Haller: «Foi mais difícil perder o título com o Dortmund do que aceitar a minha doença»
Se alguém pode relativizar e falar num percurso de altos e baixos é Sebastian Haller. Acaba de ser coroado campeão africano com a Costa do Marfim no CAN, depois de derrotar a Nigéria com reviravolta na final de fevereiro, glória que surge depois de um 2022 para esquecer em termos pessoais e um 2023 duro de aceitar no plano desportivo. No Borussia Dortmund leva 2 golos em 14 jogos.
O avançado do Borussia Dortmund, que em 2022 foi diagnosticado com cancro nos testículos, falou sobre a difícil doença que teve de ultrapassar e também sobre o agonizante final da Bundesliga 2022/23 em que o título escapou das mãos nos últimos instantes, para o Bayern Munique.
Na última jornada, o Dortmund empatou 2-2 com o Mainz e Haller falhou um penálti; um golo de Musiala no último minuto frente ao Colónia significou o título para os bávaros pela diferença de golos. «Foi a maior deceção que tive no futebol. Foi mais difícil de aceitar do que a minha doença porque eu poderia ter tido impacto sobre o que aconteceu. Eu não era apenas uma vítima, mas ator. Foi muito doloroso. Mas felizmente estou acompanhado de família e amigos. Se estivesse sozinho, provavelmente teria ficado deitado no chão uma semana sem me mexer», comentou em entrevista ao The Athletic.
Mas volte-se atrás, a 2022 e à descoberta da doença apenas semanas depois de ter assinado pelo Dortmund. Na pré-época, em julho, começou a sentir dores no abdómen e falou primeiro com o fisioterapeuta, mas nunca passou. Falou depois com os médicos do clube. Fez ecografias, ressonância magnética, e o diagnóstico chegou e era cancro: «Uma palavra que assusta. Disseram-me que tinha de ser operado, podia começar logo no dia seguinte.»
Haller foi de imediato operado para remover o tumor e começou quimioterapia com cinco sessões por semana; fez três rondas de tratamento e mais uma operação para remoção de tecido maligno.
«Os últimos dois dias de quimioterapia foram os mais fortes em termos de efeitos secundários. Tive de esperar 48 horas e depois conduzir duas horas e meia (do Hospital Universitário de Munster, na Alemanha, até casa nos Países Baixos). Foi a pior parte, chegar a casa às 2 da manhã, com dificuldades em ficar em pé, mas fiz tudo o que pude com o meu fisioterapeuta», recordou.
Em termos psicológicos também sofreu: «Tornamo-nos outra pessoa sem dar conta. Ficamos mais irritadiços, impaciantes, as pessoas à nossa volta tentam esconder a tristeza.»
Mas começou a sentir-se melhor. Em outubro foi à gala da Bola de Ouro e em dezembro teve alta para poder voltar a jogar. Foi ao estágio de inverno da equipa em Marbelha, Espanha e jogou num particular frente ao Basileia, marcando três golos de uma vitória por 6-0 em apenas 7 minutos.
A estreia oficial foi a 22 de janeiro frente ao Augsburgo e voltou aos golos a 4 de fevereiro – logo o Dia Mundial do Cancro. «Recebi mensagens de pessoas a dizer que se inspiraram no meu caso para fazerem exames, e isso é muito bom, fico orgulhoso por saber que ajudei nem que seja uma pessoa», contou, organizando agora sessões desportivas para pessoas em tratamento e através de um documentário, ‘O combate de Haller’.
E agora é campeão africano, depois de a Costa do Marfim, onde joga o sportinguista Diomande - e que despediu o selecionador a meio -, quase ter sido eliminada na fase de grupos e nos penáltis com o Senegal; tiveram também de reverter o resultado com o Mali, tal como na final com a Nigéria. Haller jogou quase toda a competição com uma lesão depois de um entorse num tornozelo no último jogo da Bundesliga - «os meus dias eram pequeno-almoço/tratamento/ginásio/tratamento»: «Não sei como foi possível. É o destino. Podemos tentar explicar, mas s verdade é que não controlamos nada». Válido na vida e no desporto.
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