Antigo avançado foi um dos embaixadores da Liga em jogo na prisão da Carregueira

Liga levou futebol à prisão: «Cuidado eu? Cuidado eles!»

Embaixadores da Liga deram manhã diferente aos jogadores da prisão da Carregueira

Jorge Andrade, Edinho, Carlos Fernandes, Meyong e Kléber, embaixadores da Liga Portugal, juntaram-se para suar a camisola, talvez mais do que esperavam, numa iniciativa da Fundação do Futebol, no Estabelecimento Prisional da Carregueira, nos arredores de Lisboa, para um jogo com uma seleção de reclusos. Um projeto piloto, que a Liga pretende replicar noutros estabelecimentos.

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O pátio da Ala A da cadeia foi o palco e, desde logo, necessário recorrer ao improviso: o previsto cinco para cinco foi transformado em equipas mistas; os guarda-redes das equipas da prisão, que tem cerca de 900 reclusos, assumiram os lugares, sem luvas mesmo, empurrando Carlos Fernandes para o campo; além de equipamentos, a Liga enviou bolas, mas acabou por jogar-se com as locais, mais habituadas ao cimento.

A iniciativa - ‘Futebol sem Muros’ -, em preparação há três meses, tem um objetivo bem claro: usar o desporto como ferramenta de reintegração social dentro do sistema prisional e correu de tal forma bem que o árbitro Pedro Henriques, que já teve outras iniciativas no estabelecimento, mostrou um cartão branco a todos, antes de a partida fechar com um 6-3 para a equipa onde ficaram Jorge Andrade e Meyong. Um gesto ancorado numa simbologia fácil de entender: integração. No final, autógrafos para muitos e memórias para vários dias.

Pedro Henriques, que correu quilómetros na linha, estava com emoções à flor da pele: «A Liga está a fazer aqui um teste piloto no sentido de poder vir a estabelecer um protocolo, mas para mim é a quarta vez. Já dei palestras, fiz outro jogo. Temos este dever e esta obrigação de estar presentes e ajudar. Saio daqui sempre de alma e de coração cheio, ou seja, os meus problemas não existem, há problemas muito maiores acima de nós. Destaco o grande fair-play que toda a gente mostrou, que os reclusos mostraram, e sobretudo o compromisso, porque eles sabem que se nós dizemos que voltamos, nós voltamos, e para eles isso tem valor - é muito importante para que possam levar estes valores para a vida. Acho que porque é um dia muito cheio, é uma manhã muito cheia, e eu estou muito emocionado com isto.»

Entre jogadores e espectadores, cerca de 60 pessoas no pátio. Muitas mais às janelas, atrás de grades, lembrando-nos sempre onde estávamos. 

Jorge Andrade é generoso com todos. E foi para competir. «Fomos jogadores que eles se identificam, quase todos viram-nos jogar. Isto é super importante, estarmos em contato com eles. Um tempo precioso, num dia fantástico. Tudo correu bem. A bola ao rolar, uma grande arbitragem. Pedro Henriques, sempre o maior. Acho que foi um dia muito bom e hoje este dia fica mais leve até para eles. Contei à minha filha, ‘vou jogar à prisão’. Ela respondeu, ‘cuidado’ e eu disse, ‘cuidado eles’!. Quem joga à bola é como profissional. A ideia era jogar futebol, estar com eles. Aqui o futebol joga-se bem, tinham ali um craque de São Tomé. Mas foi um grande jogo. E vamos para casa agora com o coração cheio e com vontade de voltar aqui para a outra ala que não teve direito de jogar.»

A manhã foi ficando cada vez mais quente, mas no pátio da Ala A pedia-se «mais garra». A jogar com miúdos, os embaixadores foram rodando em campo, mas sempre empenhados. Que o diga Edinho, que apesar do cansaço, teve tempo para improvisar uma intervenção para A BOLA.

