Leão tomou dois comprimidos leves contra a depressão severa (crónica)
O Sporting enfrentou o Marítimo sob um clima de instabilidade emocional severa — de depressão declarada — e, na noite de Alvalade, cumpriu a obrigação de carimbar o passaporte para a Final Four da Allianz Cup. Ainda assim, os sinais de inconstância mantêm-se bem visíveis. No fundo, o leão tomou dois comprimidos para tentar sacudir a crise, mas foram meros ansiolíticos de baixa dosagem; precisará de muitas sessões de terapia e de longas horas no divã para sarar em definitivo.
Os velhos tiques de volubilidade rebentaram em pleno na reta final, já em cima da meta. Num cenário de controlo aparente — vencia por 2-0 —, em plena organização ofensiva, Samuel Justo perdeu a posse, Igor Julião galgou a ala direita com espaço e cruzou para Butzke, desprovido de marcação ao segundo poste, cabecear para o tento insular. Onde tínhamos assistido a uma condescendência quase idêntica? Resposta elementar: no domingo, diante do Académico de Viseu.
Daí em diante, restou apenas sofrer. Diga-se com franqueza: o desfecho só não derivou para os penáltis graças a duas tábuas de salvação para os de Alvalade. Primeiro, uma intervenção monumental de Rui Silva a travar o remate peçonhento desse concentrado de puro talento chamado Martín Tejón; no lance imediato, saído do pontapé de canto, Ayuma, isolado no coração da área, fez a bola parecer-lhe um corpo estranho e falhou o alvo de forma inacreditável.
Este foi o clímax do filme, mas a fita guarda mais episódios. O Sporting remodelou o onze por completo face à jornada anterior e nem sequer Luis Suárez, o santo padroeiro dos golos do leão, estava disponível no banco para uma intervenção de emergência.4
O ecossistema verde e branco surgiu contagiado pela pesada dúvida que paira sobre o futuro de Rui Borges ao leme do grupo — fatores determinantes para a atitude em campo. O técnico manteve o figurino tático em 4x3x3, mas com intérpretes totalmente alheios às rotinas recentes: a primeira fase de construção soluçou, a linha de pressão inicial falhou dinâmicas (com João Simões frequentemente desfasado) e multiplicaram-se os atores secundários demasiados ávidos por seduzir o realizador. O espetáculo tornou-se indigesto para o tribunal de Alvalade e, esgotada a tolerância dos primeiros trinta minutos, promulgou-se o decreto-lei do assobio.
Antes do coro de contestação, Jesse Derry viu um golo anulado por fora de jogo incontestável logo aos 6 minutos — teria espantado os fantasmas tão cedo? —, e Pedro Lima começou a rubricar a sua folha de serviços com um estrondo na barra (22’), momento em que o infortúnio lhe soprou à nuca com rara frieza. Na resposta, Julião surgiu solto ao segundo poste — um setor defensivo com mazelas bem familiares —, obrigando Rui Silva a mostrar serviço e a avisar Kaique de que a titularidade não será um passeio descansado.
Por esta altura, o leão tentava redigir um capítulo mais tranquilo no presente do indicativo, mas com tantas alterações estruturais a intempestividade acabou por suplantar a lucidez. Derry ainda acertou no ferro num livre direto (40’) e, pouco depois (43’), desenhou-se enfim uma jogada coletiva de categoria, travada por Gonçalo Tabuaço ao tiro de Pedro Lima. Contudo, os deuses da modalidade já haviam decidido o destaque do jovem brasileiro: na sequência do canto, o camisola 21 desferiu um cabeceamento fulminante e desbloqueou o marcador.
Na segunda metade, o Marítimo subiu linhas, mas o leão recompôs-se e travou as intenções da turma de Van der Gaag — até Julião reaparecer a testar reflexos a Rui Silva, que respondeu a nível imperial (69’). Pouco depois, nuima insistência, Pedro Lima dilatou para 2-0, gerando a ilusão de faturas pagas. O que se seguiu foi o já narrado: o sofrimento crónico deste leão que só sabe fechar jogos sob respiração assistida. O doente de Alvalade recuperou algum fôlego, é facto, mas continua sem pulmão suficiente para soprar as velas da crise.
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