Afinal, o futebol pode ser coletivo
Quatro jogos, quatro vitórias, nos dois terços iniciais da fase de grupos da Liga das Nações, colocaram Portugal, desde já, nos quartos de final da competição de que é campeão em título.
Mas há jogos e jogos e cada um deles é o próprio e a sua circunstância. E como foram diversas as circunstâncias, para Portugal, ao longo destes 360 minutos. Jorge Jesus começou com o modelo de Roberto Martínez e obteve uma vitória justa, mas anémica, sobre o País de Gales; depois, introduziu, em Oslo, as suas próprias ideias, com pressão alta e futebol atacante, de alas bem abertas, e derrotou, fora de portas, a seleção que eliminou o Brasil no Mundial de 2026; seguiu-se a crise com CR7 e a resposta surgiu em forma de grande exibição, solidária e personalizada, que valeu um triunfo em Copenhaga onde, nos últimos anos, só a Espanha passara; e, com um discurso já voltado para colocar nas costas de Ronaldo o ónus de fumar o cachimbo da paz, novo triunfo, no Dragão, frente aos noruegueses, após 90 minutos de trabalhos forçados, que tiveram um acréscimo inesperado com a expulsão infantil de Francisco Conceição.
A Seleção de Portugal foi uma verdadeira equipa, cada um quis saber dos companheiros antes de saber de si próprio, não houve quem recusasse uma corrida para trás, no momento defensivo, e o talento individual e as movimentações coletivas possíveis nesta fase embrionária do trabalho de Jesus foram, naturalmente, de menos a mais ao longo destes quatro jogos. Estamos a assistir ao começo de um novo ciclo? Não tenho qualquer dúvida disso, de olhos postos em 2030.
Felipe Melo, 43 anos, ex-jogador internacional pelo Brasil, com passagens por Espanha, Itália e Turquia, publicou uma reação nas redes sociais, em defesa de Cristiano Ronaldo, onde dizia que nenhum dos outros jogadores da Seleção Nacional lhe chegava aos tornozelos. CR7 respondeu com um ‘gosto’, deixando claro como se via face aos companheiros da turma das quinas. Quando se fala numa forma digna de o jogador do Al-Nassr se despedir da equipa de todos nós, ficou claro que Ronaldo não valoriza essa vertente e insiste em deitar sal na ferida aberta por tudo o que sucedeu depois do Noruega, 1-Portugal, 2.
No fundo, devemos estar gratos a Cristiano Ronaldo por não esconder o que pensa dos companheiros de percurso na Seleção Nacional, o que nos leva a perceber que o mal-estar instalado transcendia em muito Jorge Jesus. Mas mais lhe devemos agradecer o facto de, com este simples ‘gosto’, ter unido ainda mais a turma das quinas, dando-lhe uma motivação extra. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de criar condições para uma saída limpa de CR7, caiu pela base. A não ser que, para o jogo de homenagem (contra a Arábia Saudita, sem dúvida), a Federação Portuguesa de Futebol conceda a Cristiano Ronaldo a faculdade de ser selecionador, treinador e capitão (e mesmo assim terá dificuldade em encontrar dez jogadores que queiram fazer parte da sua equipa).
Muito se tem falado do prejuízo para a FPF provocado pelo adeus intempestivo de CR7. Não vejo como, a não ser na virtualidade das redes sociais. No que respeita aos vários contratos em vigor até 2030, a FPF não recebe mais ou menos por ter CR7 (e era sabido que o jogador do Al-Nassr terminaria a carreira em 2027, três anos antes do termo desses compromissos); e a questão dos ‘cachês’ dos jogos particulares, a partir do momento em que a Liga das Nações veio ocupar as datas FIFA consagradas aos embates a feijões, deixou de se colocar. Portanto, o que tem sido dito sobre a influência da marca CR7 nas contas federativas não passa de poeira para os olhos: e tenho a certeza de que os adeptos da Seleção Nacional, que com a qualidade que possui continuará a apurar-se para as grandes competições internacionais, vão continuar ao lado da equipa.
É verdade que o adeus rocambolesco de Cristiano Ronaldo à Seleção provocou uma onda mediática a nível planetário. O que não significa que tenha existido um movimento de solidariedade com o antigo astro madeirense. Pelo contrário. Cristiano Ronaldo constará nos livros da história do futebol como um dos melhores intérpretes de sempre. Mas também será lembrado, em nota de rodapé, como alguém que não teve noção das suas crescentes insuficiências e terminou a carreira como caricatura do gigante que foi. Creio que a Proença e JJ fazem bem em tentar encontrar-lhe um adeus digno à Seleção Nacional, embora me pareça - e talvez esteja enganado - que nem o próprio estará interessado em entendimentos.
Talvez o maior favor que a FPF lhe faça, em nome de tudo o que, desde 2003, representou para Portugal, seja não agir disciplinarmente contra ele junto da FIFA, o que seria absolutamente normal depois da deserção que protagonizou, e dessa forma permitir-lhe que chegue aos desejados 1000 golos. E há uma coisa que parece pacífica: face ao Regulamento Disciplinar da FPF, a situação de Cristiano Ronaldo é, neste momento, de jogador suspenso automaticamente.
A FPF está a tentar criar condições para um adeus digno de CR7 à Seleção. Mas é um pouco como a canção de Rui Veloso: na Cidade do futebol sabe-se que Cristiano Ronaldo não gosta, mas mesmo assim quer-se empenhar o anel de rubi, para levá-lo ao concerto do Rivoli. Do ponto de vista político, o que a FPF (atenção ao Regulamento Disciplinar, repito, que é perentório) está a ensaiar é inteligente, remetendo para CR7 a decisão de querer conversar sobre tudo o que aconteceu nos últimos dias, na linha, aliás, do que foi dito pelos jogadores, antes e depois do jogo. Porém, parece-me que foram ultrapassadas linhas vermelhas, que tornam qualquer entendimento, que transcenda a hipocrisia, impossível. Imagine-se, por absurdo, que Ronaldo pedia desculpa (alguém antecipa esse cenário?), cumpria a sanção decorrente da deserção de Copenhaga e voltava a ser convocado por Jorge Jesus. Depois do que disse dos companheiros (o ‘gosto’ a Felipe Melo), alguma vez seria bem aceite pelo grupo? E mais: sabia-se que CR7 já não tinha lugar no melhor onze de Portugal há vários anos; logo, será crível que ele viesse para aceitar jogar quando houvesse espaço para o pouco que ainda tem para dar?
Deixemo-nos de eufemismos. Cristiano Ronaldo, com jogo de homenagem ou sem jogo de homenagem, hipotecou o adeus à Seleção Nacional, que tudo o que fez por Portugal justificaria. Estamos perante um ‘citizen Kane’ que vai, mais ano, menos ano, deixar de ter o mundo a seus pés, nos termos que conhecia.