Liga francesa vale apenas 112,5 milhões e o Senado quis saber porquê
Em contraste com o sucesso do PSG, que vai tentar o bicampeonato europeu dentro de algumas semanas, o futebol francês vive o seu momento mais dramático. O que começou como uma promessa de El Dorado com a entrada da Mediapro em 2018 transformou-se numa espiral recessiva que, para a temporada de 2026-2027, prevê uma distribuição líquida de apenas 112,5 milhões de euros para os 18 clubes da elite. Ou seja, o último classificado da Premier League recebe, sozinho, mais do que toda a liga francesa unida.
A crise que assola o futebol francês não é fruto de um único golpe de azar, mas sim o resultado de uma tempestade perfeita onde decisões estratégicas arriscadas colidiram com um mercado de media em mutação acelerada. Para entender por que razão o dinheiro desapareceu das contas da Ligue 1, é preciso olhar para além dos números e dissecar as escolhas que hipotecaram o futuro dos clubes.
O primeiro grande entrave à recuperação financeira é o chamado Efeito CVC. Numa tentativa desesperada de injetar capital imediato após o impacto devastador da pandemia, a Liga (LFP) vendeu 13% das suas receitas comerciais perpétuas ao fundo CVC Capital Partners. O que na altura pareceu um balão de oxigénio transformou-se, em 2026, num custo fixo asfixiante. Hoje, uma fatia considerável de cada euro gerado não chega sequer a entrar no clube; vai diretamente para os cofres do fundo, reduzindo drasticamente a margem de manobra dos clubes.
A esta hemorragia interna somou-se o colapso da DAZN. A plataforma, que chegou com o rótulo de Netflix do Desporto, não conseguiu convencer o adepto francês. Entre preços de subscrição proibitivos e o crescimento galopante da pirataria, o projeto naufragou, culminando na rescisão do contrato em 2025. Sem alternativas no mercado tradicional de transmissão, a Liga foi empurrada para uma solução de tudo ou nada: a criação de um canal próprio, o Ligue 1+. Sob a batuta de Nicolas de Tavernost, a LFP Media eliminou os intermediários para tentar captar a receita direta do consumidor. Contudo, apesar de ter atingido a marca de um milhão de subscritores em 2025, a operação carrega custos de produção e distribuição massivos que diluem o lucro final.
O impacto desta erosão financeira já se sente de forma aguda no relvado. A crise deixou de ser meramente contabilística para se tornar uma crise de competitividade. Com o campeão nacional a arrecadar apenas 11,7 milhões de euros em direitos domésticos e o último classificado a sobreviver com 3,6 milhões, o modelo de negócio foi forçado a uma mutação perigosa. Os clubes franceses abdicaram da ambição desportiva a longo prazo para se tornarem meros entrepostos de talento. Vender as suas maiores promessas no mercado de verão já não é uma opção estratégica, mas sim a única forma de garantir o pagamento de salários e a licença de competição.
Este cenário de vender para sobreviver cavou um abismo entre a França e as restantes ligas Big Five. Enquanto Inglaterra, Espanha, Alemanha e Itália mantêm ou expandem o seu poder de retenção de estrelas, a Ligue 1 assiste a uma fuga de talentos sem precedentes.
Hoje, o Senado francês ouviu os dirigentes da LFP numa tentativa de apurar responsabilidades e perceber como é que um produto com tanto potencial perdeu tanto valor em menos de uma década. A questão central que paira sobre o futebol gaulês é se o canal Ligue 1+ será o início de uma recuperação histórica ou apenas o último capítulo de uma queda livre. Por agora, o cenário é alarmante: o futebol francês está a tentar reaprender a dar os primeiros passos, enquanto os seus vizinhos europeus já correm a alta velocidade em direção ao futuro.