Saúde oral interfere no rendimento dos atletas - Foto: IMAGO
Saúde oral interfere no rendimento dos atletas - Foto: IMAGO
Adicione A BOLA às suas preferências do Google

A saúde oral também entra em campo

Esta Tribuna Livre é da responsabilidade de André Júdice, médico dentista, docente universitário, doutorando e investigador em Medicina Dentária Desportiva; coordenador da Pós-Graduação em Medicina Dentária Desportiva e responsável pelo Departamento de Medicina Dentária Desportiva da Clínica Dentária Egas Moniz

No desporto de alto rendimento, quase todos os detalhes são avaliados. Monitorizam-se cargas de treino, composição corporal, sono, nutrição, recuperação, risco de lesão e disponibilidade competitiva. Contudo, a saúde oral continua frequentemente ausente da avaliação integrada do atleta.

Esta omissão não é coerente com um modelo moderno de gestão da saúde e do desempenho. A boca não funciona isoladamente do restante organismo e uma doença oral não deixa de existir apenas porque o atleta não sente dor.

A Medicina Dentária Desportiva vai muito além da confeção de protetores bucais ou da resposta a um traumatismo durante uma competição. Inclui avaliação clínica, prevenção, tratamento, acompanhamento durante a época, educação para a saúde, gestão do risco nutricional, resposta a situações urgentes e articulação com os restantes profissionais que acompanham o atleta.

A cárie dentária, a inflamação gengival, o desgaste dentário, as infeções, a dor orofacial e os traumatismos podem afetar o conforto, a alimentação, o sono, a concentração e a disponibilidade para treinar ou competir. Isto não significa afirmar que o tratamento dentário melhora automaticamente o rendimento desportivo. Significa reconhecer que um atleta com dor, inflamação ou infeção não se encontra nas melhores condições possíveis de saúde.

Num estudo desenvolvido pelo nosso grupo e publicado na revista Scientific Reports, avaliámos 114 atletas de elite. Os resultados demonstraram que 55,1% apresentavam comprometimento periodontal, predominantemente gengivite, e 47,4% tinham cárie dentária. Mais de metade dos atletas apresentava dois ou mais achados orais em simultâneo.

Um dos resultados mais importantes foi a ausência de uma correspondência clara entre a condição clínica e a perceção dos próprios atletas. Muitos valorizavam a sua saúde oral e não referiam um impacto significativo na qualidade de vida, apesar de apresentarem doença identificada através da observação clínica.

Esta aparente contradição transmite uma mensagem relevante: a ausência de sintomas ou de uma queixa não é sinónimo de saúde. Esperar que um atleta tenha dor para intervir significará, muitas vezes, atuar demasiado tarde. Os resultados reportados pelo atleta são fundamentais, mas devem complementar, e não substituir, a avaliação realizada por profissionais preparados.

Num segundo estudo, publicado na revista Nutrients, foram avaliados 80 atletas, com particular atenção à cárie, ao desgaste dentário erosivo e aos hábitos nutricionais. Metade apresentava cárie e 40% evidenciavam erosão dentária. Cerca de 15% referiram que a sua condição oral já tinha afetado o treino e 12,5% indicaram impacto na competição.

A nutrição desportiva representa um desafio específico. As bebidas desportivas, os géis e outros produtos ricos em hidratos de carbono podem ser necessários para responder às exigências energéticas do treino e da competição. Não compete ao médico dentista eliminar de forma isolada uma estratégia definida para apoiar o rendimento e a recuperação.

A solução passa por trabalhar com o nutricionista e adaptar a prevenção à modalidade, à duração do esforço, à frequência de consumo e ao risco individual do atleta. A utilização adequada de flúor, a redução da frequência de exposição quando nutricionalmente possível, o consumo de água após produtos ácidos ou açucarados e a orientação sobre o momento da escovagem são exemplos de medidas que podem reduzir o risco sem comprometer a estratégia desportiva.

A pré-época constitui uma oportunidade privilegiada para realizar uma avaliação médico- dentária estruturada. Permite identificar focos de doença, estabelecer prioridades e programar tratamentos que podem exigir algum tempo de recuperação antes do início da competição.

