Mourinho e a cultura dos dérbis: «Em Portugal é impossível ver adeptos rivais juntos»
Na antevisão ao dérbi da capital espanhola entre Atlético e Real, José Mourinho abordou a natureza única destes jogos, que já viveu em Lisboa, Porto, Londres, Milão, Manchester e Istambul. O técnico português destacou a dimensão cultural dos dérbis, que transcende os habituais três pontos em jogo.
Questionado sobre qual o dérbi que mais o marcou, Mourinho partilhou uma reflexão sobre as diferentes vivências. «Um dérbi tem sempre algo mais. Os dérbis são história, cultura, paixão dos adeptos, jogadores, treinadores... de alguns que rapidamente percebem o que significa. Mas depois, é um jogo de três pontos. É difícil dizer, porque quando vestes a camisola de um clube, passas a sentir como um adepto. Não há um dérbi em que vás pela rua na semana anterior e alguém não te diga 'vamos matar a Juve...', ou quem quer que seja», explicou. O técnico confessou que ficou surpreendido em Itália.
«O que mais me surpreendeu, pelo inesperado, foi o Milan-Inter, porque pensava que havia um pouco de ódio, e surpreendeu-me que sejam amigos, têm uma boa relação. O ódio está um pouco mais a norte. Eu via uma senhora e um senhor com as suas camisolas, diferentes, na rua. Ou um pai e um filho. Em Portugal isso é impossível... E na Turquia nem vos conto!»
Eu via uma senhora e um senhor com as suas camisolas, diferentes, na rua. Ou um pai e um filho. Em Portugal isso é impossível... E na Turquia nem vos conto!
No que toca ao adversário, Mourinho considerou o Atlético de Madrid um candidato ao título e, ao falar de Simeone, a palavra de ordem foi «respeito». «Ao longo da carreira dizemos tantas asneiras que, se recuarmos, nenhum de nós está a salvo. Ou coisas ditas sob a influência do momento... ou estrategicamente. Chamaram-me para falar no documentário do Simeone e não hesitei um minuto. Ele sabe o que penso dele. O primeiro é o respeito. Somos rivais, mas companheiros de guerra», declarou.
Ao longo da carreira dizemos tantas asneiras... Simeone sabe o que penso dele. O primeiro é o respeito. Somos rivais, mas companheiros de guerra
O treinador português elogiou a força mental do seu plantel, recordando as reviravoltas recentes. «Nos três jogos em que chegámos aos minutos finais a precisar de marcar para ganhar ou empatar, terminámos com uma força física, psicológica, uma entrega e uma determinação... pode dizer-se claramente: não é normal estar a perder por 0-2 com o Elche e que te empatem ao minuto 80. Mas também não é normal que te empatem e, em poucos minutos, a equipa mude, tenha uma, outra, outra oportunidade... e marque e ganhe. Com o Betis aconteceu o mesmo. Esta equipa tem, além de qualidade, uma força com um significado muito grande. Que é a força de um grupo. E isto dá-me confiança. Isto é uma maratona, não uma autoestrada».
Apesar de um tom geral sereno na conferência de imprensa, Mourinho não deixou de enviar algumas mensagens, nomeadamente quando questionado sobre o excelente momento de forma do Barcelona. «Histórica e culturalmente, o Real Madrid não se pode comparar com ninguém. E por isso não me vou comparar com nenhum. Falo de nós e faço-o sem problemas, dos problemas e das virtudes. Apesar de ser cada vez mais difícil ouvir algo positivo sobre o Real Madrid», afirmou.
Por fim, abordou a arbitragem, mostrando-se confiante no árbitro nomeado, apesar de achar estranha a sua designação com uma semana de antecedência. Na conferência de imprensa passada, o treinador acabara a falar de penáltis, estranhando se não havia perguntas sobre isso. Desta vez a pergunta chegou: O que queria comentar naquele dia sobre os penáltis? «Agora já é tarde. Porque, depois dessa jornada, tivemos outra. E, nesta outra, havia mais perguntas que me podiam fazer. Por exemplo, uma muito clara e óbvia: o que penso sobre o facto de o Elche ter acabado com onze jogadores. Mas, se entrarmos por aí... chegaremos a amanhã e prefiro dizer que, apesar de ser um pouco estranho já sabermos há uma semana quem seria o árbitro de amanhã, prefiro dizer que, se foi nomeado, é porque tem qualidade. Experiência suficiente para um jogo com esta dimensão emocional. Não gosto de falar dos árbitros antes do jogo. Depois veremos. Mas antes... tem toda a minha confiança», disse.
E que nota dá a si próprio 100 dias depois do regresso? «A minha nota é que dei o máximo. E penso que, no meu caso, não se trata apenas de treinar e jogar, mas de ter influência na construção do futebol de um clube. Não é apenas treinar, fazer substituições... Não me dou uma nota, não penso que tenha sido perfeita nem negativa, mas a nota que me dou é que dei o máximo. O máximo. E é assim que vou continuar.»
Não me dou uma nota, não penso que tenha sido perfeita nem negativa, mas a nota que me dou é que dei o máximo. O máximo. E é assim que vou continuar
O treinador falou ainda da paragem para seleções UEFA e FIFA, pela primeira vez durante mais tempo: «Alguém gosta? Mas o que podemos fazer? Ficam quatro jogadores durante 20 dias. Quatro jogadores. Depois chegarão... alguns três dias antes do Villarreal... ou dois... os brasileiros vêm da Índia, tal como o Valverde. Os europeus têm quatro jogos difíceis. E muitos. No meu caso, é complicado, porque depois temos o Villarreal e a Roma, seguidos. Mas isso significa que temos bons jogadores.»
Confrontado com a polémica das camisolas de apoio a Ceuta, o técnico foi lacónico: «Eu só falo de futebol».