Habituem-se: no Fontelo é o Académico que joga em casa!
A fotografia de um avô a tentar entrar no Estádio do Fontelo com o seu neto, vestido com a camisola do FC Porto, é uma dessas imagens. É uma fotografia bonita, humana, impossível de deixar alguém indiferente. Um avô e um neto. Duas gerações unidas pelo futebol. E é precisamente por ser uma imagem tão boa que os media não resistiram a aproveitá-la.
O problema não está na fotografia. O problema está na história que se construiu a partir dela. Porque, entretanto, parece ter desaparecido uma parte importante daquilo que aconteceu no passado sábado em Viseu. O Estádio do Fontelo recebeu 6.746 espectadores — o que equivale a uma taxa de ocupação de 99,4%, algo absolutamente inédito nesta Liga. O Académico de Viseu conseguiu levar ao seu estádio uma multidão e, mais importante ainda, fê-lo com uma esmagadora maioria de adeptos academistas. Isso, num jogo frente a um clube com a dimensão e a projeção do FC Porto, deveria ser notícia e altamente valorizado.
Viseu disse presente. E disse-o de uma forma que talvez nem todos estivessem habituados a ver. Um clube considerado grande não está, ainda, formatado para se encontrar em minoria num estádio. Em Viseu, foi exatamente isso que aconteceu. E talvez seja essa a verdadeira história que deveríamos estar a contar.
É claro que todos ficamos sensibilizados quando vemos uma criança envolvida numa situação destas. É normal. Somos pais, avós, tios, amigos. Queremos que as crianças tenham boas experiências no futebol e que possam acompanhar os seus clubes em segurança. Mas também é precisamente por causa das crianças que as regras de segurança existem e devem ser cumpridas. Não podemos defender a segurança máxima nos estádios e, ao mesmo tempo, considerar injustas as regras quando elas nos são aplicadas.
A título de exemplo, na Porta 1, destinada maioritariamente a sócios e detentores de lugares anuais do Académico de Viseu, também entrou um pai acompanhado pelo seu filho, que estava identificado com a camisola do FC Porto. Apesar da clareza das regras e dos avisos («Proibida a utilização de adereços alusivos ao visitante nos setores destinados aos adeptos do Académico»), a situação foi tratada de forma conciliadora e categórica: foi-lhe permitida a entrada, tendo sido pedido que a camisola do jovem adepto fosse vestida do avesso, permitindo, desta forma, que pai e filho assistissem ao jogo juntos naquela zona do estádio.
Um exemplo demonstrativo de que não existiu nenhuma vontade de impedir uma criança de ver um jogo. Existem, sim, regras diferentes para setores diferentes do estádio que, por razões de segurança, gostemos ou não, são inerentes à organização de um jogo desta dimensão. Certamente que não entrou qualquer adepto com a camisola do Académico no setor destinado a adeptos do FC Porto.
Onde ficou o contraditório? Porque a imagem do avô e do neto foi reproduzida, comentada, partilhada e transformada numa narrativa que rapidamente se tornou verdade absoluta. Mas quantos dos que a viram conheciam o contexto? Quantos sabiam que existiam regras específicas para aquelas bancadas? Uma fotografia pode emocionar. Pode provocar indignação. Pode gerar empatia. Mas uma imagem, por mais poderosa que seja, não é o acontecimento inteiro.
E talvez seja tempo de olhar para o outro lado da fotografia
Olhar para as 6.746 pessoas que estiveram no Fontelo. Olhar para as famílias academistas. Olhar para as crianças que também vestiram a camisola do Académico e foram ao estádio com os seus pais e avós. Olhar para uma cidade que respondeu ao desafio e encheu o seu estádio. Olhar para um clube que, durante demasiados anos, viveu muitas vezes à sombra da dimensão mediática, mas que no dia 29 de agosto de 2026, mostrou que também pode ser grande — à sua maneira, com a sua gente e na sua casa.
O futebol precisa de rivalidade saudável. Paixão. Magia. De camisolas diferentes nas bancadas. Mas precisa, acima de tudo, de regras claras, segurança e bom senso.
Naturalmente, o avô e o neto merecem a nossa empatia. Mas o Académico observou as melhores práticas de segurança, que aliás foram aprovadas e comunicadas a todos os intervenientes, em sede própria. Tudo o resto foi confusão lançada que não apaga aquilo que foi valorizado pelo próprio treinador, Bruno Pinheiro, quando referiu que pela primeira vez defrontou um grande sentindo-se em casa.
Pois é assim mesmo. No Fontelo, é o Académico que joga em casa. Em respeito absoluto pelos adversários, pela competição e pela segurança. É assim que o Académico vai continuar a escrever a sua maravilhosa história de 112 anos. E é assim que o Académico diz que «veio para ficar».
Viva o Académico!