«Tirámos um pouco do nosso tempo para ganhá-lo aqui com esta oportunidade de estar com os reclusos aqui fechados e de eles nos conhecer. Muitos deles viram-nos jogar e foi gratificante. Muitos conheciam mesmo a minha história, falavam de alguns golos que eu marquei. Portanto, poder passar uma mensagem de força para as oportunidades que vão surgir depois de cumprirem o seu tempo. Temos um papel preponderante no futebol. Somos exemplos e prova disso é que hoje os receberam muito bem, com muito carinho. Conheciam aquilo que eu fazia, identificavam-se comigo e isso também acaba por ser gratificante e encheu-me de coração para continuar a passar, a inspirar e a motivar quem nos vê. E nós, como embaixadores, procurar sempre dar-lhes esta palavra, mostrar que estamos presentes para ajudar, para agarrar e para lhes dar outro seguimento também. Foi muito competitivo, há muito valor aqui e deu para ver. Não foi a feijões como pensávamos, deu para suar. Se soubesse, não tinha ido treinar de manhã antes de vir porque deu trabalho. Os guarda-redes eram os mais empenhados. Se eu saltasse e caísse neste chão, Deus me livre... Mas lá está, dizem que os guarda-redes ou são loucos ou são... Não posso dizer aqui… (risos)»

Aproxima-se a hora de almoço e a prisão precisa de voltar à rotina. Os visitantes devem sair e os reclusos voltar às restantes atividades - uns trabalham, outros estudam. Depois de uma pausa para respirar, o brasileiro Kléber falou da importância de um momento destes para os reclusos. «Penso que é para poderem entender que se comportarem, se tiverem bem, vão ter oportunidades de ter coisas engraçadas, vão preparar coisas para todos possam participar e ser reintegrados. É bom poder entender o lado deles, sei que todos estão aqui para se poderem reintegrar na sociedade, então foi muito importante esse dia, sair da nossa zona de conforto, mas a partir do momento que entrámos aqui fomos muito bem recebidos por todos, foi uma manhã muito engraçada, gostei muito, espero que tenha sido importante para eles também. Foi mais difícil do que pensava, têm bons jogadores, correm bastante, os meninos são jovens, estão bem fisicamente, correram bastante e para nós que já não praticam tanto o futebol como eles, foi muito bom, saio daqui cansado, exausto.»

O jogo acaba, águas para todos, abraços, autógrafos. Carlos Fernandes deu as luvas que não chegou a usar, impressionado com os guarda-redes presentes, ao mesmo tempo que demorou a encaixar a importância de estar entre pessoas privadas de liberdade. «É extremamente difícil para mim perceber as pessoas que estão ali a ver o jogo pelas grades... É louvável porque demos um dia diferente aos que cá estão. Por isso é louvável esta ação e para nós é um privilégio podermos estar aqui. Eles foram extremamente simpáticos e afáveis. Fomos muito bem recebidos. Numa fase inicial não sabia como haveria de interagir com eles, mas facilmente conseguimos, são pessoas normais que cometeram um erro e por isso é que estão aqui.» O antigo guarda-redes reconheceu ali valor. «Fiquei surpreendido, eles estiveram muito bem, sobretudo neste piso, é de tirar o chapéu, deixei ali as minhas luvas…»

Para quem orienta, também é um momento de orgulho. «Espero que vejam como uma motivação, ficaram obviamente muito contentes e inspirados, e o impacto será positivo também na postura deles e no espírito na zona prisional», resumiu Joana Rodrigues, diretora do estabelecimento prisional há dois anos.

Orlando Carvalho, Diretor-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, vê este tipo de iniciativa como um evento agregador: «O futebol é uma atividade que todos, ou pelo menos uma grande parte das pessoas praticou, pratica, gosta e, portanto, permite momentos de inclusão, porque quando se joga ou quando se assiste são exatamente todos iguais. Essa partilha de momentos e de sensações é fundamental para o crescimento e para a estruturação da personalidade.»

O pátio ficou rapidamente vazio, presentes apenas os portadores de crachá de «visitante». Para esses o dia continuou noutros lugares, mas as memórias maiores ficaram com eles lá dentro.

Imagens: Mariana Tenório