Uma extração, uma cirurgia, um tratamento endodôntico ou uma infeção aguda têm consequências diferentes consoante sejam geridos durante a pré-época ou na véspera de um jogo decisivo. Antecipar estes problemas é proteger a saúde do atleta e reduzir a possibilidade de situações evitáveis interferirem com o treino ou com a competição.

Contudo, a avaliação de pré-época não pode ser uma ação isolada. Deve constituir o início de um ciclo permanente: avaliar, identificar o risco, definir prioridades, intervir, acompanhar e reavaliar.

Não é suficiente observar dezenas de atletas, produzir um relatório e não garantir que os problemas identificados são tratados. O rastreio só tem verdadeira utilidade quando existe comunicação dos resultados, um plano preventivo individualizado, acesso a tratamento e uma via de acompanhamento ao longo da época.

Sempre que exista autorização do atleta, a informação clinicamente relevante deve ser articulada com a equipa médica, respeitando a confidencialidade e a autonomia individual. O médico dentista deve compreender a organização do clube e trabalhar em conjunto com médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, fisiologistas e demais profissionais.

Durante a época competitiva, a intervenção deve adaptar-se às necessidades do atleta. Perante uma dor aguda, infeção ou traumatismo, a decisão clínica deve considerar o diagnóstico, a segurança, a medicação necessária, as regras antidopagem e o tempo previsto para a recuperação.

A prevenção do traumatismo também exige mais do que a entrega de um protetor bucal. O dispositivo deve ser indicado de acordo com a modalidade e o risco, confecionado individualmente, confortável, retentivo e revisto ao longo do tempo. As equipas devem ainda saber como atuar perante uma fratura ou avulsão dentária, porque os primeiros minutos podem ser determinantes para o prognóstico.

A avaliação funcional do sistema estomatognático pode igualmente complementar a observação clínica, através da análise da força de mordida, da atividade muscular, da dor, da mobilidade e de outras variáveis. No entanto, estes resultados devem ser interpretados com rigor. A Medicina Dentária Desportiva não pode basear-se em promessas simplistas de aumento do rendimento que não estejam sustentadas por evidência científica.

A tecnologia poderá ajudar a tornar a avaliação mais eficiente. Num estudo de validação realizado com radiografias panorâmicas de 114 atletas, um software assistido por inteligência artificial apresentou concordância completa com a referência clínica em 86% dos casos.

Este resultado demonstra potencial, mas também exige prudência. Foram identificados falsos positivos e limitações na deteção de algumas condições. A inteligência artificial pode funcionar como uma segunda observação e ajudar a sinalizar áreas que necessitam de maior atenção, mas não substitui o exame clínico nem a decisão do médico dentista.

Na Egas Moniz, mais de 500 atletas profissionais já foram avaliados e acompanhados no âmbito da atividade assistencial desenvolvida ao longo dos últimos anos. Atualmente, este trabalho inclui relações protocolares com três equipas da Primeira Liga portuguesa e com estruturas como a Federação Portuguesa de Basquetebol.

A experiência acumulada permitiu desenvolver um modelo que articula assistência clínica, investigação, formação e ligação ao terreno. Permitiu também confirmar que a Medicina Dentária Desportiva exige preparação específica, capacidade de integração e continuidade dos cuidados.

Associar uma marca a um atleta ou a um clube não é, por si só, praticar Medicina Dentária Desportiva. O patrocínio pode ser legítimo e contribuir para aumentar o acesso aos cuidados, mas não substitui a formação, os protocolos clínicos, a integração multidisciplinar, o tratamento e o acompanhamento longitudinal.

Da mesma forma, uma fotografia com um atleta não demonstra a existência de um programa de saúde. A comunicação deve ser uma consequência do trabalho clínico realizado e não o seu substituto. O atleta não pode ser utilizado apenas como veículo de promoção de uma instituição.

Os clubes investem valores muito significativos na contratação, preparação e recuperação dos seus jogadores. Neste contexto, não faz sentido manter a saúde oral como um ponto cego. Integrar uma avaliação médico-dentária na pré-época representa uma medida concreta, preventiva e relativamente simples dentro da gestão global da saúde.

O futuro da Medicina Dentária Desportiva não será construído apenas através de visibilidade. Será construído através de ciência, competência, ética e compromisso continuado com a saúde dos atletas.

A saúde oral também faz parte da saúde. E, no desporto, também entra em campo.

A iniciar sessão com Google...