Mourinho mostrou-se crítico em relação à arbitragem

Ironia para Hjulmand, elogio para Rui Borges e bicada ao Sporting — tudo o que disse Mourinho

Treinador do Benfica fez a antevisão ao duelo com o Casa Pia mas também falou de muito mais

Como estão os jogadores que vieram das seleções e que Casa Pia espera?
— Dos jogadores que regressaram das seleções, só Barreiro voltou com um problema, e ainda não posso confirmar se pode ou não jogar. Fizemos hoje esta conferência não para fugir a questões, mas porque amanhã trabalhamos e se calhar alguns de vocês não. Barreiro ainda não voltou a treinar desde que voltou, vai hoje ao campo pela primeira vez, naturalmente condicionado, amanhã depois do treino já saberemos se tem condições de jogar. O Casa Pia tem recuperado muito bem desde que chegou o novo mister, tem uma identidade de jogo própria, capaz de criar dificuldades às equipas mais fortes, com máximo respeito, e que no primeiro jogo no Estádio da Luz conseguiu um empate. Com tantas coisas estranhas que têm acontecido neste campeonato desde o início… Não só ultimamente, mas desde o início também. Mas o Casa Pia, apesar de ter sido um jogo com coisas estranhas, conseguiu tirar-nos dois pontos no jogo que fizemos no Estádio da Luz. Obviamente que na sua casa, ainda que emprestada, mas é a sua casa, o seu habitat natural, vão seguramente lutar muito pelo... eu diria pelo ponto, mas pelas suas características, pela maneira como jogam, pelo ponto, pelos pontos. Porque são uma equipa capaz de entregar o domínio do jogo ao seu adversário e depois punir com base nas características que têm. Por isso, esperamos um jogo difícil, mas mais uma vez vamos tentar ganhar.

Pedia-lhe uma opinião sobre o conflito entre o Sporting e o FC Porto. De que forma é que considera que o Benfica possa beneficiar disso ou se, por outro lado, considera que é algo desnecessário para o futebol português?
— O Benfica beneficiar? O Benfica, desde o início da época, já viu o Benfica beneficiar em alguma coisa? Eu ainda não vi. Eu às vezes oiço falar nas lufadas de ar fresco e estava-me a preparar para tentar, num aspeto, poder ser uma lufada de ar fresco: que era a minha equipa ganhar com erros de arbitragem e eu sair e dizer ‘ganhámos três pontos, mas houve erros a nosso favor’. Ainda não me aconteceu. E espero que não me aconteça, honestamente espero que não me aconteça, mas se eventualmente acontecer, deixo já aqui o desafio: eu vou sair e vou dizer que o Benfica foi beneficiado. Portanto, Benfica beneficiado não consigo entender em quê. E nessa situação entre os dois presidentes do Sporting e do Futebol Clube do Porto, já disse aqui há umas semanas que situações entre presidentes, eu sou um mero espectador. Entre treinadores sim, entre presidentes não.

Após o jogo do Sporting, o Benfica lançou prontamente uma publicação na rede social X, em que lançava alguns vídeos do Sporting-Santa Clara, com vitória do Sporting por 4-2, debaixo da frase «já nem há vergonha». Concorda com a frase?
—  Olhe, num mundo de puxa-sacos, eu também vou ser puxa-saco. Também vou dizer que estou cem por cento  de acordo com o meu presidente, que é o que os outros fazem.

O Casa Pia foi exatamente a equipa contra quem o Benfica perdeu o último jogo para o campeonato, em 2025. Este fator de invencibilidade que está na equipa, que pode acabar o campeonato sem derrotas, será um fator de motivação para os jogadores ou será uma pressão extra?
— Não, repare, o fator imbatibilidade eu acho que é orgulho. E significa, ou tem significado até agora, o caráter de uma equipa que tenta respeitar a história, tenta respeitar o sofrimento inerente aos maus resultados que qualquer adepto sente. E mesmo em situações limite, temos lutado sempre para conseguir bons resultados. E às vezes o empate acaba por ser o mal menor. Se me perguntar se preferia ter duas derrotas em vez de oito empates, eu obviamente preferia ter duas derrotas em vez de oito empates. Ainda que inerente às derrotas existe sempre aquela coisa de... principalmente quando essas derrotas acontecem em jogos que não se esperam — e acontece isso muito durante as épocas normalmente — uma equipa acaba sempre por ter uma escorregadela ou duas contra equipas de menor expressão. É um bocadinho o nosso orgulho, mas obviamente que nós não jogamos para não perder jogos, nós jogamos para ganhar e qualquer empate que se consiga acaba por não ser um bom resultado. Mesmo com o Futebol Clube do Porto, com o Sporting e com o Sporting de Braga, que são equipas obviamente do topo, os empates nós não os consideramos como bons resultados. Imagine os empates que tivemos com o Santa Clara, com o Casa Pia... Portanto não, o objetivo não é esse. Mas, honestamente, não termos perdido até agora significa qualquer coisa em termos da nossa qualidade e, principalmente, do nosso profissionalismo e respeito pelo Benfica.

