Farioli não vê o FC Porto mais pressionado na luta pelo título

Pressão, «mentes criativas» e «as narrativas»: tudo o que disse Farioli

Treinador do FC Porto fez a antevisão do encontro dos dragões com o Estoril, na Amoreira, marcado para as 20h30 deste domingo

Antes de mais um jogo de importância capital para o líder FC Porto, no caso contra o Estoril, na Amoreira, Francesco Farioli sacudiu a pressão inerente à reta final do campeonato para puxar o foco da equipa azul e branca para «o presente». Por isso, o técnico italiano lembra que desde o início da temporada que «todos os jogos são importantes» e falou sobre «narrativas» que «vendem jornais».

— O que espera deste jogo com o Estoril?

—Sobre este jogo, vamos defrontar uma equipa que, se fizermos uma avaliação global, tem tido uma época muito positiva. Praticam um futebol muito ofensivo e é uma equipa cujos jogos têm habitualmente muitos golos. É um dos melhores ataques da Liga, por isso é, sem dúvida, um jogo complicado. Da nossa parte, precisamos de entrar em campo com o espírito adequado e na nossa melhor forma.

— Pela diminuição da vantagem pontual sobre os perseguidores, acredita que os adversários do FC Porto podem mudar a abordagem aos jogos?

— Não é a primeira vez que isto acontece. Já aconteceu 25 ou 26 vezes sermos os últimos a entrar em campo. É um cenário que conhecemos muito bem e é por isso que, para nós, a prioridade tem sido sempre — e tem de continuar a ser — o foco total no nosso jogo, colocando aí todas as nossas energias.

— Um eventual resultado negativo no Estoril pode comprometer as aspirações do FC Porto?

— Todos os jogos têm um peso e uma importância claros. Este jogo é decididamente importante, mas está a focar-se nas consequências, sejam elas positivas ou negativas. A realidade é que o que importa, e a abordagem que sempre tivemos e que precisamos de manter nestes restantes 45 dias até ao fim da época é estarmos absolutamente ligados a cada momento e a cada bola. Colocar as nossas energias no «e se...» não nos dá qualquer tipo de vantagem. É claro que, do lado de fora, tenta-se construir uma narrativa sobre possíveis consequências. Já aconteceu antes dizerem que, se ganhássemos o jogo X, seríamos campeões, ou dizerem hoje que, se o jogo amanhã correr mal, tudo vai colapsar... Isso ajuda a vender jornais e eu respeito o vosso trabalho, mas, do nosso lado, o que temos de fazer é ir bola após bola, lance após lance, e estarmos absolutamente ligados ao que está a acontecer aqui e agora.

— Falou da falta de eficácia após o jogo com Nottingham. Como trabalhou esse aspeto nestas últimas horas?

— Essa é uma área em que claramente precisamos de melhorar. Falámos disso após o jogo com o Nottingham e, ao rever o jogo, tornou-se ainda mais evidente. Estamos aqui sempre a falar sobre factos, como são as ausências do De Jong e do Samu, mas acho que a equipa tem tentado sempre dar uma resposta coletiva. Mencionou o William, que não poderá jogar no Estoril. Ele tem sido um dos jogadores que mais se tem chegado à frente recentemente em termos de golos. Estamos a ter um impacto muito bom dos médios e agora é o momento de todos assumirem o seu papel para compensar estas ausências na frente e aumentar a percentagem de concretização, o que já seria um enorme passo em frente.

— Tendo um plantel tão jovem, acredita que a gestão emocional na fase decisiva da época pode ser um problema?

— Na verdade, acho que temos uma boa mistura entre jogadores jovens e experientes. Temos todos os elementos para ter, por um lado, a experiência e o sangue frio necessários para entrar nesta fase final da época em três competições; e, por outro, temos os jovens com a energia e a vitalidade que essa idade traz. Temos caraterísticas ideais para terminar a época da forma correta. Isso passa pela união e por este espírito de família, que nos tem permitido superar as muitas dificuldades que tivemos desde o início. Esta época tem estado cheia de momentos difíceis e a resposta da equipa foi sempre positiva quando foi preciso dar uma resposta em campo. Sabemos por quem estamos a jogar e temos muitas pessoas em mente a quem queremos dar o que merecem. Portanto, a motivação e o espírito estão lá, e estamos prontos para abordar estas semanas finais e o jogo de amanhã [domingo].

