Hoje, é possível recolher uma quantidade impressionante de dados sobre um jogador - Foto: Imago
Hoje, é possível recolher uma quantidade impressionante de dados sobre um jogador - Foto: Imago

Inteligência artificial na medicina do futebol

'Mito ou Realidade' é o espaço de opinião em A BOLA de António Araújo (Medicina Física e de Reabilitação - Clínica Espregueira Dragão) e João Espregueira-Mendes (Presidente da Sociedade Mundial de Artroscopia, Cirurgia do Joelho e Medicina Desportiva Ortopédica - ISAKOS)

A tecnologia entrou, definitivamente, no futebol e a medicina não ficou de fora. Nos últimos anos, a inteligência artificial passou de conceito futurista a ferramenta presente, diariamente, nos clubes. Porém, no meio de tanto entusiasmo, impõe-se a pergunta: estamos perante uma verdadeira revolução ou apenas mais uma tendência com expectativas inflacionadas?

Hoje, é possível recolher uma quantidade impressionante de dados sobre um jogador. Distâncias percorridas, acelerações, desacelerações, cargas internas, qualidade do sono, histórico de lesões — tudo é monitorizado. A inteligência artificial surge como o passo seguinte: transformar esses dados em previsões, nomeadamente, na identificação do risco de lesão. Aparentemente, o potencial é enorme. Antecipar uma lesão antes de acontecer, seria uma mudança de paradigma. Ajustar cargas de treino com base em modelos preditivos pode, em teoria, proteger o atleta e otimizar o rendimento. No papel, parece simples. No terreno, nem tanto.

Quem trabalha no contexto de futebol profissional percebe, rapidamente, as limitações. O corpo humano não é um algoritmo linear. A resposta ao esforço varia de jogador para jogador e até de semana para semana. Fatores como stress, qualidade do sono, contexto competitivo ou até o estado emocional influenciam o risco de lesão e nem tudo é quantificável.

A inteligência artificial depende da qualidade dos dados que recebe no futebol, sendo, muitas vezes, incompletos ou difíceis de interpretar. Um número isolado, raramente, conta toda a história, sendo essencial o papel da equipa médica e técnica na interpretação, contextualização e decisão. É aqui que entra o papel insubstituível da equipa médica e técnica: interpretar, contextualizar e decidir.

Mais do que substituir o médico, a tecnologia deve funcionar como apoio à decisão. Uma ferramenta, não um veredicto. O risco está em confiar cegamente no modelo e ignorar sinais clínicos ou perceções que não cabem numa folha de dados de Excel.

No dia a dia de um clube, a realidade é clara: a inteligência artificial ajuda e alerta, mas não decide nem diagnostica. Pode sugerir, mas não conhece o jogador como quem o acompanha diariamente.

No futebol moderno, ganhar vantagem passa também pela forma como se usa a informação, dado que a diferença continua a estar menos no algoritmo e mais em quem o interpreta.

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