O diretor desportivo dos algarvios, Filipe Costa (filho de Rui Costa), comemora com Miguel Valença a subida à Liga 3 - Foto: Louletano
O diretor desportivo dos algarvios, Filipe Costa (filho de Rui Costa), comemora com Miguel Valença a subida à Liga 3 - Foto: Louletano

Miguel Valença: «Tem de haver sempre alegria»

Técnico na positividade a maior aliada para catapultar o Louletano para outros patamares. Em entrevista a A BOLA, conta que encontrou uma equipa desacreditada à chegada, mas depois «alimentou o moral» e festejou ascensão à Liga 3

Três subidas (Anadia, Amora e Louletano) e apenas 36 anos. Quando o contrataram, os responsáveis algarvios já sabiam o que esperar...

— Assumiu o leme em janeiro e o Louletano estava em sexto lugar. Conseguiu levá-lo ao primeiro. Como estava a equipa nessa fase? 

— Encontrámos uma equipa desacreditada e pouco confiante. A nossa chegada alimentou um bocadinho aquilo que podia ser o moral, porque o meu trabalho anterior tinha sido uma subida de divisão e os jogadores acabaram por olhar para a contratação, se calhar, com mais esperança para aquilo que era o objetivo do clube. 

— Porque decidiu abraçar o projeto do Louletano? 

­— Pela mistura de ideias do diretor desportivo e investidor do clube. Acabámos por casar bem naquilo que era a ideia geral, o trabalho diário e o objetivo do clube. Na altura, tinha rejeitado algumas propostas do Campeonato de Portugal e uma da Liga 3. Passavam-me muitas coisas pela cabeça, até a possibilidade de não treinar até final da época. Só que bastaram duas conversas para chegarmos a um acordo e estarmos ligados naquilo que era a ideia de atacar o objetivo, que eram os quatro primeiros lugares. Foi isso que me foi pedido na altura. 

— O objetivo não era a subida? 

— Toda a gente estava um bocadinho desacreditada, não só os jogadores mas o clube no geral. Por isso, o objetivo que me foi passado na primeira reunião foi entrar na luta dos quatro primeiros lugares e depois, no fim, perceber se dava para mais alguma coisa ou não. Quando analisei o plantel e conhecendo um bocadinho a realidade da Série D do Campeonato de Portugal, acreditei sempre que, com algumas mexidas e outras entradas no plantel, ainda era possível tentar chegar aos dois primeiros. Nunca pensei, porém, que conseguíssemos fazer uma segunda volta tão acima da média. Era impensável, mas trabalhámos muito.

Miguel Valença trouxe positividade à equipa Foto: Louletano

— Quando houve a mudança de paradigma?

— Em dois momentos. Nos primeiros 15 dias, pusemos toda a gente acreditar que o trabalho compensa. Começámos a respirar um ar mais positivo e confiante. Tivemos 15 dias para trabalhar o primeiro jogo e fomos vencer 3-0 a casa do Portimonense, que só tinha tido uma derrota lá. A partir daí, os jogadores passaram a acreditar e confiar de uma forma totalmente diferente e com um sorriso na cara. Estando contentes e com um sorriso na cara, é muito mais fácil atingir qualquer objetivo. Tem de haver sempre alegria, para usufuirmos e conseguirmos acabar por dar mais. Essa foi a primeira mensagem.

— E o segundo momento? 

­— Foi quando, passadas três jornadas, fomos empatar 0-0 ao Juventude de Évora que estava em segundo. Foi o nosso jogo com mais qualidade. Não conseguimos os três pontos, mas, no fim, a minha mensagem foi muito clara: se conseguíssemos fazer o que tínhamos feito ali, era muito possível fazê-lo nos jogos que faltavam. Sabíamos que era uma questão de tempo para os resultados acabarem por surgir. A partir desse jogo tivemos oito vitórias consecutivas e garantimos a segunda fase a duas jornadas do fim. Esse jogo mudou o paradigma. 

Subir em cinco meses, «em vez de 10 ou 11»

— Esta é a sua terceira subida. Isso motiva-o ou dá mais pressão?

— É pura e simplesmente motivação. Nunca pode ser pressão, porque nós jogamos sempre para ganhar e os objetivos têm de ser sempre altos. Quero chegar aos patamares profissionais e, para isso, temos de ganhar mais do que o contrário. É uma motivação, é um privilégio e é um orgulho muito grande ser o único treinador em Portugal a ter estas três subidas do Campeonato de Portugal à Liga 3, com poucos anos ainda na estrada, mas com orgulho naquilo que tenho feito e que quero fazer. Eu e a minha equipa técnica temos uma mentalidade vencedora e lutamos sempre pelos objetivos altos. 

— O que distingue esta subida?

— Este ano acaba por ser um bocadinho diferente dos do Anadia e Amora, em que fui eu que formei o plantel, tive desde o primeiro dia. Aqui, o plantel não foi formado por mim, teve de ser tudo muito mais rápido, muito mais direto, naquilo que era a mensagem e o trabalho diário. Todas são difíceis e esta não foge à regra. A única diferença foi que acabou por ser em cinco meses, em vez de dez ou onze. 

— Quem são as suas referências?

— Em Portugal, é impensável não olharmos  porta quem nos abriu portas. O José Mourinho foi o principal embaixador do que o treinador português tem vindo a conquistar. Gosto muito de olhar para aquilo que é o produto português. O Luís Freire e o Paulo Fonseca são os dois treinadores com quem me revejo mais, juntando o Rúben Amorim pela positividade e qualidade com  que trabalha as equipas.

Sofrer para subir, sofrendo... pouco

A formação de Loulé foi das equipas que consentiu menos golos, na atual edição do Campeonato de Portugal: foram 15 na fase regular e sete na de apuramento de campeão.

Na primeira etapa da campetição, apenas Vitória de Sernache (12) e Oliveira do Hospital (13) sofreram menos.  Na segunda, curiosamente só não foi melhor do que as referidas equipas (três e seis tentos contra, respetivamente), a que se juntou o Bragança (com cinco).

De facto, para subir um dos segredos, parace ser mesmo sofrer pouco - ainda que, noutro sentido da mesma palavra, seja de conhecimento geral que há que sofrer muito, para lograr tal feito... O especialista em promoções, Miguel Valença, que o diga!

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