Festa encarnada começou cedo na Luz. Foto Miguel Nunes
Festa encarnada começou cedo na Luz. Foto Miguel Nunes

Meio turno de alta qualidade na fábrica nacional do golo (crónica)

Superioridade imensa do Benfica podia ter resultado em vantagem maior, mas a eliminatória parece garantida e a média de golos continua elevadíssima

O Benfica deu passo e meio rumo à fase de liga da UEFA Europa League graças a uma primeira parte demolidora e uma segunda apenas completamente dominadora, mas sem golos. Segue em grande a principal fábrica portuguesa de golos, que leva 25 em sete jogos, média superior a 3,5 por partida. É obra ofensiva — veremos, em testes de maior exigência inevitavelmente a caminho, que solidez defensiva corresponde a este pendor atacante.

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Marco Silva não promoveu surpresas no onze nem qualquer rotatividade, o que faz todo o sentido numa altura em que a época vai a iniciar-se e o mais importante, mesmo, é criar rotinas. Lá virá o tempo das poupanças e das gestões, se tudo correr bem durante vários meses. Para já, é hora de consolidar.

Se todos os jogos fossem como o de Rio Maior, na última segunda-feira, o Benfica teria chegado ao intervalo a ganhar por cinco ou seis golos de diferença. O domínio foi de tal forma intenso — e assinalado logo aos dois minutos com o 1-0 — que as oportunidades de golo foram-se sucedendo. Só que desta vez a pontaria não estava tão afinada, o guarda-redes contrário pôde fazer um pouco melhor e os encarnados não materializaram em golo cada chance, como afinal acontece na maior parte das vezes.

A ala direita benfiquista mostrou serviço desde o início e era sobretudo por ali, com as combinações Leandro Barreiro-Bah-Rafa, que o perigo ia nascendo, muito embora os desequilíbrios constantes de Prestianni na esquerda também não deixassem descansar os dinamarqueses.

Barrenechea chegava e sobrava para as encomendas do meio-campo defensivo, o que libertava Barreiro para a meia direita e fazia descair Sudakov mais para a esquerda, num esquema que na prática se plasmava em 4x1x4x1 e se adivinha para o futuro próximo quando, na maioria dos jogos, João Palhinha assumir sozinho as despesas da posição 6 encarnada para a equipa fazer o que melhor sabe: atacar.

Era muito movimento no meio-campo, demasiada informação para processar pelas linhas defensivas do Aarhus, por mais próximas que tentassem estar. De erro em erro (dinamarquês) e de virtuosismo em virtuosismo (português) se ia escrevendo a história da primeira parte. Chegou o 2-0 e não chegaram mais por razões já explanadas.

Mas já dizia um sábio amigo meu: «Cuidado que a bola é extremamente redonda!» E de tão redonda que é pode, de repente, caminhar por sítios imprevistos. Aos 36 minutos, na única jogada articulada de ataque do Aarhus, a defesa do Benfica facilitou (provavelmente não conseguiu arrancar, mal tinha entrado em ação...) e Jorgensen reduziu para 1-2.

O golo fortuito entusiasmou minimamente os dinamarqueses, mas o gás não deu para mais que alguns espasmos. O Benfica retomou a liderança das operações sem problemas de maior e, em cima do apito para descanso, surgiu um penálti-VAR, por mão na bola, que Pavlidis não desperdiçou.

A fábrica continuou a laborar no segundo tempo, mas já em ritmo de sexta-feira à tarde naquelas empresas em que existe a casual friday e até se admite maior informalidade na vestimenta. O Benfica dominou sempre, mas teve muito menos oportunidades e não voltou a marcar. O Aarhus foi igual: quase zero em termos ofensivos e só relativamente competente a defender.

Dentro de uma semana, só uma enorme hecatombe (e teria mesmo de ser enorme hecatombe, não apenas um ou dois percalços) tirará os encarnados da fase a doer da UEFA Europa League.

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