Miguel Valença: «Tem de haver sempre alegria»
Três subidas (Anadia, Amora e Louletano) e apenas 36 anos. Quando o contrataram, os responsáveis algarvios já sabiam o que esperar...
— Assumiu o leme em janeiro e o Louletano estava em sexto lugar. Conseguiu levá-lo ao primeiro. Como estava a equipa nessa fase?
— Encontrámos uma equipa desacreditada e pouco confiante. A nossa chegada alimentou um bocadinho aquilo que podia ser o moral, porque o meu trabalho anterior tinha sido uma subida de divisão e os jogadores acabaram por olhar para a contratação, se calhar, com mais esperança para aquilo que era o objetivo do clube.
— Porque decidiu abraçar o projeto do Louletano?
— Pela mistura de ideias do diretor desportivo e investidor do clube. Acabámos por casar bem naquilo que era a ideia geral, o trabalho diário e o objetivo do clube. Na altura, tinha rejeitado algumas propostas do Campeonato de Portugal e uma da Liga 3. Passavam-me muitas coisas pela cabeça, até a possibilidade de não treinar até final da época. Só que bastaram duas conversas para chegarmos a um acordo e estarmos ligados naquilo que era a ideia de atacar o objetivo, que eram os quatro primeiros lugares. Foi isso que me foi pedido na altura.
— O objetivo não era a subida?
— Toda a gente estava um bocadinho desacreditada, não só os jogadores mas o clube no geral. Por isso, o objetivo que me foi passado na primeira reunião foi entrar na luta dos quatro primeiros lugares e depois, no fim, perceber se dava para mais alguma coisa ou não. Quando analisei o plantel e conhecendo um bocadinho a realidade da Série D do Campeonato de Portugal, acreditei sempre que, com algumas mexidas e outras entradas no plantel, ainda era possível tentar chegar aos dois primeiros. Nunca pensei, porém, que conseguíssemos fazer uma segunda volta tão acima da média. Era impensável, mas trabalhámos muito.
— Quando houve a mudança de paradigma?
— Em dois momentos. Nos primeiros 15 dias, pusemos toda a gente acreditar que o trabalho compensa. Começámos a respirar um ar mais positivo e confiante. Tivemos 15 dias para trabalhar o primeiro jogo e fomos vencer 3-0 a casa do Portimonense, que só tinha tido uma derrota lá. A partir daí, os jogadores passaram a acreditar e confiar de uma forma totalmente diferente e com um sorriso na cara. Estando contentes e com um sorriso na cara, é muito mais fácil atingir qualquer objetivo. Tem de haver sempre alegria, para usufuirmos e conseguirmos acabar por dar mais. Essa foi a primeira mensagem.
— E o segundo momento?
— Foi quando, passadas três jornadas, fomos empatar 0-0 ao Juventude de Évora que estava em segundo. Foi o nosso jogo com mais qualidade. Não conseguimos os três pontos, mas, no fim, a minha mensagem foi muito clara: se conseguíssemos fazer o que tínhamos feito ali, era muito possível fazê-lo nos jogos que faltavam. Sabíamos que era uma questão de tempo para os resultados acabarem por surgir. A partir desse jogo tivemos oito vitórias consecutivas e garantimos a segunda fase a duas jornadas do fim. Esse jogo mudou o paradigma.
Subir em cinco meses, «em vez de 10 ou 11»
— Esta é a sua terceira subida. Isso motiva-o ou dá mais pressão?
— É pura e simplesmente motivação. Nunca pode ser pressão, porque nós jogamos sempre para ganhar e os objetivos têm de ser sempre altos. Quero chegar aos patamares profissionais e, para isso, temos de ganhar mais do que o contrário. É uma motivação, é um privilégio e é um orgulho muito grande ser o único treinador em Portugal a ter estas três subidas do Campeonato de Portugal à Liga 3, com poucos anos ainda na estrada, mas com orgulho naquilo que tenho feito e que quero fazer. Eu e a minha equipa técnica temos uma mentalidade vencedora e lutamos sempre pelos objetivos altos.
— O que distingue esta subida?
— Este ano acaba por ser um bocadinho diferente dos do Anadia e Amora, em que fui eu que formei o plantel, tive desde o primeiro dia. Aqui, o plantel não foi formado por mim, teve de ser tudo muito mais rápido, muito mais direto, naquilo que era a mensagem e o trabalho diário. Todas são difíceis e esta não foge à regra. A única diferença foi que acabou por ser em cinco meses, em vez de dez ou onze.
— Quem são as suas referências?
— Em Portugal, é impensável não olharmos porta quem nos abriu portas. O José Mourinho foi o principal embaixador do que o treinador português tem vindo a conquistar. Gosto muito de olhar para aquilo que é o produto português. O Luís Freire e o Paulo Fonseca são os dois treinadores com quem me revejo mais, juntando o Rúben Amorim pela positividade e qualidade com que trabalha as equipas.
A formação de Loulé foi das equipas que consentiu menos golos, na atual edição do Campeonato de Portugal: foram 15 na fase regular e sete na de apuramento de campeão.
Na primeira etapa da campetição, apenas Vitória de Sernache (12) e Oliveira do Hospital (13) sofreram menos. Na segunda, curiosamente só não foi melhor do que as referidas equipas (três e seis tentos contra, respetivamente), a que se juntou o Bragança (com cinco).
De facto, para subir um dos segredos, parace ser mesmo sofrer pouco - ainda que, noutro sentido da mesma palavra, seja de conhecimento geral que há que sofrer muito, para lograr tal feito... O especialista em promoções, Miguel Valença, que o diga!