Futebolistas iranianas falaram pela primeira vez depois do regresso a casa
A participação da seleção feminina de futebol do Irão na Taça da Ásia, em março, na Austrália, transformou-se num dos episódios mais controversos da história do desporto feminino iraniano, culminando com pedidos de asilo que foram posteriormente retirados por algumas jogadoras.
Tudo começou quando a equipa permaneceu em silêncio durante o hino nacional antes do jogo de abertura contra a Coreia do Sul, a 2 de março. O gesto ocorreu dois dias após o início de uma guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão, que resultou na morte do Líder Supremo, o Aiatola Ali Khamenei. Este silêncio foi interpretado como um protesto contra o governo iraniano, levando a televisão estatal a apelidar as jogadoras de «traidoras» e a exigir que fossem tratadas «severamente».
Iran women's football captain Zahra Ghanbari has withdrawn her asylum bid in Australia, according to Iran state media.
— DW Sports (@dw_sports) March 15, 2026
She is the fifth team member to reverse course after several players sought asylum following the Asian Cup anthem controversy. pic.twitter.com/AYNK7aLTR9
Apesar de terem cantado o hino nos dois jogos seguintes, os receios pela segurança das atletas aumentaram com notícias de que estariam a ser vigiadas por oficiais do governo e da federação iraniana. Após a eliminação do Irão na fase de grupos, com três derrotas, cinco jogadoras, incluindo a média Mona Hamoudi, pediram asilo e receberam vistos humanitários das autoridades australianas. Mais tarde, uma sexta jogadora e um membro da equipa técnica seguiram o mesmo caminho.
Contudo, após a partida do resto da comitiva a 10 de março, cinco das sete pessoas que tinham pedido asilo, incluindo Hamoudi, reverteram a sua decisão e optaram por regressar ao Irão.
Em declarações à Al Jazeera, Mona Hamoudi, de 32 anos, descreveu o torneio como «um teste a tudo: às minhas capacidades como jogadora, à minha paciência e à minha capacidade de tomar decisões difíceis sob uma enorme pressão». A média confessou que o dilema entre regressar a casa ou pedir asilo lhe causou «ansiedade constante», pois «cada escolha acarretava consequências — para a minha vida, para a minha família e para o meu futuro desportivo».
The Iranian women’s football team crossed into Iran from Türkiye after they dropped their asylum bids in Australia.
— Daily Turkic (@DailyTurkic) March 18, 2026
• They previously asked for asylum in Australia after refusing to sing Iran’s national anthem during a match. pic.twitter.com/qwZHTD66gE
A sua colega de equipa, Zahra Sarbali, também média de 32 anos, partilhou um sentimento semelhante, mencionando o «assédio e a perseguição constante dos meios de comunicação e das redes sociais, as expectativas, a pressão da comunidade irano-australiana». Sarbali sentia que cada passo estava «sob um escrutínio rigoroso» e que «qualquer decisão errada poderia prejudicar a equipa, a família e a imagem da seleção nacional».
Nenhuma das jogadoras quis comentar publicamente os motivos que as levaram a pedir asilo inicialmente. No entanto, ambas descrevem a decisão de regressar ao Irão como um ato ligado ao sentido de dever para com a família, as colegas de equipa e uma «obrigação nacional», em vez de uma escolha totalmente livre.
The Iran women's football team have received a hero's welcome on Iran state TV after returning from the Asian Cup in Australia.
— DW Sports (@dw_sports) March 19, 2026
The players, who walked over U.S. and Israel flags, were called "traitors" for refusing to sing the national anthem just weeks prior. pic.twitter.com/09iTN7r006
O regresso a Teerão foi vivido com grande tensão. Hamoudi temia que o episódio pudesse ditar o fim da sua carreira ou resultar numa punição severa. À chegada, sentiu uma «mistura de curiosidade, espanto e cautela». A atenção mediática intensificou-se e, segundo as jogadoras, a federação de futebol ofereceu apoio formal, com declarações públicas sobre os valores nacionais.
Após o regresso, as atletas apareceram na televisão nacional e retomaram os treinos normalmente, não havendo, até ao momento, registo de quaisquer repercussões por parte das autoridades. A 19 de março, a equipa foi recebida em Teerão por milhares de pessoas na Praça Valiasr, muitas delas com bandeiras iranianas, numa receção de heroínas.
Iran's players sang the national anthem and saluted before bowing out of the Women's Asian Cup with defeat in their last group match on Sunday in Australia.https://t.co/Qd3HE7vM5o pic.twitter.com/xlt6GKIIQd
— AFP News Agency (@AFP) March 8, 2026
O futuro das jogadoras da seleção feminina de futebol do Irão está envolto em incerteza, com especialistas a alertarem para o peso psicológico e as potenciais consequências negativas para as suas carreiras e para a equipa, após o seu regresso da Austrália.
Maryam Irandoust, antiga selecionadora da equipa feminina iraniana, afirmou à Al Jazeera que o que se passou com as atletas não pode ser visto como um simples evento desportivo. Segundo a mesma, estas experiências terão um impacto psicológico que afetará diretamente o desempenho nos treinos e nos jogos.
🔴 Iran’s women footballers refused to sing their country’s national anthem before their Asia Cup match against South Korea on Monday night
— Telegraph Football (@TeleFootball) March 3, 2026
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A preocupação de Irandoust estende-se para além do individual, alertando que se as jogadoras se sentirem alvo de injustiça, poderão surgir divisões internas. Na sua opinião, estas divisões são mais prejudiciais para o desenvolvimento da equipa do que qualquer sanção formal.
«Toda a equipa é afetada pelo que acontece a qualquer um dos seus membros», declarou, acrescentando que «um julgamento severo ou uma punição direta não resolverá nenhum problema. Poderá comprometer o futuro das jogadoras e afetar negativamente toda a equipa».
Por sua vez, Adel Ferdosipour, um experiente jornalista e comentador desportivo iraniano, sublinhou à Al Jazeera que o futebol feminino no Irão nunca antes tinha recebido tanta atenção pública e cobertura mediática. O comentador considera que os acontecimentos extravasaram a esfera desportiva, tornando-se um assunto público e aumentando a pressão sobre todos os envolvidos.
Ferdosipour alertou ainda que qualquer punição às jogadoras poderá dissuadir futuras atletas de representar o Irão. «Se o foco for apenas na crítica pública sem fornecer apoio», avisou, «isto criará um precedente perigoso que afetará qualquer jogadora no futuro».
Recorde-se que, num evento, foram projetadas imagens gigantes das jogadoras geradas por inteligência artificial, jurando lealdade à bandeira iraniana com marcos nacionais como pano de fundo. Um painel publicitário exibia a frase «A Minha Escolha. A Minha Pátria», e todas as atletas cantaram o hino nacional quando este foi tocado.
No entanto, para as jogadoras Hamoudi e Sarbali, persiste o receio sobre as consequências para as suas carreiras e sobre como cada uma das suas futuras ações poderá ser interpretada.
«Tornei-me mais consciente das pressões sociais e políticas à minha volta», afirmou Hamoudi, «e percebi o valor do apoio familiar e do compromisso nacional para enfrentar as crises».