece à Bósnia algo de que a equipa careceu durante anos — compostura.

XI PROVÁVEL

(4-4-2) Vasilj; Dedic, Katic, Muharemovic, Kolasinac; Memic, Sunjic, Tahirovic, Alajbegovic; Demirovic e Dzeko.

O QUE ESPERAR DOS ADEPTOS

O apoio da Bósnia e Herzegovina é apaixonado e emotivo, mesmo para os padrões dos Balcãs. Alguns adeptos viajarão da própria Bósnia, outros de enormes comunidades da diáspora espalhadas pela Alemanha, Áustria, Suécia, Suíça e Estados Unidos. Uma vez juntos, costumam transformar-se numa multidão ruidosa e incessante assim que os jogos começam. Os Mundiais importam imenso porque acontecem muito raramente; mais de 100 mil pessoas celebraram a qualificação nas ruas de Sarajevo.

Parte do apoio é organizada através do grupo ultra BHFanaticos, que acompanha a seleção nacional em diferentes modalidades e conduz o ambiente ao longo dos jogos. Esperem enormes bandeiras azuis e amarelas, símbolos da flor-de-lis da Bósnia medieval, cânticos constantes, tambores, fumo e coreografias. E também longas noites em redor dos jogos, porque os bósnios tendem a celebrar cada pequeno momento do futebol como se este pudesse nunca mais repetir-se.

RELAÇÃO COM OS EUA/TRUMP

A relação da Bósnia e Herzegovina com os Estados Unidos é, no geral, positiva, embora os bósnios tenham tendência para discutir política com a mesma energia que reservam para os árbitros de futebol. Muitos ainda associam a América à ajuda final para colocar termo à guerra na década de 1990, ao passo que os EUA acolhem hoje uma enorme diáspora bósnia, particularmente em redor de St. Louis, que muitas vezes se descreve, em tom de brincadeira, como «a quarta maior cidade da Bósnia».

Quanto a Donald Trump, as opiniões dividem-se, o que na Bósnia significa habitualmente que todos estão descontentes por razões completamente diferentes. Ainda assim, os adeptos que viajam parecem muito mais irritados com a FIFA do que propriamente com a Casa Branca. A principal queixa tem sido logística: voos internos, distâncias absurdas e preços de bilhetes que fazem com que este torneio pareça menos um Mundial e mais três competições distintas costuradas acidentalmente.

Textos de Sasa Ibrulj, do Skaut Sport. Estes textos foram escritos no âmbito da Guardian Experts' Network, a rede de troca de conteúdos para o Mundial 2026, liderada pelo jornal inglês The Guardian e que tem A BOLA como representante português, e foram traduzidos com recurso a Inteligência Artificial.

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