Eu obviamente preferia ter duas derrotas em vez de oito empates.

—  Questionado sobre o futuro, Otamendi não garantiu se ficava além desta temporada. Acha que é a altura certa para deixar sair o argentino e fazer uma renovação na defesa? Ou se dependesse unicamente de si, Otamendi ficaria pelo menos mais um ano? E Aursnes está recuperado para jogar com o Casa Pia?
— Não, o Aursnes não está recuperado. O ‘se’ não existe. Ou sai ou não sai. O ‘se sai’ ou o ‘se não sai’, neste momento não existe. Eu penso que foi o presidente, que em alguma intervenção sua, foi objetivo relativamente ao Otamendi: a decisão da saída ou da permanência é uma coisa que está mais nas mãos do jogador do que propriamente do Benfica. E se o Benfica estará preparado para a saída de um jogador como o Otamendi? Estará no sentido em que tem dois grandes centrais, o António e o Tomás. Jovens, jogadores de seleção, com muita experiência de Benfica, com braçadeira de capitão quando não está o Fred [Aursnes] ou, principalmente, o Otamendi. E são dois jogadores nos quais eu tenho a maior confiança. Portanto, na próxima época, se não estivesse lá — estou a voltar ao seu ‘se’ que eu queria evitar — mas se não houvesse Otamendi, António e Tomás dão garantias. Mas obviamente o Benfica teria que ir ao mercado para colmatar a saída de um jogador com a capacidade do Otamendi, com a experiência e com a liderança.

Hjulmand  deu uma entrevista na qual comentou uma situação que José Mourinho já tinha referido, a relação especial que o capitão do Sporting tem com as arbitragens, pedia que comentasse. Ainda sobre este tema, os constantes casos de arbitragem relacionados com jogos do Sporting que o Benfica tem apontado: José Mourinho olha para isto como falta de competência dos árbitros nesses lances ou identifica realmente aqui uma tendência de benefício em relação aos adversários e sobretudo ao Sporting?
—  Relativamente ao Hjulmand, as declarações que ele fez foram extremamente educadas, portanto não há aqui nenhum problema pessoal, obviamente. Mas de facto é um caso a pensar muito relativamente aos próximos jogadores estrangeiros que possam entrar no Benfica na próxima época. Porque normalmente quando um jogador chega a um país estrangeiro e quer aprender a língua, quer aprender o idioma — e é uma coisa que nós, enquanto portugueses, elogiamos quando eles vêm para cá e passado pouco tempo conseguem falar português — foi uma coisa com a qual eu me preocupei sempre quando fui treinador no estrangeiro. Mas os objetivos normalmente são: uma melhor integração social numa nova sociedade, num novo país; fazermos melhor o nosso trabalho no relacionamento com os nossos colegas, com aqueles com quem trabalhamos; uma melhor comunicação não só com a população do país, mas fundamentalmente com a população, uma interação melhor. Mas o motivo pelo qual queremos aprender um idioma é para comunicarmos melhor com os árbitros? Eu acho que é verdadeiramente uma coisa fantástica. E que, se calhar, quando os jogadores do Benfica na próxima época aqui chegarem, se chegar algum jogador estrangeiro, se calhar será essa a nossa motivação para os tentar forçar, entre aspas, a aprender português rapidamente: é para poderes falar muito bem com o árbitro. Portanto, acho que realmente é uma situação fantástica. Já me esqueci da outra pergunta que me fez... Olhe, hoje por acaso cheguei aqui ao Benfica e, como sempre, só há um que chega antes de mim, que é o Gonçalo [Guimarães, diretor de comunicação para o futebol dos encarnados]. E passando pelo gabinete do Gonçalo, vi a primeira página dos dois jornais mais tradicionais, mais históricos no desporto português, um dos quais é o seu. E quando vi a primeira página pensei: não se passa nada. São páginas lindíssimas com um miúdo que jogou, que foi aniversariante, que fez golo. São duas páginas bonitas, mas são duas páginas que fazem com que quem não tenha visto o jogo de ontem pense que não aconteceu nada. E é nesta base do ‘parece que não acontece nada’ que nós já vimos desde o início da época. E esse é que é o problema, porque agora também nos estamos a focar no que está a acontecer recentemente, mas esquecemo-nos do jogo no Nacional da Madeira, esquecemo-nos do jogo em Famalicão, esquecemo-nos do jogo em Alvalade com o Famalicão... esquecemo-nos de muita coisa que vem desde o princípio da época. Portanto, eu não sei muito bem aquilo que lhe deva dizer, mas focando-me só e tão só — para já não ir mais longe — focando-me só e tão só em três jogos contra o Santa Clara (dois para o campeonato e um para a taça), está tudo aí.

