Mundial
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Messi e Cristiano Ronaldo: o adeus de uma geração
Este Mundial pode ficar marcado por ser o adeus de alguns dos jogadores que definiram as últimas duas décadas do futebol mundial. A imagem mais marcante surgiu no jogo inaugural da Argentina. Lionel Scaloni emocionou-se ao substituir Messi e, no final, explicou porquê: «Eu chorei porque este é o último Campeonato do Mundo de Messi. Está a acabar e, sempre que penso nisso, começo a chorar. É um privilégio ver este homem jogar.»
Os reis: Messi e Ronaldo
Já dei por diversas vezes a minha opinião sobre a utilização de Ronaldo na nossa Seleção. Atualmente acrescenta pouco quando começa de início. Participa cada vez menos no processo ofensivo, reage pouco à perda de bola e os seus movimentos estão mais orientados para a procura do golo do que para servir o coletivo. Tudo isto não apaga aquilo que foi, pelo contrário.
Talvez seja por isso que olho para este Mundial com a mesma emoção com que Scaloni olhou para Messi ao substituí-lo. Pode ser a última vez que vemos estes dois jogadores num Campeonato do Mundo. No caso de Messi, continua a impressionar a forma como ainda consegue deslumbrar. Se este for realmente o seu último Mundial, será recordado exatamente pelo que sempre foi: um génio do jogo. No caso de Ronaldo, existe o risco de quem não o viu nos seus melhores anos ficar com uma imagem incompleta de um jogador que marcou o futebol mundial durante duas décadas.
É também por isso que é tão importante saber fechar ciclos. Ronaldo ainda pode ser uma peça importante nesta competição, mas provavelmente num papel diferente. Algo semelhante ao que Lukaku fez frente ao Egito: entrar nos últimos 20 ou 30 minutos, agitar o jogo, empurrar a equipa para a frente e enfrentar adversários já desgastados.
Mesmo assim, a última imagem dificilmente fará justiça ao jogador extraordinário que foi durante tantos anos. Seja como for, para quem gosta de futebol, este Mundial pode representar o encerramento de uma era. Durante duas décadas, Messi e Ronaldo dominaram o jogo como poucos na história. Foram as grandes atrações. Alimentaram-se um do outro. Obrigaram-se mutuamente a superar limites que pareciam impossíveis. Quem teve o privilégio de acompanhar as suas carreiras viu a história ser escrita semana após semana.
O Príncipe Modric
Um pouco abaixo dos dois reis das últimas duas décadas surge Modric. Um jogador cerebral, inteligente, dotado de uma visão de jogo e de uma qualidade técnica extraordinárias. Foi rei e senhor na Croácia e tornou-se uma lenda do Real Madrid. Sempre pensou o jogo antes dos outros. Sempre encontrou espaços onde poucos os conseguiam ver. Ao longo da carreira demonstrou uma serenidade rara nos momentos de maior pressão. Modric não corre, desliza pelos relvados.
Num futebol cada vez mais físico e acelerado, foi a inteligência que o distinguiu. Sem ter uma enorme estatura, conseguiu-se sempre impor numa zona do relvado onde as disputas são normais. Provou que o jogo continua a pertencer aos que pensam mais depressa e executam melhor. O adeus de Modric às grandes competições de seleções não deve ser ofuscado por Messi ou Ronaldo. No futebol há espaço para todos, sobretudo para aqueles que são especiais.
O mágico Neymar
Vamos ver se o craque brasileiro se vai conseguir despedir das grandes competições dentro do relvado. Neymar fez uma bela carreira, mas é daqueles jogadores que deixam a sensação de que podiam ter ido mais além. Tinha um talento raro. Foi um dos jogadores mais criativos da sua geração. Havia sempre algo de imprevisível no seu jogo. Um drible, uma finta, um passe ou um gesto técnico que mais ninguém via. Durante muitos anos foi o rosto do futebol brasileiro. Por tudo isso, fica a sensação de que podia ter atingido o nível de Messi ou Ronaldo. O talento estava lá. O que lhe faltou foi ter a mesma dedicação diária à profissão e a mesma obsessão pela excelência que caracterizou os dois grandes rivais desta geração.
O arquiteto De Bruyne
Mais um jogador incrível. Deixou saudades em Inglaterra ao serviço do Manchester City e vai deixar saudades na sua seleção. De Bruyne dentro do campo perdia a aparente timidez. Tem uma visão de jogo inacreditável. Tem a capacidade de tornar as coisas simples. Pensa mais rápido e executa com muita qualidade. Ao longo da carreira afirmou-se como um dos melhores médios da sua geração. Os seus remates fora da área vão deixar saudades, mas sobretudo os passes que mais ninguém via.
Neuer, Dzeko, Salah e Lukaku
Estes quatro também se devem despedir este ano das grandes competições. Neuer teve uma carreira fantástica. Mudou a forma como olhamos para os guarda-redes. A sua capacidade para jogar longe da baliza e participar na construção ajudou a redefinir a posição. Dzeko foi a maior figura da história do futebol bósnio. Um ponta de lança inteligente, competitivo e difícil de marcar, que se afirmou durante muitos anos ao mais alto nível. Salah é o príncipe do Egito. Tornou-se uma referência do Liverpool e uma inspiração para milhões de adeptos no mundo árabe. Foi um dos jogadores mais influentes da sua geração. Lukaku é uma força da natureza. Nem sempre recebeu o reconhecimento merecido, mas foi uma peça determinante da melhor geração belga das últimas décadas. A expressão a técnica da força encaixa-lhe na perfeição.
Harry Kane: subvalorizado
Guardei Harry Kane para o fim. É provável que ainda o vejamos no próximo Mundial, mas esta é uma boa oportunidade para falar de um dos jogadores mais subvalorizados da sua geração.
Parece-me que o futebol nunca lhe deu a dimensão que merece. É um jogador fantástico. É um 10 e um 9 em simultâneo. Tem qualidade de passe, visão de jogo e uma capacidade rara para fazer jogar a equipa. Sabe recuar, ligar setores e organizar como um médio. Ao mesmo tempo, finaliza dentro e fora da área, de pé esquerdo, de pé direito e de cabeça.
Também é o primeiro defesa das suas equipas, sempre disponível para o esforço coletivo. Talvez por não ter o brilho de outros ou por não ter construído a sua carreira rodeado da mesma mediatização, de uma forma injusta, passa muitas vezes ao lado dos holofotes.
Para mim, é o avançado mais completo da atualidade. Quando esta geração for recordada, Harry Kane merece ser lembrado entre os grandes nomes que marcaram esta era.
O futebol tem a particularidade de poder mudar vidas. A carta que escreveu para a sua falecida irmã devia ser lida por todos.
Não faz sentido o presidente da FPF escrever uma mensagem no seu instagram com o jogo de Portugal a decorrer. Ou ele ou quem lhe gere as redes deviam ter mais cuidado.