Será que excluir também educa? - Foto: A BOLA
Será que excluir também educa? - Foto: A BOLA

Excluir para preparar para a vida?

Esta Tribuna Livre é da responsabilidade de Gonçalo Mendonça, coordenador do futsal de formação do Clube Recreativo Leões de Porto Salvo

Nos últimos anos tenho sentido que existe uma ideia cada vez mais presente no desporto de formação: a de que excluir também educa. Que deixar uma criança no banco durante um jogo inteiro pode ser uma ferramenta pedagógica importante porque a ajuda a lidar com frustrações, adversidades e injustiças, preparando-a para aquilo que encontrará no futuro.

A intenção pode até parecer positiva, mas a questão que me surge é simples: estaremos realmente a preparar crianças para a vida ou estaremos, muitas vezes, apenas a justificar decisões que têm sobretudo uma lógica competitiva?

Querer ganhar nunca foi um problema. O desporto também é competição, ambição e procura de resultados. O problema surge quando essa procura pela vitória se esconde atrás de um discurso educativo que transforma todas as decisões em oportunidades de aprendizagem.

Se o objetivo principal é competir e ganhar, talvez a maior demonstração de respeito para com as famílias seja assumi-lo desde o primeiro dia. Explicar que existirão crianças com mais espaço, outras com menos, e que o rendimento imediato terá influência nas escolhas. O que me parece difícil de aceitar é receber o compromisso, o tempo, o investimento e o sonho de uma criança sabendo, desde o início, que ela terá muito poucas oportunidades para participar.

Há uma pergunta à qual continuo sem encontrar resposta. Tendo em conta a maturidade emocional de uma criança, a frustração constante de não jogar prepara-a realmente para o futuro ou poderá, em alguns casos, deixar marcas na forma como se vê a si própria?

Um adulto consegue, normalmente, separar uma derrota do seu valor pessoal. Mas será que uma criança consegue fazer o mesmo?

Também me faz pensar outra aparente contradição. Se a intenção é ensinar a lidar com frustrações, porque é que essa aprendizagem parece acontecer quase sempre com as crianças de menor rendimento imediato? As que demonstram maior aptidão não terão também de aprender a lidar com erros, fracassos, rejeições e dificuldades?

Na prática, parece existir uma curiosa distribuição da aprendizagem pela frustração. Uns aprendem no banco. Outros aprendem dentro do jogo. Mas serão estas experiências equivalentes?

A criança que joga erra, toma decisões, falha, sente as consequências das suas escolhas, ajusta comportamentos e tenta novamente. Aprende a lidar com a pressão, com o erro, com a responsabilidade e com a crítica. Cresce através da experiência.

Já a criança que observa durante longos períodos aprende, acima de tudo, a lidar com a ausência de oportunidade. E existe uma diferença importante entre sentir uma dificuldade e desenvolver ferramentas para a ultrapassar.

Talvez seja precisamente dentro do jogo que essa aprendizagem acontece. É aí que a criança falha um passe, perde uma bola, toma uma decisão errada, enfrenta as consequências e procura soluções. É nesse processo que desenvolve persistência, confiança e capacidade de superação.

A verdadeira preparação para a vida talvez não aconteça quando afastamos a criança da experiência, mas quando a colocamos dentro dela.

Porque ninguém aprende a gerir o erro sem errar. Ninguém aprende a lidar com a derrota sem competir. E ninguém aprende a ultrapassar dificuldades sem ter oportunidade de agir sobre elas.

No fundo, talvez a pergunta mais desconfortável seja esta: se acreditamos verdadeiramente que excluir educa, aceitaríamos essa lógica noutros contextos?

Na escola defenderíamos que um aluno com mais dificuldades passasse o dia inteiro sem participar, apenas a observar os colegas, para aprender a lidar com a frustração? Provavelmente não. Procuraríamos dar-lhe mais apoio, mais oportunidades e mais experiências de sucesso. Então porque é que, no desporto, tantas vezes seguimos o caminho contrário?

O desporto pode ser uma extraordinária escola de vida. Mas talvez não seja a exclusão que educa. O que verdadeiramente educa é a oportunidade de participar, errar, aprender e voltar a tentar.

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