O motivo pelo qual queremos aprender um idioma é para comunicarmos melhor com os árbitros? Eu acho que é verdadeiramente uma coisa fantástica.

Na sequência do encontro com a ministra do Desporto, o treinador do Sporting disse, na antevisão do jogo, que se calhar era preciso crescer um bocadinho para o futebol português melhorar. Concorda com essa visão? E já agora, a propósito da eventual saída de Otamendi, disse que há Tomás Araújo e António Silva. Conta, portanto,  ficar com esses dois centrais para a próxima época?
— Claro. Claro que sim. Têm contrato os dois, são dois jogadores importantes para o Benfica. Eu, enquanto treinador, e só como treinador e não como gestor, e fechando-me tão só naquilo que eu sou, que é treinador, obviamente que quero ter os melhores jogadores possíveis. Portanto, obviamente que sim, que gostava que ficassem os dois. O presidente sabe, o diretor Mário Branco também sabe. Mas obviamente que eu sei em que ano é que estou, não estou em 1960 ou em 1980. Sei em que ano é que estou, sei o que são mercados, sei o que são Financial Fair Play, sei tudo, todas as situações no futebol atual. E como treinador não me posso fechar numa zona que é a minha e não compreender outras zonas que não são minhas diretamente, mas acabam por ser minhas de um modo indireto. Portanto, se eventualmente chegarmos a uma situação no mercado em que o Benfica tenha que, ou queira, vender um jogador dos quais eu considero importantes na continuidade, não será um drama. Terei obviamente que aceitar e depois tentar organizar-me de outra maneira. Mas a sua pergunta muito, muito objetiva — se gostava de ficar com o António e com o Tomás e se espero que eles continuem — sim e sim. Já me esqueci da outra pergunta, foi qualquer coisa do Rui Borges, não foi? (Futebol precisa de crescer para melhorar). O Rui é muito inteligente. Mais do que aquilo que as pessoas pensam.

No âmbito da renovação de Daniel Banjaqui, trata-se de uma posição onde o Benfica está muito bem servido. Enquanto treinador, também acaba por ser um desafio gerir a utilização de três jogadores de tanta qualidade que estão obviamente a lutar por um lugar na equipa do Benfica?
Fácil. Fácil de gerir. Difícil de gerir é quando não os temos. Quando os temos, é fácil de gerir. E se você reparar, nós neste momento — porque eu considero tanto o Banjaqui como o Neto considero jogadores de primeira equipa — nós temos cinco laterais para duas posições. De um modo assim muito objetivo, temos cinco laterais para duas opções, em que um deles tem 17 anos e um deles tem 18 recém-celebrados. Ou seja, temos três homens e dois miúdos. Dois miúdos de um grande potencial, dois miúdos que, sim, não fui eu que os desenvolvi, mas fui eu que lhes dei a confiança de... mas nós temos três laterais dos quais o Dedic, o Bah e o Banjaqui são os laterais-direitos, o Dahl e o José Neto os laterais-esquerdos e o Dedic e o Bah são ambos laterais-direitos e laterais-esquerdos de emergência. Ou seja, ter estes cinco jogadores — dos quais três são homens e dois são miúdos de enorme potencial — não é um problema, é um privilégio. E penso que em condições normais — lá está, há sempre as anormalidades que podem acontecer nos mercados atuais e na maneira como os clubes gerem os seus plantéis, os seus ativos — mas se perguntar ao treinador, e se o treinador for só treinador, eu acho que é a situação ideal para o Benfica na próxima época: ter os três homens e os dois miúdos que cada vez menos vão sendo miúdos, cada vez mais vão sendo homens e cada vez mais vão estando preparados a cem por cento. E eventualmente no final da próxima época o Benfica já possa olhar de outra maneira para esse grupo de cinco jogadores.