Excluir para preparar para a vida?
Nos últimos anos tenho sentido que existe uma ideia cada vez mais presente no desporto de formação: a de que excluir também educa. Que deixar uma criança no banco durante um jogo inteiro pode ser uma ferramenta pedagógica importante porque a ajuda a lidar com frustrações, adversidades e injustiças, preparando-a para aquilo que encontrará no futuro.
A intenção pode até parecer positiva, mas a questão que me surge é simples: estaremos realmente a preparar crianças para a vida ou estaremos, muitas vezes, apenas a justificar decisões que têm sobretudo uma lógica competitiva?
Querer ganhar nunca foi um problema. O desporto também é competição, ambição e procura de resultados. O problema surge quando essa procura pela vitória se esconde atrás de um discurso educativo que transforma todas as decisões em oportunidades de aprendizagem.
Se o objetivo principal é competir e ganhar, talvez a maior demonstração de respeito para com as famílias seja assumi-lo desde o primeiro dia. Explicar que existirão crianças com mais espaço, outras com menos, e que o rendimento imediato terá influência nas escolhas. O que me parece difícil de aceitar é receber o compromisso, o tempo, o investimento e o sonho de uma criança sabendo, desde o início, que ela terá muito poucas oportunidades para participar.
Há uma pergunta à qual continuo sem encontrar resposta. Tendo em conta a maturidade emocional de uma criança, a frustração constante de não jogar prepara-a realmente para o futuro ou poderá, em alguns casos, deixar marcas na forma como se vê a si própria?
Um adulto consegue, normalmente, separar uma derrota do seu valor pessoal. Mas será que uma criança consegue fazer o mesmo?
Também me faz pensar outra aparente contradição. Se a intenção é ensinar a lidar com frustrações, porque é que essa aprendizagem parece acontecer quase sempre com as crianças de menor rendimento imediato? As que demonstram maior aptidão não terão também de aprender a lidar com erros, fracassos, rejeições e dificuldades?
Na prática, parece existir uma curiosa distribuição da aprendizagem pela frustração. Uns aprendem no banco. Outros aprendem dentro do jogo. Mas serão estas experiências equivalentes?
A criança que joga erra, toma decisões, falha, sente as consequências das suas escolhas, ajusta comportamentos e tenta novamente. Aprende a lidar com a pressão, com o erro, com a responsabilidade e com a crítica. Cresce através da experiência.
Já a criança que observa durante longos períodos aprende, acima de tudo, a lidar com a ausência de oportunidade. E existe uma diferença importante entre sentir uma dificuldade e desenvolver ferramentas para a ultrapassar.
Talvez seja precisamente dentro do jogo que essa aprendizagem acontece. É aí que a criança falha um passe, perde uma bola, toma uma decisão errada, enfrenta as consequências e procura soluções. É nesse processo que desenvolve persistência, confiança e capacidade de superação.
A verdadeira preparação para a vida talvez não aconteça quando afastamos a criança da experiência, mas quando a colocamos dentro dela.
Porque ninguém aprende a gerir o erro sem errar. Ninguém aprende a lidar com a derrota sem competir. E ninguém aprende a ultrapassar dificuldades sem ter oportunidade de agir sobre elas.
No fundo, talvez a pergunta mais desconfortável seja esta: se acreditamos verdadeiramente que excluir educa, aceitaríamos essa lógica noutros contextos?
Na escola defenderíamos que um aluno com mais dificuldades passasse o dia inteiro sem participar, apenas a observar os colegas, para aprender a lidar com a frustração? Provavelmente não. Procuraríamos dar-lhe mais apoio, mais oportunidades e mais experiências de sucesso. Então porque é que, no desporto, tantas vezes seguimos o caminho contrário?
O desporto pode ser uma extraordinária escola de vida. Mas talvez não seja a exclusão que educa. O que verdadeiramente educa é a oportunidade de participar, errar, aprender e voltar a tentar.