Jhon Durán ao serviço dos russos do Zenit - Foto: IMAGO

John Durán: a «classe mundial» que se sente atraída pelo precipício

Avançado colombiano de 22 anos estará a caminho do Benfica

Jhon Durán é alvo do Benfica. Marco Silva quer reforçar o ataque com um avançado de perfil diferente de Pavlidis e Ivanovic e os encarnados veem no colombiano o nome certo, por empréstimo do Al Nassr, clube de Cristiano Ronaldo e João Félix, que por ele pagou, em 2025, 77 milhões de euros. O jovem de apenas 22 anos tentaria, dessa forma, relançar a carreira na Luz. É que o talento inegável que demonstra dentro das quatro linhas tem esbarrado com frequência num temperamento intempestivo, muito difícil de controlar.

A ascensão de Durán começou a desenhar-se no seu país, ao serviço do Envigado. As boas exibições na Colômbia despertaram o interesse da MLS, com o Chicago Fire a garantir o seu concurso. Em janeiro de 2023, o Aston Villa investiu cerca de 17 milhões de euros para o levar para a Premier League. O impacto em Inglaterra foi imediato e o valor de mercado atingiu rapidamente os 40 milhões de euros. Às ordens do espanhol Unai Emery, assinou números impressionantes pelos villains em 2024/25, ao apontar 12 golos em 25 partidas, uma média notável de um golo a cada 78 minutos.

REFERÊNCIA NA ÁREA COM INSTINTO ASSASSINO

Jhon Durán preenche todos os requisitos do avançado moderno. Destaca-se, desde logo, pela impressionante capacidade de finalização. Trata-se de um rematador compulsivo, com um volume de remates por encontro que o coloca no topo dos avançados mais perigosos do futebol europeu. O seu habitat é a grande área adversária, onde manifesta um instinto apurado. Parece estar sempre no sítio certo.

Na Premier League, o sul-americano faturou sempre de forma muito regular, superando com facilidade as estatísticas de golos esperados (xG), o que se pode traduzir uma numa capacidade única para transformar meias-oportunidades em tiros certeiros. A sua definição de remate é considerada de elite, ou seja, de «classe mundial». Golpeia com potência, velocidade e precisão. Faz de igual forma uso da longa distância ou surpreende de ângulos reduzidos. Os golos memoráveis apontados na Liga dos Campeões diante do Bayern e do RB Salzburgo ilustram com perfeição a qualidade técnica nesses momentos.

MOBILIDADE E INTELIGÊNCIA FORA DO BLOCO

Apesar de encarnar o camisola 9 puro, o internacional colombiano (17 jogos, 3 golos) está longe de ser um elemento excessivamente posicional em campo. O raio de ação é surpreendente. Durán recusa fixar-se apenas entre os centrais à espera que a bola lhe chegue em condições ideais. O seu mapa de movimentação demonstra uma atividade muito intensa no corredor central e junto aos flancos. Baixa no terreno com frequência para apoiar a fase de criação da sua equipa.

Nestas missões de ligação com o meio-campo, demonstra uma inteligência tática apurada. Procura o passe curto e as tabelas rápidas para conferir maior fluidez aos ataques rápidos ou às transições ofensivas. Sabe funcionar como um elo de ligação precioso, recebendo a bola de costas para a baliza. Consegue aguentar a forte pressão física dos defensores e liberta o esférico no momento exato para a desmarcação dos colegas. Esta capacidade de resistir à pressão ficou bem patente diante de blocos defensivos muito agressivos na Premier League, onde manteve sempre a serenidade necessária até conseguir abrir linhas de passe.

O JOGO 'SEM BOLA' E OS ASPETOS A LIMAR

O jogo sem bola constitui outro dos grandes trunfos de Jhon Durán. O colombiano domina com mestria as manobras de diversão na grande área. Quando atua num sistema dinâmico de dois avançados, sabe perfeitamente como arrastar as marcações dos defesas contrários. Esta movimentação inteligente liberta espaço crucial para as investidas verticais dos médios que surgem de trás. Assim que o foco defensivo se afasta da sua zona, Durán reposiciona-se com uma rapidez letal. Transforma-se num autêntico predador à espera do cruzamento ou do passe atrasado.

A nível físico, o colombiano apresenta argumentos temíveis. É muito forte nos duelos individuais e demonstra uma superioridade imperial no jogo aéreo. Possui uma capacidade de impulsão formidável e ataca a bola com agressividade. Este vigor físico é também colocado ao serviço do coletivo no momento da perda de bola. Durán exibe uma entrega invulgar na primeira linha de pressão, recuperando muitas bolas em zonas adiantadas do terreno.

Existem, contudo, algumas arestas que necessitam de ser limadas. A tomada de decisão no último terço manifesta-se, por vezes, algo precipitada. A forte ansiedade de visar a baliza leva-o não raras vezes a optar pelo remate de longe quando teria espaço para progredir mais alguns metros com a bola controlada. Revela também um pendor demasiado individualista em determinados lances. O facto de raramente somar assistências no seu registo pessoal espelha bem esse foco quase exclusivo no golo, necessitando ainda de apurar a visão para servir os companheiros.

O REVERSO DA MEDALHA E A ROTA DE INSTABILIDADE

O perfil técnico altamente promissor do jogador entra em colisão direta com o historial de indisciplina. A rota de colisão com o Aston Villa acentuou-se em meados de 2024. Durán fez um direto no Instagram em que cruzou os braços, como referência ao West Ham, numa altura em que os londrinos viam as suas propostas serem recusadas em Birmingham. Este ato público de desrespeito enfureceu os adeptos de Birmingham e motivou a instauração imediata de um processo disciplinar.

A relação com o clube inlês degradou-se e o avançado acabou por ser transferido para o Al-Nassr no início de 2025, não sem rechear os cofres do clube de Birmingham. A aventura no futebol da Arábia Saudita esteve, todavia, longe de corresponder às expetativas. Sem se conseguir adaptar, acabou por ser cedido por empréstimo aos turcos do Fenerbahçe. Em Istambul, o cenário de instabilidade voltou a repetir-se. Apontou apenas cinco golos e o acordo de cedência foi cancelado antes do tempo previsto.

Seguiu-se uma nova mudança de cenário, desta feita rumo à Rússia para representar o Zenit. O feitio polémico voltou a traí-lo logo no jogo de estreia. Com apenas cinco minutos em campo, perdeu uma bola e envolveu-se num confronto físico feio, agarrando um adversário pelo pescoço. O cartão amarelo recebido demonstrou que a sua impulsividade continua difícil de domar.

Jhon Durán é um poço de talento, mas será que o Benfica conseguirá potenciar as enormes valências do jogador e pacificar o homem? Tendo em conta as dificuldades dos encarnados no acompanhar dos reforços após as transferências e no lidar com personalidades mais indomáveis — Enzo Fernández e Kokçu, por exemplo —, não se adivinha tarefa fácil. E as dúvidas, naturalmente, aumentam. Os encarnados ficarão dependentes da real vontade do jogador em se afastar do precipício e em recuperar o 'momentum'. Aquele que o apontava para a elite dos pontas de lança na atualidade.

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