— Teve alguma conversa com o Pietuszewski depois da exibição menos conseguida com o Famalicão? E, já agora, gostaria de comentar os assobios ao Moffi?

— Sobre o Oskar, troquei algumas palavras com ele nestes últimos dias. Já o tinha feito quando ele voltou da seleção e repeti-o após o jogo com o Famalicão, porque achei importante clarificar as minhas decisões. Se pensarmos em como a vida do Oskar mudou em dois meses, é incrível. Passou de jogar na Polónia, num bom clube mas muito longe daqui, para viajar para um novo país — a sua primeira experiência no estrangeiro num clube desta dimensão. Chegou aqui como um jovem jogador com potencial para ser desenvolvido em dois ou três anos antes de dar o próximo passo e, em dois meses, tornou-se um jogador fundamental. Como podem imaginar, o nível de pressão sobre os ombros dele é agora diferente. As expectativas estão altíssimas e existe o sentimento de que, cada vez que ele toca na bola, se espera um golo ou uma assistência. Mas a realidade é um pouco diferente. Ele continua a ser o mesmo Oskar. Sabíamos que era muito talentoso quando veio, mas ainda há aspetos que precisa de desenvolver. As emoções que viveu recentemente com a seleção — o primeiro golo, a estreia — são elementos que não podemos subestimar. Esta semana ajudou-o a "aterrar" novamente no Porto e a comprometer-se, uma vez mais, com a equipa. Trabalhou muito bem, com frescura, e acredito que amanhã estará pronto para nos ajudar ao nível que esperamos. Contudo, não podemos acreditar que cada bola será convertida em golo ou assistência. Sobre o Terem [Moffi], sabemos que os nossos adeptos são muito exigentes, o que é positivo. No jogo da outra noite, houve momentos em que surgiu alguma frustração, mas a realidade é que ele é um jogador que está a dar o seu melhor e a trabalhar arduamente. Se virem a sua progressão e o trabalho que fez nos últimos meses, ele está no caminho certo. Já marcou golos importantes para nós e, com certeza, outros virão. Por isso, a frustração de um momento deve terminar ali. O que vai desempenhar um papel fundamental nesta fase final é a união. É o momento de a família portista se unir e empurrar na direção certa, sem dúvida de que todos os jogadores estão absolutamente focados no melhor para o FC Porto.

— Em caso de derrota, o FC Porto perde toda a almofada pontual para o Sporting. Isso muda a abordagem para este jogo?

— Desde o início da época que não podemos perder pontos... Se virem a média de pontos das três equipas que estão no topo, é superior à da época passada. Os dois que vêm atrás estão a ter um rendimento melhor do que o anterior, quando o campeonato foi decidido no último jogo. E nós estamos a fazer muito melhor do que o que foi feito na época passada. Numa época em que os três principais candidatos estão todos a ter um rendimento acima da média, é claro que conseguir o resultado total em cada jogo é decisivo. Mas, se focarmos a nossa atenção apenas no resultado final dos 90 minutos, perdemos o foco real: como devemos abordar o jogo, como devemos atuar e como devemos interpretar cada situação. Para mim, nada mudou. Desde o início que jogamos com a pressão de entrar em campo para ganhar, caso contrário não estaríamos aqui, após 45 jogos, com 34 vitórias. Portanto, a abordagem tem de ser a mesma: mente fria e fresca em cada decisão, mas com o fogo e o desejo de abordar cada momento com uma agressividade extrema.

— Aproveitando a recuperação do Rodrigo Mora: sente que ter um jogador mais criativo nesta fase da época pode ser um fator fundamental contra adversários mais consolidados?

— Os nossos dois médios ofensivos têm tido um impacto enorme desde o início da época. Mencionou o Rodrigo como uma mente criativa, mas a verdade é que ele compete da forma que compete. Há poucas semanas foi chamado à Seleção não apenas pela sua contribuição ofensiva, mas pela sua forma de competir, que está cada dia mais completa e madura. Isso é um grande mérito do trabalho que ele tem feito para manter a sua força e para desenvolver as áreas onde tinha algumas lacunas. Sobre o Gabri [Veiga], que é a outra mente criativa: no jogo do outro dia, nos primeiros 15 minutos, ele foi decisivo em vários momentos e fez a assistência para o golo do William. A avaliação global tem sido muito positiva porque, tal como o Rodrigo, são jogadores que, quando se ligam ao jogo, são capazes de acrescentar uma variabilidade que apenas talentos assim possuem.

