Jordan Santos: cair, levantar, acreditar… e voltar a vencer
Num desporto feito de areia instável, Jordan construiu uma carreira sólida, recheada de títulos. Mas não foi um caminho linear. Foi feito de insistência, de dúvidas, de dor e de uma capacidade rara de continuar a acreditar quando tudo parece desmoronar.
A paixão pelo futebol de praia nasceu muito cedo. Cresceu junto ao mar, com a praia como cenário permanente:
− Passava os verões inteiros a jogar, de manhã à noite… muitas vezes com adultos.
Desde cedo, habituou-se a cair, a levantar e a lutar. A perder duelos físicos, a enfrentar jogadores mais velhos, a ser posto à prova. Talvez tenha sido aí que tudo começou verdadeiramente. Mais tarde, quando disse que queria ser profissional de futebol de praia, voltou a cair… desta vez no olhar dos outros. Chamavam-lhe louco.
Numa altura em que a modalidade não tinha a expressão que tem hoje, apenas nomes como Madjer, Alan e Belchior conseguiam viver do jogo. Tudo o resto era incerteza. Mas ele escolheu acreditar:
− Achava mesmo que podia ser um deles.
E aqui começa a verdadeira história de superação. Porque acreditar, quando tudo aponta no sentido contrário, é sempre o primeiro passo e muitas vezes o mais difícil.
Com 16 anos, treinava sozinho na praia. Sem aplausos, sem garantias de nada, sem certezas. Apenas com uma convicção: a de que podia chegar lá. Acreditou, insistiu e lutou.
Aos 17 anos, chega à Seleção Nacional. Mostra o seu valor. Ganha espaço. Cresce. Evolui. E, passo a passo, transforma um sonho improvável numa realidade concreta. Mas a vida e o desporto raramente permitem histórias perfeitas. Depois de atingir o topo em 2019, quando foi considerado o melhor jogador do mundo, voltou a cair. E caiu com força. Lesões graves, recuperação longa, dúvidas inevitáveis:
− No início foi a dor física… depois veio a parte mental. O ‘porquê eu?’
Depois de atingir o topo em 2019, quando foi considerado o melhor jogador do mundo, voltou a cair. E caiu com força. Lesões graves, recuperação longa, dúvidas inevitáveis:
− No início foi a dor física… depois veio a parte mental. O ‘porquê eu?’
Mais recentemente, voltou a enfrentar o mesmo cenário. Outra lesão. Outra paragem. Outra batalha invisível.
− Caí novamente no mesmo buraco. Podia reclamar, desistir ou parar. Mas a minha história já me ensinou demasiadas coisas para acreditar que acaba aqui. Voltar duas vezes torna tudo muito mais difícil. Mas também faz com que voltar a brilhar tenha ainda mais valor. Vou voltar. Mais preparado. Mais forte. E, desta vez, para ficar. Sentia que algo não estava bem. Mas não queria acreditar. Parecia injusto. Improvável. Mesmo assim, como campeão que sou, fui a jogo por Portugal. Sem ligamento. E ainda assim houve vitória e golo.
É aqui que muitas carreiras terminam. Não pela falta de talento, mas pelo desgaste invisível. Mas Jordan escolheu levantar-se outra vez:
− Nunca pensei em desistir.
A frase é simples, mas diz tudo sobre aquilo que ele é feito. Porque não se trata apenas de regressar fisicamente. Trata-se de reconstruir confiança, identidade, propósito. E isso exige mais do que treino. Exige crença.
Hoje, quando fala, sente-se essa transformação:
− Sinto-me mais forte mentalmente… estas quedas ensinaram-me muito.
Talvez seja essa a maior vitória. Porque cair faz parte. Levantar é uma escolha. Enquanto isso, à sua volta, o futebol de praia português continua a crescer. E não é coincidência. É consequência.
Recentemente, Portugal conquistou o Campeonato da Europa de Sub-20, ao vencer a Espanha por 9-3, em Viareggio. Uma vitória que mostra o presente, mas sobretudo o futuro da modalidade. Nessa equipa, surgem novos nomes que começam a escrever o seu caminho: Cristiano, eleito melhor guarda-redes, Pola, distinguido como melhor jogador, e Gonçalo Loureiro, melhor marcador com 11 golos. São sinais claros de crescimento. Mas também de continuidade. Porque antes deles, houve quem abrisse caminho. «Sinto que fiz parte desse crescimento», disse-me Jordan. E disse bem. Hoje, muitos jovens já não veem o futebol de praia como alternativa. Veem-no como destino. E isso deve-se, em grande parte, a exemplos como o dele.
Mas talvez o mais impressionante seja que, no meio de tudo isto, nada parece tê-lo mudado:
− Continuo exatamente a mesma pessoa.
Num desporto onde o sucesso pode facilmente desviar trajetos, Jordan mantém-se fiel às suas raízes. À família, aos amigos, aos valores. E é precisamente aí que encontra força para continuar:
− O que me motiva é a minha família… e a fome de ganhar.
Fome essa que não desaparece com os anos, nem com as conquistas. Pelo contrário, cresce.
No final da conversa, destacou os grandes nomes do futebol de praia português — Madjer, Alan, Belchior, Mário Narciso, Bruno Torres, Bê e Leo Martins, Pedro Mano, Rui Coimbra — e deixou uma mensagem simples, mas poderosa às novas gerações:
− Acreditem em vocês e trabalhem muito.
Mas houve outra frase que me ficou ainda mais:
− O mais importante é sermos melhores do que nós próprios.
Num mundo obcecado com comparações, esta ideia é quase revolucionária. E talvez seja isso que define Jordan Santos. Não apenas o talento. Não apenas os títulos. Mas a forma como enfrenta a queda. Cai. Levanta. Acredita. E volta a vencer. Porque há atletas que não são definidos pelos infortúnios, mas pela forma como insistem em voltar a levantar-se e o Jordan, tantas vezes, já nos mostrou que o verdadeiro triunfo não é nunca cair, é nunca deixar de acreditar que ainda há um caminho para ser trilhado e muito para conquistar.
Nota final: Um muito obrigado ao Jordan pela colaboração deste artigo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».