Mike Schultz, o melhor inimigo dos atletas
Nos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, é provável que vários atletas no pódio do snowboard usem uma prótese desenhada por um dos seus adversários: o veterano norte-americano Mike Schultz.
O próprio atleta estima que cerca de 25 para-atletas utilizem o equipamento que desenvolveu. Nos Jogos de Inverno de Pequim 2022, há quatro anos, mais de 20 competidores já usavam a sua tecnologia.
Em declarações ao Comité Paralímpico Internacional, Schultz admite que a situação é uma «faca de dois gumes». «Estou a criar equipamento que torna os meus concorrentes mais rápidos. Mas... é uma situação em que todos ganham. Quer eu esteja no pódio ou não, sei que alguém que usa o nosso equipamento estará, por isso é ótimo para o meu negócio de qualquer maneira», afirmou.
A história de Schultz como inventor começou após um grave acidente numa competição de snowmobile em 2008, que resultou na amputação da sua perna esquerda acima do joelho. Insatisfeito com as próteses disponíveis no mercado e determinado a regressar aos desportos radicais, começou a desenhar a sua própria perna e uma prótese no seu barracão, o que levou à criação de uma pequena empresa em 2010.
«A minha mente sempre pensou de forma mecânica, desde muito jovem, e fico sempre intrigado sobre como as coisas funcionam e como as posso melhorar», explicou. O ponto de viragem aconteceu quando um veterano militar amputado, que praticava snowboard adaptado, o contactou. «Originalmente, desenvolvi-a para motocross e corridas de snowmobile. Depois, fui contactado por este veterano que me viu a competir e perguntou se funcionaria para snowboard. E eu disse: 'Não se'».
Este contacto levou Schultz a experimentar o snowboard, que se tornou o foco da sua carreira atlética. Hoje, o seu equipamento, que pode durar até seis anos, é muito procurado e utilizado numa variedade de desportos, incluindo BTT, esqui aquático, wakeboard, surf e equitação. O negócio vai de vento em popa, com as próteses personalizadas a chegarem aos 40 mil euros.
Schultz explica que a sua prótese para snowboard é muito diferente da que usa no dia a dia. A perna de uso diário tem um computador e um sistema hidráulico, enquanto o pé é uma mola composta que comprime e recua rapidamente. «Não consigo andar muito bem com a minha perna de snowboard simplesmente porque não oscila para a frente e para trás, fica direita até eu colocar peso nela», detalha.
Por sua vez, a prótese desportiva possui um amortecedor com sistema hidráulico e uma mola que funciona como os seus músculos do quadricípite. «Quando está em repouso, está totalmente estendida. Para a fletir, tenho de transferir peso para a comprimir. A taxa de resistência é ajustável e isso ajuda-me, por exemplo, quando estou no ar e aterro, a absorver o impacto e a estendê-la novamente», acrescenta.
O que distingue as próteses de Schultz é a sua capacidade de ajuste. «Falando especificamente de snowboard, dependendo se se usa a prótese à frente ou atrás, podemos mudar o alinhamento», diz. «A amplitude de movimento é variável, assim como o amortecimento no pé, que também é totalmente ajustável dependendo da perna e do quão agressivamente se quer competir».
Yo, #Buffalo! Come out next week and see Paralympics Champ, prosthetics designer & author Mike Schultz talk about his memoir, DRIVEN TO RIDE: The True Story of an Elite Athlete Who Rebuilt His Leg, His Life, and His Career. @MonsterMike5 @peopleincnews @TriumphBooks @tleavesbooks pic.twitter.com/xAAT0fh0Ls
— Matt Higgins (@ByMattHiggins) March 23, 2022
Schultz, que compete com a prótese como perna dianteira, sente que isso lhe dá «mais potência para gerar velocidade». O seu palmarés inclui um ouro em snowboard cross e uma prata em banked slalom nos Jogos de PyeongChang 2018, além de outra prata em snowboard cross em Pequim 2022.
Aos 44 anos, «Monster Mike», como é conhecido pelo seu estilo agressivo, garante que ainda tem muito para dar, apoiando-se na sua vasta experiência. «O meu maior trunfo é a experiência de mais de 27 anos em diferentes desportos motorizados e competições», afirma. No entanto, está ciente do desafio que o espera em Milão-Cortina 2026: «A concorrência tem vindo a melhorar progressivamente nos últimos anos e estou a tentar acompanhar. Continuo muito competitivo».