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Há um 'bot' escondido em que cada um de nós
Há um bot escondido em cada um de nós. Pode até ser no mais recôndito neurónio dos nossos cérebros, mas que está lá, está. Bot, como nos dizem os especialistas em informática, são uns programinhas automatizados que realizam tarefas na internet sem que seja necessária a intervenção direta de um humano. Foi assim, dizem, que Donald Trump ganhou duas eleições nos Estados Unidos. Foi com essa ajuda, garantem-me, que alguns em Portugal chegaram a 22,76 por cento em eleições legislativas. Programinhas que se transformam em pequeninos papagaios maldizentes.
Simplificando: um bot não é propriamente malware, aqueles viruzinhos que se introduzem nos computadores e roubam dados e ou dinheiro. É outra coisa. É quando numa rede social, por exemplo, aparecem dezenas de mensagens num curtíssimo espaço de tempo a criticar algo ou alguém. Quase sempre uma pessoa. E o nome do bot quase sempre é algo indecifrável. Tipo: pp.e.jj.juntos.em.2026. Ou: elma73. Ou katia77. Ou: goat.é.o.velho. Ou: goat.é.o.anão.
Um bot é uma daquelas pessoas que encontramos nos cafés e que, no meio de duas imperiais e quatro tremoços, dizem mal de tudo e de todos (mesmo do maior dos maiores quando este estava no Real Madrid e marcava golos em catadupa) ou daquelas pessoas que estão sempre a dizer o melhor possível de alguém (mesmo quando esse alguém, tendo sido o maior dos maiores, já vai nos 41). Um bot diz que verde é vermelho, que vermelho é preto e que preto é branco. Sem pudor. Um bot é isto mesmo. É instintivo. Não pensa. Reage.
Todos nós, nem que seja uma vez na vida, somos bots. Dizemos o que nos apetece, mesmo que o que nos apetece não esteja suportado por nada real. Bot é alguém que diz que para curar o cancro basta beber chá de tília nos dias pares dos meses de 30 dias dos anos bissextos. Ou que acredita que a namorada de João Neves escreveu mesmo aquilo no Instagram. Ou que enche de insultos as redes sociais de Francisco Conceição apenas porque ele disse uma ou duas verdades: «Passo a bola a quem acho que está mais bem desmarcado. Não temos obrigação de passar a bola ao Cristiano».
Um bot, no fundo, é um infeliz. Seja humano ou informático. Um bot é um papagaio. Ouve e repete. Ouve e repete. Sempre sem pensar. Se ouve que a praia faz mal aos jogadores, diz que a praia faz mal aos jogadores. Se ouve que a praia faz bem aos jogadores, diz que a praia faz bem aos jogadores. Há dois tipos de bots: os que dizem mal do capitão porque sim e os que dizem bem do capitão porque sim. Eu sou apenas meio bot. Acho que o capitão deve jogar metade do tempo: 45 minutos. A abrir o jogo ou a fechar o jogo. Mas bem gostava de receber na terça-feira, lá pelas nove da noite, um email a insultar-me: «Chupa, meio bot. Assinado: elma73 e katia77.» Juro: gostava.