A caminho da história
O FC Porto está a crescer, e bem. O número de sócios ultrapassou todas as marcas do passado — somos quase 175 mil — e quem quiser comprar um lugar cativo no Estádio do Dragão tem de se inscrever numa lista de espera e aguardar por uma vaga. É uma onda azul e branca de entusiasmo que revela uma vitalidade raramente vista na centenária história do FC Porto. Há várias causas que explicam esta ânsia de participar e de apoiar.
Por um lado, o rejuvenescimento do clube, consagrado numa nova Direção eleita debaixo da bandeira da mudança de rumo, de processos e de métodos. Por outro lado, a perpetuação de Pinto da Costa e o aparecimento de pústulas parasitárias cada vez mais influentes e rapaces criaram insatisfação, desinteresse e revolta. Pinto da Costa foi a razão da derrota de Pinto da Costa.
O nepotismo instalou-se, de mãos dadas com favorecimentos ilícitos. Eram tempos desconfortáveis, em que grupos protegidos impunham um clima de intimidação, ameaça e agressão. Os sócios compreenderam que isso era insuportável e disseram que era necessário mudar de rumo. Essa mudança está aí: pujante, entusiasta e muito participada. Somos milhares, sedentos e apaixonados, iluminados pelo fogo de um Dragão vigoroso. É cada vez mais difícil arranjar um bilhete para ver o FC Porto ao vivo. A Direção premeia a assiduidade e os sócios correspondem com lotações esgotadas, onde quer que jogue o campeão.
O princípio da história
Foi assim a época passada, com uma onda de entusiasmo como há muito não se via. Depois de uma época de 2024/25 desastrosa (salvou-se a Supertaça conquistada após uma reviravolta épica de 0-3 contra o Sporting), os sócios queriam que a mudança de gestão e de pessoas se traduzisse também no regresso à vitória mais desejada: o Campeonato!
A Direção de André Villas-Boas apostou tudo. E ganhou. Ganhámos. O título de 2025/26 é tão bom e saboroso como todos os outros. Mas tem uma carga simbólica que poucos carregam. É o primeiro de uma nova Direção, que simboliza o futuro e a esperança. Mas, agora, pertence ao passado e ao Museu. E se este campeonato de 2026 é especial, histórico e decisivo, muitos outros houve que me marcaram como adepto apaixonado. Vem comigo.
Momentos inesquecíveis
1977/78. Dezanove anos depois, o FC Porto voltava a erguer a taça de campeão nacional. Foi um título histórico, de viragem, que marcou o início da hegemonia portista no futebol português. Passados 48 anos desta data inesquecível, o FC Porto foi campeão 26 vezes, ou seja, mais de metade dos tít los disputados. Uma superioridade indiscutível. A vitória mais ansiada foi a mais profundamente celebrada. Obra de José Maria Pedroto. Mas há mais...
1994/99. O ciclo do penta, que só o FC Porto conquistou em Portugal. Cinco anos seguidos de escudo nacional ao peito. Uma glória inigualada. Obra iniciada por Bobby Robson, continuada por Augusto Inácio e António Oliveira e concluída por Fernando Santos.
2005/09. O ciclo do tetra, outra coleção de campeonatos nacionais que ergue o pendão azul e branco a patamares de excelência e domínio. Obra iniciada por Co Adriaanse e concluída por Jesualdo Ferreira, o único treinador tri-campeão da história do FC Porto.
2010/11. O primeiro campeonato conquistado pelo FC Porto sem derrotas. Uma época notável, essa, coroada por um triplete — o segundo da nossa história — que pôs de novo o clube nos píncaros da Europa. Campeonato Nacional, Taça de Portugal e Liga Europa. Obra de André Villas-Boas.
2012/13. O campeonato do golo do Kelvin aos 90+2 minutos, no Dragão, contra o Benfica. Um golo que nenhum portista que o tenha visto e sentido jamais esquecerá. O golo que nos colocou no caminho do título na penúltima jornada do campeonato. Inesquecível! Foi, também, o segundo campeonato sem derrotas. Obra de Vítor Pereira.
2017/18. O campeonato do penta ciao. O Benfica estava a preparar-se para igualar o FC Porto na conquista de um penta, mas Hector Herrera não esteve de acordo e marcou aquele golo maravilhoso, na Luz, rodeado de adversários, à entrada da grande área. O Porto estoirou de alegria, a festa parecia interminável. Obra de Sérgio Conceição.
Corrupção sem vergonha
A arbitragem está a revelar-se, tragicamente, o elo mais fraco do futebol. Em Portugal, é o que se sabe. Erros grosseiros e incompreensíveis, demissões polémicas e suspeitas, a sedimentação de um clima de desconfiança. Ninguém consegue olhar para uma equipa de arbitragem e pôr as mãos no fogo por nenhum dos seus elementos. Perdeu-se confiança, credibilidade e respeito. Tudo obra dos próprios árbitros, que se colocaram num pedestal de intocabilidade e impunidade inaceitáveis.
Se dúvidas houvesse, basta ver o que se passou no Mundial. Batotas, roubos, corrupção. Ficou demonstrado de forma escandalosamente clara que há árbitros corrompíveis e que o resultado de um jogo pode depender de um punhado de dólares. A FIFA mostrou a sua face corrupta e dissoluta, ao aceitar pedidos do presidente dos Estados Unidos. Houve equipas eliminadas por erros grotescos das equipas de arbitragem. Houve decisões vergonhosas, houve venalidade, conluio e traficância.
Este foi o Mundial da vergonha, que quase destruiu o futebol na sua dimensão mais pura e genuína: o amor ao jogo, a rivalidade saudável e a paixão. Vade retro, corruptos!
A surpresa do futebol
A época de futebol em Portugal começa no próximo sábado, 1 de agosto, com a Supertaça. FC Porto e Torreense vão discutir o primeiro troféu da temporada. O FC Porto é, convém dizê-lo, o recordista absoluto desta competição. Em 47 edições, ganhou 24. É fazer as contas.
O jogo de sábado tem a particularidade de opor o campeão nacional da primeira Liga ao vencedor surpreendente da Taça de Portugal, um clube da segunda Liga.
E como o futebol está cheio de surpresas, recomendo dois documentários da Netflix: Taça de Portugal: os vencedores improváveis e Um dia de futebol. Ambos sobre o Desportivo das Aves, que conquistou a Taça de Portugal em 2018, curiosamente contra o Sporting. Para ver e perceber que o fascínio do futebol também vive destes episódios de superação e imprevisibilidade.