Duas das jogadoras que voltaram ao Irão e desistiram do pedido de asilo, deram primeira entrevista à Al Jazeera. IMAGO
Duas das jogadoras que voltaram ao Irão e desistiram do pedido de asilo, deram primeira entrevista à Al Jazeera. IMAGO

Futebolistas iranianas falaram pela primeira vez depois do regresso a casa

Nenhuma jogadora comentou publicamente os motivos que as levaram a pedir asilo, mas assumiram a decisão de regressar ao Irão como um ato ligado ao sentido de dever para com a família, colegas de equipa e uma «obrigação nacional», em vez de uma escolha totalmente livre

A participação da seleção feminina de futebol do Irão na Taça da Ásia, em março, na Austrália, transformou-se num dos episódios mais controversos da história do desporto feminino iraniano, culminando com pedidos de asilo que foram posteriormente retirados por algumas jogadoras.

Tudo começou quando a equipa permaneceu em silêncio durante o hino nacional antes do jogo de abertura contra a Coreia do Sul, a 2 de março. O gesto ocorreu dois dias após o início de uma guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão, que resultou na morte do Líder Supremo, o Aiatola Ali Khamenei. Este silêncio foi interpretado como um protesto contra o governo iraniano, levando a televisão estatal a apelidar as jogadoras de «traidoras» e a exigir que fossem tratadas «severamente».

Apesar de terem cantado o hino nos dois jogos seguintes, os receios pela segurança das atletas aumentaram com notícias de que estariam a ser vigiadas por oficiais do governo e da federação iraniana. Após a eliminação do Irão na fase de grupos, com três derrotas, cinco jogadoras, incluindo a média Mona Hamoudi, pediram asilo e receberam vistos humanitários das autoridades australianas. Mais tarde, uma sexta jogadora e um membro da equipa técnica seguiram o mesmo caminho.

Contudo, após a partida do resto da comitiva a 10 de março, cinco das sete pessoas que tinham pedido asilo, incluindo Hamoudi, reverteram a sua decisão e optaram por regressar ao Irão.

Em declarações à Al Jazeera, Mona Hamoudi, de 32 anos, descreveu o torneio como «um teste a tudo: às minhas capacidades como jogadora, à minha paciência e à minha capacidade de tomar decisões difíceis sob uma enorme pressão». A média confessou que o dilema entre regressar a casa ou pedir asilo lhe causou «ansiedade constante», pois «cada escolha acarretava consequências — para a minha vida, para a minha família e para o meu futuro desportivo».

A sua colega de equipa, Zahra Sarbali, também média de 32 anos, partilhou um sentimento semelhante, mencionando o «assédio e a perseguição constante dos meios de comunicação e das redes sociais, as expectativas, a pressão da comunidade irano-australiana». Sarbali sentia que cada passo estava «sob um escrutínio rigoroso» e que «qualquer decisão errada poderia prejudicar a equipa, a família e a imagem da seleção nacional».

Nenhuma das jogadoras quis comentar publicamente os motivos que as levaram a pedir asilo inicialmente. No entanto, ambas descrevem a decisão de regressar ao Irão como um ato ligado ao sentido de dever para com a família, as colegas de equipa e uma «obrigação nacional», em vez de uma escolha totalmente livre.

O regresso a Teerão foi vivido com grande tensão. Hamoudi temia que o episódio pudesse ditar o fim da sua carreira ou resultar numa punição severa. À chegada, sentiu uma «mistura de curiosidade, espanto e cautela». A atenção mediática intensificou-se e, segundo as jogadoras, a federação de futebol ofereceu apoio formal, com declarações públicas sobre os valores nacionais.

Após o regresso, as atletas apareceram na televisão nacional e retomaram os treinos normalmente, não havendo, até ao momento, registo de quaisquer repercussões por parte das autoridades. A 19 de março, a equipa foi recebida em Teerão por milhares de pessoas na Praça Valiasr, muitas delas com bandeiras iranianas, numa receção de heroínas.

O futuro das jogadoras da seleção feminina de futebol do Irão está envolto em incerteza, com especialistas a alertarem para o peso psicológico e as potenciais consequências negativas para as suas carreiras e para a equipa, após o seu regresso da Austrália.

Maryam Irandoust, antiga selecionadora da equipa feminina iraniana, afirmou à Al Jazeera que o que se passou com as atletas não pode ser visto como um simples evento desportivo. Segundo a mesma, estas experiências terão um impacto psicológico que afetará diretamente o desempenho nos treinos e nos jogos.

A preocupação de Irandoust estende-se para além do individual, alertando que se as jogadoras se sentirem alvo de injustiça, poderão surgir divisões internas. Na sua opinião, estas divisões são mais prejudiciais para o desenvolvimento da equipa do que qualquer sanção formal.

«Toda a equipa é afetada pelo que acontece a qualquer um dos seus membros», declarou, acrescentando que «um julgamento severo ou uma punição direta não resolverá nenhum problema. Poderá comprometer o futuro das jogadoras e afetar negativamente toda a equipa».

Por sua vez, Adel Ferdosipour, um experiente jornalista e comentador desportivo iraniano, sublinhou à Al Jazeera que o futebol feminino no Irão nunca antes tinha recebido tanta atenção pública e cobertura mediática. O comentador considera que os acontecimentos extravasaram a esfera desportiva, tornando-se um assunto público e aumentando a pressão sobre todos os envolvidos.

Ferdosipour alertou ainda que qualquer punição às jogadoras poderá dissuadir futuras atletas de representar o Irão. «Se o foco for apenas na crítica pública sem fornecer apoio», avisou, «isto criará um precedente perigoso que afetará qualquer jogadora no futuro».

Recorde-se que, num evento, foram projetadas imagens gigantes das jogadoras geradas por inteligência artificial, jurando lealdade à bandeira iraniana com marcos nacionais como pano de fundo. Um painel publicitário exibia a frase «A Minha Escolha. A Minha Pátria», e todas as atletas cantaram o hino nacional quando este foi tocado.

No entanto, para as jogadoras Hamoudi e Sarbali, persiste o receio sobre as consequências para as suas carreiras e sobre como cada uma das suas futuras ações poderá ser interpretada.

«Tornei-me mais consciente das pressões sociais e políticas à minha volta», afirmou Hamoudi, «e percebi o valor do apoio familiar e do compromisso nacional para enfrentar as crises».