'Guerra' Norte/Sul: lufada de mais do mesmo
Costuma-se dizer que a política é a arte do possível. Quando se chega ao poder, as ideologias passam a ocupar o canto da primeira gaveta que encontramos e as promessas de renovação encontram lugar nos sonhos de quem as fez. No futebol e em qualquer barco grande de navegar, somos invariavelmente confrontados com esta surpresa para uns e naturalidade para quem trata os bastidores por tu.
Contudo, há situações que espantam mais do que outras. Especialmente quando se apresentaram revestidas de um providencialismo quase perfeito, onde a modernidade reinava e as águas passadas eram apenas isso. Uma candidatura — e um candidato — que juravam vir revolucionar o modus operandi do futebol português, convencendo-nos de que o status quo vigente não era a única forma de dirigir os destinos de um clube no nosso país. Para não correr o risco de fazer o mesmo que o próprio e ser claro a quem me dirijo: André Villas-Boas desiludiu.
Não vem de agora, mas a última semana insuflou este sentimento. Aliás, permitam-me que o diga: até me espantam as reações tímidas às declarações de Farioli sobre a «comunicação social do Sul». O presidente do FC Porto, na sua chamada mensal às tropas na revista do clube, veio reforçar o que julga ser uma cabala coletivamente orquestrada contra os dragões. Há uma sensação, criada há décadas por Pinto da Costa, de que aos responsáveis do FC Porto se deve uma maior tolerância nas declarações e uma interpretação sempre mais caridosa das suas frustrações — ou, melhor dizendo, quando dizem algo que claramente ultrapassa os limites da urbanidade.
Parecem deter algo de superior — estou curioso para entender do que se trata —, quase uma imunidade que lhes permite criticar sem consequências, alimentar suspeitas e construir teorias de conspiração. O mote é conhecido: acentuar a polarização e aumentar a fricção fictícia entre Norte e Sul. É uma divisão que existe muito mais na cabeça de quem a explora do que na sociedade portuguesa e que é perigosamente utilizada para mobilizar as hostes e justificar quase tudo.
É importante perceber que, na comunicação moderna, poucas coisas acontecem por acaso. É cada vez mais difícil olhar para a sucessão de episódios e não identificar uma cultura que permanece. Essa é precisamente a minha desilusão com Villas-Boas: prometeu romper com uma forma de estar e parece ter percebido que é mais fácil vencer este jogo precisamente sob o conforto das regras que prometeu renegar.
É, por isso, que as declarações de Farioli (e do próprio) incomodam mais do que se viessem de uma direção que nunca tivesse feito juras de ser diferente. Porque o treinador não acordou certamente numa manhã de agosto e decidiu que seria um excelente dia para enfrentar essa entidade maléfica e misteriosa chamada «comunicação social do Sul». Aquela organização que, imaginamos por decerto, se reúne nas catacumbas das redações e dos restaurantes da capital para estudar como maldizer sobre o clube da lufada de ar fresco, da gestão moderna e da mudança de paradigma. Só no papel, claro.
E é aqui que entra a imprensa. Tem de existir mais espírito crítico da sociedade civil, mas também da própria comunicação social, sob pena de perder — infelizmente, ainda mais — credibilidade. Os treinadores estrangeiros em Portugal possuem, regra geral, uma tolerância superior aos demais, mas só até ao primeiro erro. A partir daí tornam-se bodes expiatórios fáceis. Schmidt descobriu isso quando questionou a idoneidade de um jornalista numa conferência de imprensa. A reação foi imediata. O treinador do FC Porto parece, por enquanto, gozar de outro estatuto. Talvez porque ainda não tenha conhecido o sabor da derrota. Talvez porque, no futebol português, o medo seletivo continue a imperar mais do que pensamos.
Até a questão da língua dá para uma pequena ironia. Farioli continua a fazer conferências em inglês e ninguém parece particularmente incomodado. É no mínimo digno de salientar que continue a ser pacífico (desta vez) que não queira aprender a língua de Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco ou Agustina Bessa-Luís, apenas para citar alguns dos escritores que colocaram no papel a alma das gentes do Norte que o italiano tanto gosta de apregoar semanalmente. É curioso como, de repente, a exigência linguística também parece ter fronteiras geográficas.
Essas mesmas que parecem ser essenciais para Jan Bednarek, jogador internacional polaco e com provas dadas, que explicou uma curiosidade da vida portista: não pode usar corações vermelhos, no WhatsApp enviam-se corações azuis, não se fala de Lisboa e não se vai a Lisboa, porque o Porto é fantástico e ali todos são felizes. É engraçado. É também revelador.
Quando Lisboa passa a ser uma palavra que não se pronuncia, é grave. Quando o futebol deixa de ser Porto contra Benfica e Sporting e passa a ser Porto contra uma entidade geográfica abstrata que intitulam de Sul, ultrapassa os limites da lógica.
Peço desculpa por informar quem tenta criar narrativas, mas essa divisão é ficção pura. Não tentem fomentar um país onde o Porto tenha de provar diariamente que existe contra Lisboa, nem uma Lisboa obrigada a responder diariamente ao Porto para provar que não é aquilo que dizem dela. As fronteiras têm de ser claras quando começa a necessidade de criar um inimigo. Porque é daí que nasce o resto.
Os apanha-bolas deixam de ser miúdos a correr atrás de uma bola e passam a ser peças de uma guerra psicológica. As toalhas dos guarda-redes tornam-se assunto de Estado. Um balneário demasiado quente ganha estatuto de incidente diplomático. Uma coluna de som, uma televisão, uma porta, um acesso ou um corredor podem transformar-se em capítulos de uma novela surreal.
Não há problema nenhum em ser do Porto. Não há problema nenhum em sentir uma ligação visceral à cidade, à camisola e à história. O problema é quando essa identidade precisa de um inimigo eterno para sobreviver. E é aqui que volto a Villas-Boas. Porque o problema é a distância entre a promessa e a prática.
Um presidente que chegou com a «tolerância zero» para irregularidades na ponta da língua e que apresentou a renovação como uma mudança de cultura deveria ser precisamente aquele que mais depressa percebia que a grandeza de um clube não se mede pela quantidade de inimigos que consegue fabricar. Aliás, o próprio afirmou que a continuidade de Farioli representava a continuidade de «uma forma de estar», assente em rigor, ética e obsessão pelo detalhe. Pois bem. É legítimo perguntar se essa cultura também se aplica à forma como o FC Porto se relaciona com o exterior. Talvez essa seja a verdadeira prova do projeto de Villas-Boas. Aqui não está em causa se consegue continuar a ganhar. É saber se consegue fazê-lo sem precisar de ressuscitar fantasmas. Sem transformar cada banalidade numa batalha cultural. Isso, sim, seria uma lufada de ar fresco.
Porque Portugal é muito maior do que a cultura de cisão que os mesmos de sempre continuam a alimentar. E o futebol português também merece mais. Merece dirigentes capazes de defender os seus clubes sem transformar o país num campo de batalha que só existe nas suas cabeças. E merece, sobretudo, que quem se manifesta incrédulo contra o que chama de faltas de respeito institucional dos rivais, assuma que traz sempre no bolso a velha fórmula do «nós contra eles».
Até porque, quando abrimos a janela à procura da anunciada lufada de ar fresco e continuamos a sentir exatamente o cheiro de antigamente, talvez seja altura de admitir uma coisa incómoda. Não era ar novo. Era mais do mesmo.