— Pretende que a equipa vá ao Estoril totalmente livre de pressões e de mente limpa?

— Das sete ou oito perguntas que me fizeram, quatro foram sobre a pressão extra e o quão decisivo isto é. Este jogo é muito importante, mas o Famalicão também foi, o SC Braga também foi, e os próximos também o serão. Todos os jogos, a este nível, têm um valor absoluto. Tentar acrescentar motivação extra não é o que precisamos. Precisamos de apresentar boas exibições e, ao fazê-lo, acredito que estaremos mais perto dos resultados pretendidos. Pensar demasiado no que aconteceu no passado ou no que acontecerá após os 90 minutos não nos dá qualquer vantagem. A nossa mente tem de estar no presente, na primeira bola do jogo, na segunda, na terceira e em todas as que vamos disputar. Essa é a mentalidade necessária para amanhã e para o futuro. É o que temos feito até agora e, por isso, não vamos mudar nada. Queremos ser a nossa melhor versão: atuar ao melhor nível em cada momento.

— Está satisfeito com o rendimento da equipa no último terço ou há espaço para melhorar?

— Se voltarmos ao jogo com o Nottingham, acho que o que gerámos foi mais do que suficiente para terminar o jogo com dois ou três golos de vantagem. Potencialmente, poderíamos ter gerado ainda mais, mas às vezes esquecemo-nos da realidade: estávamos a defrontar um adversário de topo, com um dos planteis mais valiosos, orientado por um treinador que conhecem muito bem. Se num jogo desta importância nos queixamos por não termos ganho por 2-0 ou 3-0, isso diz muito sobre a exibição da equipa. Nem sempre a exibição acompanha o resultado; é algo em que temos de trabalhar, mas também temos de aceitar. O Nottingham já passou, agora o nosso foco está na viagem para o Estoril e no jogo de lá.

— Como está o Martim Fernandes? O último jogo foi uma montanha-russa de emoções para ele...

— Sobre o Martim, primeiro que tudo, tivemos boas notícias sobre o tornozelo dele. Apesar do grande inchaço, a ressonância magnética foi muito mais positiva do que a nossa primeira sensação. Teremos de avaliar nos próximos dias quanto tempo estará fora, mas é decididamente melhor do que esperávamos. Sobre o autogolo: não é a primeira vez que falamos de momentos de dificuldade ou de erros esta época. Aconteceu há algumas semanas com o Francisco [Moura] e algumas vezes com o Samu, por causa dos penáltis. Faz parte do jogo e, quando jogamos tanto, estes eventos tornam-se mais frequentes. A reação do Dragão foi fantástica e a dos companheiros de equipa foi notável. Toda a gente demorou 2 ou 3 segundos a perceber o que tinha acontecido, mas um segundo depois, todos se uniram em volta do Martim para que ele continuasse a jogar. Claro que aqueles dois minutos não foram fáceis, entre o autogolo e a lesão logo a seguir. Se ele pudesse, certamente apagá-los-ia. Mas o verdadeiro crescimento de um jogador passa por estes momentos. O Martim já o provou: quando regressou de uma lesão anterior, cometeu um penálti em Nottingham, depois de ter visto um cartão vermelho em Arouca. Esse foi provavelmente o seu momento mais baixo e, depois disso, teve dois ou três meses em que brilhou ao mais alto nível. Para um jogador de 20 anos, ter esta qualidade é incrível. Acredito que voltará desta lesão para nos ajudar e para competir ao mais alto nível. Agora cabe-lhe a ele, mas também à equipa e aos adeptos, criar este sentimento de união para nos mantermos compactos nestes últimos 45 dias. Vão ser dias exigentes, mas também muito desafiantes. Estamos a lutar por coisas boas, coisas que nos devem dar as vibrações certas. Com a atitude correta, acredito que vamos conseguir o que merecemos.